Bohemian Rhapsody: biografia do Queen joga seguro, mas emociona

Quando as primeiras notas de Another One Bites the Dust vibram no baixo de John Deacon e ressoam pelas caixas de som na sala de cinema, os fãs se arrepiam e uma acalorada discussão chega ao fim. Na tela, Freddie, Roger e May vinham discordando sobre incluir ou não um pouco de Disco no álbum seguinte, mas aquele riff perfeito trouxe suas atenções de volta ao que importava: a música. Sem gêneros, sem promessas, sem padrões, simplesmente a música do Queen. Continuar lendo “Bohemian Rhapsody: biografia do Queen joga seguro, mas emociona”

Crítica: “Tudo Que Aprendemos Juntos” traz Lázaro Ramos como um professor de violino em Heliópolis

Filmes sobre professores já se tornaram um verdadeiro gênero à parte. Desde os anos 60, diretores de diversos países têm trabalhado para reforçar a imagem do educador como um herói moderno, capaz de promover mais revoluções do que qualquer soldado em campo de guerra. Agora, um novo título chega aos cinemas para reforçar o tema, desta vez se debruçando sobre as escolas brasileiras. “Tudo Que Aprendemos Juntos”, de Sérgio Machado, estreia no dia 3 de dezembro e merece sua atenção.

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O longa é uma adaptação da peça “Acorda Brasil”, de Antônio Ermínio de Moraes, e narra uma história fictícia inspirada no Instituto Baccarelli e na Orquestra Sinfônica de Heliópolis. O protagonista é Laerte (Lázaro Ramos), um violinista que, contra a sua vontade, assume uma turma de alunos numa escola pública e acaba transformando radicalmente sua vida e a daqueles jovens.

Um dos pontos positivos do filme é que o roteiro não é ingênuo. Laerte não tem o sonho de transformar a comunidade ou combater a violência, e nem é esse o resultado do seu trabalho. Na verdade, ele só aceita o cargo porque fracassa na audição para a OSESP e, desde o início, mostra-se bastante desconfortável com a ideia de frequentar a favela. Só o faz porque descobre ser irresistível ver a evolução dos seus alunos.

O que o filme explora não é o idealismo piegas de que a música pode mudar o mundo (pelo menos não diretamente), mas sim a relação que se estabelece entre professor e alunos e entre os alunos e a aprendizagem, num ambiente em que a escola já perdeu há muito tempo sua função.

A periferia paulistana de “Tudo Que Aprendemos Juntos” poderia ser a californiana de “Mentes Perigosas” (1995) ou a parisiense de “Entre os Muros da Escola”(2008). Aqui, como ali, a autoridade precisa ser conquistada pelo professor não apenas em sala de aula como também fora dela, num equilíbrio delicado entre escola, líderes locais (traficantes, no caso) e as famílias disfuncionais dos estudantes.

Além de Ramos, que encarna com firmeza seu papel, também se destaca o estreante Kaíque de Jesus, que interpreta o aluno prodígio Samuel. Carismático e habilidoso, Samuel encanta o professor e até provoca ciúmes nos colegas de turma, o que culmina numa discreta sequência que diz muito sobre o papel do educador e o desafio de atender ao indivíduo e ao grupo simultaneamente. Nesta cena, também fica clara a carência daqueles jovens por atenção e o papel que a música (e o orgulho de tocá-la) acabará preenchendo em suas vidas.

“Tudo Que Aprendemos Juntos” tem todos os elementos nos lugares certos: o roteiro é inteligente e, apesar de ter as viradas comuns ao gênero, não soa repetitivo. Os atores, iniciantes ou veteranos, falam com naturalidade e fazem com que os contrastes entre periferia e capital não sejam forçados. A fotografia é bem trabalhada (destaque para uma sequência de combate com a polícia) e a trilha aposta numa imersão musical, como deveria ser. Ao conjunto já extenso de clássicos escolares, parece claro que Machado deve deixar sua marca, trazendo uma contribuição bastante particular. Vale 100% seu ingresso.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Straight Outta Compton – A História do N.W.A.” dá uma aula de história social e musical americana

Quando “Straight Outta Compton” estreou nos Estados Unidos, em agosto, ninguém esperava que a cinebiografia dos rappers do grupo N.W.A. (sigla para “negros com atitude”) fosse superar “Missão: Impossível – Nação Secreta” e “O Agente da U.N.C.L.E.” e arrecadar mais de US$ 60 milhões num único fim de semana. O filme ainda se manteve no topo das bilheterias por três semanas e embolsou um total de US$ 196 milhões desde então. O custo de produção não chegou a um sexto disso.

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O público brasileiro pode não estar tão familiarizado com os artistas em cena, mas, para o rap americano, Ice Cube, Dr. Dre, Easy-E, DJ Yella e MC Ren foram os precursores que tornaram possível o sucesso de músicos como Eminem e 50 Cent, trazendo da vivência nas ruas letras sobre violência, drogas e a luta contra a polícia.

Apesar de tratar de uma realidade bastante específica, “Straight Outta Compton” (que ganhou o subtítulo “A História do N.W.A.” no Brasil) não é um filme apenas para fãs de rap. A música, é claro, está por toda a parte e compõe uma trilha sonora excepcional, mas há muito mais em jogo do que rimas e batidas.

O filme acompanha a história do grupo desde a sua formação, nos anos 80, até meados dos anos 90. No caminho, passa por dezenas de casos de preconceito racial, escancara a violência entre gangues e a corrupção na indústria musical, lembra o escândalo envolvendo a agressão de Rodney King pela polícia em 1991 e chega ao auge da epidemia de AIDS na mesma década. A história da música, não resta dúvida, reflete a trajetória de todo um país.

O longa tem duas horas e meia de duração, mas nunca perde o ritmo. Ao invés de seguir à risca o formato tradicional das cinebiografias musicais (a ascensão e queda de um talento perturbado pelas drogas, pelo dinheiro ou por um amor mal resolvido), o filme poupa julgamentos, mostra que nem todo excesso é seguido por fracasso e se enriquece com o romance histórico que constrói nas entrelinhas.

Em pouco tempo, nossa atenção é fisgada pela autenticidade dos personagens (interpretados por Corey Hawkins, Jason Mitchell, Neil Brown Jr., Aldis Hodge e O’Shea Jackson Jr., filho de Ice Cube) ou pela identificação com o cenário de censura e tensão social, sempre pulsante. Nesse contexto, como Cube afirma em certo momento, a música assume o papel de imprensa, levando a todo o país um retrato do cotidiano de um submundo habitado por traficantes e gangues, mas também por artistas, estudantes e pessoas comuns, que já se acostumaram a viver em meio à violência de ambos os lados (da lei e de fora dela).

Mais espantoso do que a agressividade das letras dos raps (que falam de morte e tráfico como se fossem “bom dia”) é a atualidade da situação. Dois anos depois do excelente “Fruitvale Station” denunciar o abuso de poder de policiais contra jovens da periferia, e no mesmo ano em que os Estados Unidos foram tomados por protestos civis contra o assassinato de negros desarmados por esses mesmos policiais, “Straight Outta Compton” chega para mostrar que as questões raciais ainda não estão nem perto de serem resolvidas. Mas que o cinema está de olhos bem abertos.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: Meryl Streep é puro rock n’ roll em “Ricki and The Flash – De Volta Para Casa”

Pode admitir: às vezes, você vai ao cinema só para ver aquela risada gostosa da Meryl Streep. E, outras vezes, você vai para ver uma história leve, com alguma lição de vida, com a qual possa se identificar. “Ricki and The Flash – De Volta Para Casa” sabe de tudo disso e entrega exatamente o que o público quer, com o luxo de um bom roteiro, uma boa trilha sonora e um ótimo time de coadjuvantes.

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No drama dirigido por Jonathan Demme e escrito por Diablo Cody (lembra dela, de “Juno”?), Streep interpreta Ricki Rendazzo, a vocalista de uma banda de rock que abandonou tudo para perseguir o sonho de ser uma estrela. Anos depois, oficialmente falida, ela trabalha como caixa num supermercado e vive seus minutos de glória tocando à noite num bar local.

Quando sua filha, Julie (Mamie Gummer), se separa do marido e tenta suicídio, a presença da mãe se faz necessária do outro lado do país. Além de Julie, Ricki havia deixado para trás outros dois filhos, um ex-marido e seu nome de batismo (Linda).

Gummer é uma das grandes surpresas do filme. Filha de Streep na vida real, a atriz não se permite ofuscar pela presença da mãe e conquista seu próprio espaço na tela, trazendo uma personagem desequilibrada, sarcástica e muito divertida. Kevin Kline, Rick Springfield, Sebastian Stan, Ben Platt e Audrey McDonald reforçam o elenco.

“Ricki and The Flash” é um filme clássico de reconciliação, doce e otimista como se espera do gênero, mas suficientemente complexo para não soar falso. Ricki/Linda tem relações oscilantes com diversos personagens, provando diferentes sentimentos à medida que amadurece (porque, sim, pessoas idosas também podem amadurecer).

Com o parceiro de banda, por exemplo, ela vive um amor não assumido. Já com a segunda mãe de seus filhos, sente um ódio misturado à gratidão, enquanto com a filha é um estranhamento familiar e, com o ex-marido, um carinho que não se força a ser “algo a mais”. Felizmente, o realismo é um dos talentos de Cody.

O longa ainda flerta, sem alarde, com temas como feminismo, homossexualidade e nacionalismo, colocando essas questões sob a perspectiva de uma geração que viveu o auge do rock n’ roll, mas que não se identifica mais como subversiva ou moderna. O conflito entre pais e filhos, aqui, ganha uma abordagem invertida e muito interessante.

Entre uma discussão e outra, é claro, o filme traz Meryl Streep em sua melhor forma: soltando a voz, exibindo longos e trançados cabelos loiros e explorando todas as sutilezas de uma personagem livre, vaidosa, desbocada e ao mesmo tempo muito insegura. Quem está disposto a comprar ingressos só pelo nome no cartaz, pode ir sem hesitar, mas o filme também vale para quem procura uma comédia dramática leve, mas bem feita. O longa estreia no dia 3 de setembro nos cinemas.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

“Frank”: personagem sem rosto lidera comédia dramática indie

Esqueça qualquer expectativa que você tenha sobre “Frank”. Um filme cujo protagonista veste uma cabeça de cartoon gigantesca e é o líder de uma banda psicodélica tem, acima de tudo, a obrigação de surpreender.

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O filme segue o ponto de vista de Jon (Domhnall Gleeson), um aspirante a músico que tenta encontrar nas situações mais cotidianas a inspiração para novas canções – em geral, sem sucesso. Um dia, após presenciar a tentativa de suicídio de um tecladista, Jon se oferece para substituí-lo num show.

A apresentação acaba sendo um desastre, mas, mesmo assim, a banda liderada pelo enigmático Frank (interpretado por um ator que manteremos em sigilo, mas que experimenta aqui uma postura totalmente diferente de qualquer outro papel em que já trabalhou) abraça-o como um novo integrante, e vai passar uma temporada no campo para gravar um álbum. O que acontece lá está além de qualquer explicação lógica, mas tem a ver com criatividade, loucura e as economias de uma vida inteira jogadas pelo ralo.

“Frank” é um filme sobre música tanto quanto é sobre solidão, sucesso e expectativas. Quebram-se as de Jon em relação a Frank e também as nossas em relação aos dois. Jon quer se sentir parte de uma banda revolucionária, mas não é. Ele quer que o Twitter lhe dê todas as respostas, mas não dá. Quanto a nós, queremos acreditar que Frank é um gênio da música e que Jon é o novato que vai  aprender com ele, mas também não é isso.

Ironicamente, são os personagens mais detestáveis (em especial a instrumentista histérica interpretada por Maggie Gyllenhaal) que trazem equilíbrio a essa estranha família – e entendê-la como uma família, por trás de todo o barulho, é essencial para se chegar são ao final.

O longa, escrito por Ron Jonson e Peter Straughan, é inspirado na história de um homem real chamado Chris Sievey – um músico que, nos anos 80, criou um personagem para comédias stand-up chamado Frank Sidebottom, que usava uma cabeça como a que vemos no filme.

Apesar de ser dedicado a Sievey, o Frank dos cinemas não é (nem pretende ser) o mesmo da vida real. Em primeiro lugar, ele não é apenas cômico. Sua postura é silenciosa e observadora e, à medida em que o conhecemos melhor, percebemos que sua identidade é essencialmente trágica.

A ligação com a música é um elo em comum entre os dois, mas até isso é distorcido no filme. Aqui, não se fazem canções “agradáveis”, mas criam-se obras de arte, íntimas e impenetráveis. Como consequência, o sucesso é apenas um horizonte distante na carreira-vida deste Frank – e talvez seja exatamente dessa distância que ele precise.

Texto publicado no Guia da Semana em 8/04/2015.

SOMOS TÃO JOVENS (E TÃO CARETAS)

Fui assistir toda esperançosa à cinebiografia de Renato Russo, o tão falado Somos Tão Jovens, de Antônio Carlos da Fontoura. O menino é bom, diziam. A história dele é incrível, eu pensava. Mas…  Sabe como é. O diretor conseguiu o impossível: se esquivar de temas polêmicos fazer uma caricatura infantil dos anos 60.

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Somos Tão Jovens conta a história de Renato Manfredini Júnior (o “Russo”, pasmem, foi uma homenagem aos filósofos Bertrand Russell e Jean-Jacques Rousseau) em suas primeiras aventuras musicais: primeiro no Aborto Elétrico, com André Pretorius e Fê Lemos, depois com a nova formação sem Pretorius, com Flávio Lemos, e por fim numa curta carreira solo antes do nascimento do Legião, com Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Paulo Paulista. Dinho Ouro Preto e Herbert Vianna também dão as caras no filme, lembrando que Brasília foi mesmo o berço do que se viu de melhor no rock nacional até hoje.

Como já era de se esperar, é bem difícil segurar os pés na sequência de abertura: a vontade é cantarolar e marcar as batidas da música que dá nome ao filme. Mas os primeiros minutos jogam um balde de água fria nessa empolgação toda: descobrimos uma doença degenerativa que impede nosso herói de andar durante os anos de colégio, e ficamos esperando a desgraça voltar às telas a qualquer instante – o que não acontece.

A descoberta do sexo, das drogas (só a maconha, no caso) e do punk rock marcam os meninos do Aborto Elétrico durante os repressores anos 70. E eles não estão sozinhos: bandas inglesas e norte-americanas chegam aos seus ouvidos com atraso, mas com um impacto devastador. Chega a ser cômico o momento em que a morte de John Lennon é noticiada e Russo se desespera como se fosse um velho conhecido.

Na tela, porém, o que vemos é apenas esse retrato caricato, com piadas e frases de efeito (ou citações óbvias de canções), e não o sentimento agonizante de querer mudar o mundo sem dar conta do próprio umbigo que de fato marcou aquela geração. Vemos um bando de adolescentes brincando de pular, gritar e rasgar as roupas, sonhando com a fama, mas a carga política – tão forte nas letras de Russo – fica em segundo (se não terceiro) plano no filme de Fontoura.

A homossexualidade do músico (que morreu de AIDS em 96) infelizmente permanece um tabu.  Mesmo não esperando um beijo gay, surpreende que a segunda figura mais forte do filme seja Ana Cláudia, uma personagem fictícia que ocupa o papel de melhor amiga e amante do artista. Interpretada por Laila Zaid, Ana é protagonista das únicas cenas de beijo e sexo – já que, com homens, Russo se limita a flertar e abraçar.

A interpretação de Thiago Mendonça (que canta e toca ao vivo, sem intervenções de estúdio) é digna, mas não se destaca: os diálogos são “certinhos” demais para o ambiente e deixam tudo um pouco falso.