A descida é sempre mais fácil

Acabo de terminar uma defesa de mestrado sobre três distopias. Enquanto falo sobre a última, mais contemporânea, noto que o problema central é a coexistência entre diferentes espécies, mais diferentes na ideia do que na prática, e o exercício de poder de uma sobre a outra. A obra defende, poeticamente, a urgência por coletividade, por colaboração, pelo fim de muros inúteis, fronteiras e massacres. 

Estou no campo da ficção, mas a realidade, ultimamente, tem superado em muito o horror do cinema e da literatura. Lá no Oriente Médio, no Afeganistão, dezenas de jornais me informam que o Talibã voltou ao poder. O mesmo Talibã que baleou uma jovem Malala na cabeça, em 2012, no Paquistão, por querer estudar. E agora esse grupo, que usa a religião como desculpa para trancar, estuprar, podar, mandar e assassinar, ocupa Cabul, menos de um mês após a saída das tropas americanas do país. E declara que aquele mundo é seu.

Um mundo em pânico, no caso. Com civis (os mesmos que eles disseram apoiar o golpe, autointitulado um “levante popular”) correndo para aeroportos lotados numa tentativa desesperada de fugir, dependurando-se em aviões sem calcular os riscos. Pelo menos sete morreram assim. Talvez parecesse um destino menos pior do que a perda repentina de todos os seus direitos? Mas afinal, será mesmo que aquele mundo poderia, em questão de dias, regredir séculos para uma realidade pré-capitalista, pré-feminista, pré-globalizada, pré-democrática? Não estamos exagerando…? Ah, mas você já deveria saber que a descida é sempre mais fácil do que a subida.

Aos jornais internacionais, porta-vozes do Talibã tentam evitar o bloqueio de recursos ou uma nova invasão militar adotando um discurso moderado: “Seremos um governo inclusivo”, dizem, cercados por homens e metralhadoras. “As mulheres poderão continuar seus estudos e trabalhar”, prometem, enquanto crescem relatos de soldados invadindo escritórios bancários e mandando essas mesmas mulheres para suas casas, anunciando que os maridos ou outros parentes masculinos tomarão seus lugares. 

Os maridos. Os irmãos. Os pais. Já imaginou perder tudo o que você conquistou com estudo e trabalho, incluindo seu dinheiro e sua identidade, para alguém que você ama? Mas espere, isso soa familiar… Onde foi que você já viu essa cena antes? Sim, você viu. Margaret Atwood também viu, e usou essa imagem para ancorar sua distopia mais famosa. Aquela, que você talvez tenha conhecido pela televisão, ou pelo livro: chama “O Conto da Aia”. 

Você tem onze minutinhos?

Então deixa o Instagram de lado rapidinho e vem comigo neste link conhecer um dos dois curtas-metragens brasileiros que se qualificaram para o Oscar 2021 (ambos dirigidos por mulheres, porque o mundo agora é nosso, né?), e podem figurar na pré-lista de indicados que será divulgada no dia 9 de fevereiro (a premiação será em abril). O outro, de oito minutos, você pode assistir aqui depois e chorar um pouquinho. 

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Crítica: com elenco forte, “As Sufragistas” retrata movimento feminista no início do século XX

Não poderia haver momento mais oportuno para o lançamento de “As Sufragistas”. Baseado na história real do movimento britânico pelo direito ao voto feminino no início do século XX, o longa mostra o quanto já foi conquistado no caminho pela igualdade entre os gêneros, mas também permite ver o quanto ainda não foi.

sufragistas

Para quem pretende comprar o ingresso para ver a “diva das divas” Meryl Streep, fica o aviso: ela tem uma participação mínima no filme. A verdadeira protagonista é Maud Watts, interpretada por Carey Mulligan e acompanhada, na maior parte do tempo, por Violet Miller (Anne-Marie Duff) e Edith Ellyn (Helena Bonham Carter).

O filme acompanha a evolução de Maud, da negação do movimento sufragista (nome dado ao grupo organizado de mulheres que lutavam pelo voto, ou “sufrágio”) à militância extrema. Lavadeira, esposa e mãe, ela começa a questionar o próprio papel na sociedade quando, por um incidente, é levada a depor a favor do voto diante de um júri formado por homens.

O marido de Maud, vivido por Ben Whishaw, tem uma presença essencial no filme, representando o machismo internalizado que se disfarça de preocupação com a mulher. É dele que partem algumas das atitudes mais devastadoras da trama. O filme de Sarah Gavron mostra o quanto a militância exige daquelas mulheres, que abrem mão de suas famílias pelo sonho de uma vida melhor para suas filhas ou as filhas dos outros, pois sabem que a mudança não virá em seu tempo.

Para quem assiste à história hoje, algumas passagens são tão absurdas que parecem até ficção – como o fato de as mulheres não serem donas do próprio dinheiro, ou de não poderem ter a guarda (nem mesmo compartilhada) do próprio filho – mas outras, infelizmente, soam bastante familiares. É o caso de frases como “você é minha esposa, deveria se comportar como tal”, “mulheres não têm consciência do que estão fazendo” ou “controle sua mulher, ela está passando dos limites”.

“As Sufragistas” segue um formato linear de romance histórico, apostando nos pequenos gestos opressores mais do que em grandes confrontos. Talvez por isso, o filme não consegue surpreender ou superar as expectativas, atendo-se a cumprir exatamente o que prometera: uma história real dramatizada com o auxílio de uma história pessoal comovente. Não falta técnica à produção, mas falta ousadia. E, como o próprio filme ensina, a ousadia é necessária para provocar mudanças.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.