Beleza Oculta (David Frankel, 2016)

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A premissa de “Beleza Oculta” me conquistou desde o primeiro trailer: um homem em luto escreve para três entidades – o Amor, o Tempo e a Morte – e recebe a visita delas, em carne e osso. Para quem olhasse com cuidado, o próprio teaser já sugeria que essas encarnações talvez não fossem tão sobrenaturais assim, mas apenas atores contratados como uma forma de terapia, mas admito que essa ideia me agradava ainda mais. O que importa, afinal, é a abstração. Certo?

Fui, então, conferir o filme depois de ler e ouvir algumas críticas mais negativas do que eu esperava. “É uma bagunça”, dizia um; “é um novelão”, analisava outro. Respirei fundo e encarei a tela de coração aberto. E não é que gostei do que vi?

Entenda: “Beleza Oculta” realmente não é nenhuma obra-prima, nenhum manifesto revolucionário ou proeza técnica, mas sabe o que ele é? Um filme gostoso de assistir. Daqueles que você vai querer ver num domingo à tarde sozinho em casa, dando algumas risadas, tomando um chocolate quente e se sentindo um pouco melhor quando rolarem os créditos finais. E esse tipo de filme é tão necessário quanto o drama ucraniano da Mostra, o terror cult do Noitão ou o épico do sábado à noite. Ele, simplesmente, faz bem.

E não é um bem às custas dos outros, que fique claro. Não é aquele filme que mostra o herói se dando bem enquanto os coadjuvantes são descartados, nem aquele que ignora diferenças de classe, gênero e cor. Ele ignora, no máximo, a maldade – e não há nada de mau nisso.

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O filme tem um elenco assombroso (do tipo que você até desconfia): Will Smith é o protagonista que perdeu uma filha de seis anos; Edward Norton, Kate Winslet e Michael Peña são seus sócios na agência de publicidade; Helen Mirren, Keira Knightley e Jacob Latimore são as “abstrações”; enquanto Naomie Harris vive a organizadora de um grupo de apoio a pais em luto.

Um filme com essa proposta poderia facilmente cair num exercício falso e esotérico de autoajuda, mas alguns detalhes o mantêm no eixo. O primeiro, é claro, é o elenco: uma Morte interpretada por Helen Mirren jamais seria unidimensional, e se há um papel que Will Smith consegue cumprir é o do homem de bom coração que sofre, cai e se reconstrói. É fácil acreditar nesse grupo e a empatia é o primeiro passo para embarcar numa história com um toque de fantasia.

O segundo elemento é o roteiro, assinado por Allan Loeb (“Quebrando a Banca”). Os diálogos, ao invés de recorrerem a frases vazias de caminhão, reúnem conselhos realmente úteis para quem está passando por uma tragédia, e ajudam a conferir mais significado a palavras de conforto muitas vezes desgastadas. Além disso, é interessante ver como as intenções dos sócios podem ser ao mesmo tempo reprováveis e compreensíveis, o que traz ainda mais uma camada de identificação ao filme.

“Beleza Oculta” é dirigido por David Frankel (“O Diabo Veste Prada”) e já está em cartaz nos cinemas.

 

Moonlight – Sob a Luz do Luar

Nesta temporada de premiações, dois nomes vêm sendo repetidos à exaustão e devem brigar de frente pelo Oscar 2017 (isso, é claro, se nenhuma campanha mais generosa interferir). Um, obviamente, é “La La Land – Cantando Estações”, o apaixonado e megalomaníaco projeto de Damien Chazelle sobre Hollywood, jazz e seus românticos incuráveis. O outro, bem mais discreto e ainda longe de estrear por aqui (o lançamento está marcado para 23 de fevereiro, às vésperas da premiação), é “Moonlight – Sob a Luz do Luar”.

Seria injusto tentar comparar os dois filmes, por mais que seja exatamente isso que vá acontecer mais cedo ou mais tarde. De um lado, um romance metafórico sobre o contexto, a arte, a magia, sem foco nos personagens, mas sim no universo em que vivem. Do outro, um drama intimista e psicológico sobre um indivíduo, seu mundo interior, sua realidade em conflito com esse universo. São obras opostas e igualmente sensíveis.

“Moonlight” é baseado numa peça que nunca foi produzida chamada “In moonlight black boys look blue”, de Tarell Alvin McCraney, e conta a história de um garoto negro crescendo numa comunidade pobre em Miami. Esse recorte poderia ser sinônimo de uma abordagem agressiva, crua e pessimista, mas, surpreendentemente, o longa de Barry Jenkins escolhe o caminho oposto: delicadeza, angústia e uma ponta de otimismo.

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O protagonista é Chiron, interpretado por três atores diferentes à medida que cresce: Alex R. Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes. Ele não é apenas negro e pobre, mas também gay – e sofre as consequências disso antes mesmo de compreender os próprios sentimentos. Chiron também lida com a mãe (Naomie Harris), que é viciada em drogas e o despreza, desenvolvendo uma relação de interdependência tóxica com o filho.

Um dia, enquanto foge dos colegas da escola, Chiron encontra Juan (Mahershala Ali, nome difícil que você terá que decorar, pois está prestes a explodir), um traficante que o abriga em momentos de crise, junto com a esposa (Janelle Monáe), e lhe ensina lições importantes para a vida, sem jamais deixar de devolvê-lo aos braços da mãe. A relação entre os três é bela e sincera, mesmo tropeçando em certos dilemas insolúveis.

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“Moonlight” é diferente em muitos sentidos. Sua forma é ambiciosa – cada período na vida de Chiron representa um início de um longo processo: o encontro da figura paterna; a descoberta da sexualidade (e da punição que vem com ela); a aceitação. Como em três filmes separados, acompanhamos a evolução de um grupo de personagens caminhando quase inevitavelmente para preencher aqueles clichês que esperávamos no início do filme: papéis pré-definidos, previsíveis, determinados – o gângster, o trabalhador suado, a mulher silenciada.

Esses papéis, porém, não os definem realmente – são apenas fantasias que eles assumem diante do mundo como um escudo. Sob o uniforme, logo se vê, estão pessoas de carne, osso e coração… Transparentes sob a luz do luar.