O que faz um filme ruim?

Antes de ontem, quis assistir a alguma coisa boba. Um filme que não prometesse muito, nem decepcionasse, para ver comendo pipoca de cérebro semi-desligado. Parece fácil, mas vocês ficariam surpresos com o quão raro é encontrar um desses por aqui – na maioria das vezes, me irrito com os primeiros dez minutos e vou ver outra coisa, que pode ser ótima, mas nem de longe era o petisco relaxante que eu procurava. O eleito, dessa vez, foi um filminho de ficção científica da Netflix que já tínhamos considerado mais do que algumas vezes só porque o protagonista era o Michael Peña e, pelo menos como coadjuvante em Homem Formiga, ele tinha sido simpático. Queríamos alguém simpático para aquela sexta-feira à noite.

O personagem de Peña, aqui, era um engenheiro elétrico vivendo num futuro meio genérico (não do tipo pós-apocalíptico, mas do tipo prédios-brancos-e-roupas-pastéis). Ele era o clichê do pai bem intencionado, mas avoado, que não vinha dando muita atenção à família desde que começara a ter pesadelos sobre uma invasão alienígena (o que parece algo que faria você se preocupar mais com sua família, mas… cada um com suas prioridades). A primeira cena do filme trazia um monólogo em que ele refletia sobre como nunca se pode saber exatamente quem são as pessoas que se pensa conhecer tão bem, e isso já me dizia que a tal invasão revelaria algo sobre a natureza daquela família ou daquela sociedade. Talvez fosse tudo uma simulação. Talvez fossem eles os aliens, invadindo o planeta de alguém no sonho-premonição. Talvez o ataque já tivesse acontecido e os aliens estivessem entre eles, disfarçados de pessoas comuns. Talvez fossem todos androides, porque a guerra que ele viu tinha matado todo mundo (e eu tinha visto um episódio de Electric Dreams que era mais ou menos assim). Vai saber.  

Fosse qual fosse a história, eu já começava a suspeitar que já a tinha visto antes, e que seria muito, muito difícil me surpreender. Uma pena, né? Lembro de como era boa a sensação de ser realmente arrebatada por uma revelação espetacular, de ficar dias remoendo as mensagens e significados ocultos de um filme futurista… Mas faz tempo. Quanto mais filmes você vê, mais difícil fica fugir do déjà-vu.

Em defesa do filme, ele nunca tinha prometido nada – seu nome era “Extinção”, quem era eu para esperar alguma coisa? Mesmo assim, os efeitos eram bem feitinhos e as atuações não eram totalmente ruins (nem totalmente boas). Mas como perdoar um filme que faz seu protagonista passar meses tendo visões, para depois não fazê-lo nem um pouquinho melhor preparado para o apocalipse do que as pessoas que não tiveram esse aviso prévio? Cara, jura que todas aquelas noites mal dormidas não serviram para nada? Que personagem inútil. 

Crítica: Extinction (2018)

E assim começou meu ódio por um filme perfeitamente mais-ou-menos. E isso me fez perceber que, para ser sentido como ruim (porque “ruim” é um sentimento seu, não um estado da coisa), um filme precisa cumprir pelo menos dois critérios: previsibilidade e falta de coerência. O que são duas características quase contraditórias, se você parar para pensar.

A primeira é absolutamente pessoal: depende do seu repertório naquele gênero ou assunto. Se você já viu algum filme ou leu algum livro com uma história parecida, vai conseguir prever os acontecimentos. Quanto mais repertório, mais cedo você vai adivinhar a trama. Isso não quer dizer que todo filme “bom” precise ter uma história absolutamente inovadora – a verdade é que não existem tantas histórias assim. O que existem são jeitos diferentes de contá-las, e metáforas diferentes que você pode construir a partir delas, para refletir sobre o seu próprio tempo e contexto. Repetir essas metáforas é o que torna uma história cansativa. E, para mim, a metáfora usada em Extinção, que tinha a ver com guerra, diferenças e pontos de vista, já estava mais do que desgastada. Para muita gente, ela não estará, e a mensagem será sentida como surpreendente.

A segunda característica é menos pessoal, mesmo que possa passar despercebida. Para mim, é importante saber que o roteirista ou a roteirista pensou em tudo: nas causas e consequências de cada ato, cada fala, cada decisão. E poucas coisas me irritam mais do que um personagem que decide ir para algum lugar só porque o cenário lá será bacana para o fotógrafo explorar, ou porque isso permitirá que ele convenientemente encontre alguma coisa que ajudará a avançar a história. Entendem o que eu digo? Cada cena precisa fazer sentido dentro da história e da psicologia dos personagens, ou o público não vai comprar. Por exemplo: estou estudando Blade Runner 2049 e, por mais que eu adore esse filme, sei que o confronto final é um horror, porque ele não faz sentido. Ele só acontece porque o vilão decidiu que precisava mover o personagem de Harrison Ford do ponto A pra o ponto B para “extrair informações dele”… Ah, me poupe. O diretor queria incluir uma cena no mar para exibir suas habilidades e, por isso, levou todo mundo até lá. Não enganou ninguém.

No filme do Michael Peña, são seus sonhos que não fazem sentido – eles podem até ser explicados, mas não cumprem função nenhuma a não ser “dar uma sensação de mistério”. Nada mudaria nessa história se ele não os tivesse. Também não faz sentido a decisão de diversas pessoas encurraladas de correrem para o topo de um edifício, por exemplo. Elas esperam encontrar o que lá em cima, um helicóptero? É disso que estou falando.

Então, da próxima vez que um filme cair especialmente mal para você, pergunte a si mesmo se não foi por um desses motivos: se ele repetiu fórmulas familiares demais, fáceis demais, ou se as escolhas de roteiro não fizeram sentido suficiente, não foram pensadas com carinho suficiente. Ou os dois. As chances são que esse foi apenas mais um filme feito às pressas para pagar as contas, ou para preencher o catálogo de uma plataforma de streaming que cresceu demais.

Malcolm & Marie

Depois de um atraso na forma de internet caída, enfim assisti ao filme-dê-erre da vez: Malcolm & Marie. Estava tão curiosa quanto receosa: tinha lido coisas boas e ruins, tinha visto o trailer e vinha cultivando uma vaga sensação de que aquela era uma obra cheia de ego. Um pastiche feito de imagens que mais pareciam do que eram, inflado por dois dos atores mais cultuados do momento. Bonito. Pretensioso. Falso. Já tinha um veredito antes de começar. 

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Treinando francês com Omar Sy

Salut, mes amis! Acordei afrancesada. É que comecei ontem uma série deliciosa e, mesmo não tendo terminado ainda (vi dois episódios), vim dividir essa dica com vocês. Chama Lupin e, como podem imaginar, é francesa. Nova na Netflix, ela já está virando um pequeno fenômeno na internet, ao menos na minha timeline, e o fato de termos só cinco episódios disponíveis provavelmente ajudou com o burburinho. Pelo que entendi, o que o streaming liberou foi apenas a primeira parte da primeira temporada, e não há previsão de estreia da continuação… É tortura que chama, né? Sejamos fortes.

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“A incrível história da Ilha das Rosas”: Utopia feel-good para abrir 2021

Quando ouvi falar num novo filme que se chamava A incrível história da Ilha das Rosas, lembrei imediatamente do curta de Jorge Furtado, Ilha das Flores – aquele sobre um lixão, que mostrava porcos, tomates e polegares opositores sucedendo-se uns aos outros num ciclo sem fim. Talvez você tenha visto na escola, sabe? Aquele. E achei curioso como, mesmo tão diferentes, as duas “ilhas” com nome de flor tinham alguma coisa em comum: ambas eram lugares fora da realidade, fora da civilização, longe dos olhos, apartadas do que se entenderia em qualquer tempo ou espaço por “terra firme”. Nenhuma das duas era uma ilha. E ambas eram incríveis.

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Meus favoritos de 2018

Chamem-me de piegas, mas sou daquelas pessoas que aproveitam o período entre dezembro e janeiro para fazer o “balanço” do ano que passou e anotar os projetos, metas e tendências para o ano que vem. Retrospectivas são comigo mesmo e talvez esta seja a única época em que eu realmente vejo sentido em fazer listas. Então, antes de olhar para 2019 com olhos curiosos, quero compartilhar com vocês um pouco do que eu vi, li e descobri em 2018. Vamos?

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Domingo no sofá: “Eu não sou um homem fácil”

Era domingo à noite e eu vinha pensando em Morgan Freeman, #metoo e Times Up. Pensava em como um homem foi incentivado a vida toda a tratar mulheres como objetos e, de repente, querem descartá-lo como um rolo de papel. Tentei escrever sobre isso, mas não consegui. Então liguei a Netflix e resolvi assistir à comédia francesa “Eu Não Sou um Homem Fácil”, que um amigo indicou.

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Fala, Cinéfilo! #11 – A Bela e A Fera, Warcraft e Truque de Mestre 2

No Fala, Cinéfilo! #11, comentamos o primeiro teaser do longa “A Bela e A Fera”, falamos sobre o acordo de exclusividade entre a Netflix e a Disney, sobre os problemas que “Rogue One” está enfrentando e sobre a sequência de “Mary Poppins”, que vem por aí. Entre as estreias, destaques para “Warcraft – O Primeiro Encontro de Dois Mundos” e “Truque de Mestre – O 2º Ato”. Indicamos, ainda, dois eventos sobre cinema que acontecem em junho: o Festival Varilux de Cinema Francês e o Iniciativa Crossover.

Dica do público de hoje: “Filhos da Esperança” (Alfonso Cuarón, 2006)
Tema para o próximo programa: Animação

Links:
Trailer “A Bela e A Fera” (novo e antigo comparados): https://goo.gl/DSa8KH
Crítica “Warcraft”: http://goo.gl/W612BI
Crítica “Truque de Mestre – O 2º Ato”: https://goo.gl/vyrYav
Festival Varilux: http://variluxcinefrances.com.br
Iniciativa Crossover: https://iniciativacrossover.com.br

Fala, Cinéfilo! #02 – Esquadrão Suicida, O Regresso, Anomalisa e Amy


No “Fala, Cinéfilo!” de hoje, confira o trailer do “Esquadrão Suicida”, conheça filme que está quebrando recordes em Sundance, saiba mais sobre a sequência de “Blade Runner” e veja quatro dicas de filmes em cartaz indicados ao Oscar: “Anomalisa”, “Trumbo: Lista Negra”, “O Regresso” e “Filho de Saul”. Para ver no sofá, confira a data de estreia do documentário “Amy”, sobre Amy Winehouse, na Netflix.

 

Links:

Crítica de “Anomalisa”: http://bit.ly/1Sp05Zt

Crítica de “O Regresso”: http://bit.ly/1SmQ8x5

Crítica de “Filho de Saul”: http://bit.ly/1Tu9MH7

Trailer de “Esquadrão Suicida”: http://bit.ly/2009SG0

Filmes que estão dando o que falar em Sundance: http://bit.ly/1nqtK8S

Resumão#06 – Star Wars, Mostra, Adele e Sicario

No Resumão#06, comentamos as novidades de Star Wars: O Despertar da Força, lembramos o Back to The Future Day, damos as boas-vindas à Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e conhecemos o novo clipe da Adele. Entre as estreias, destaque para “Sicario: Terra de Ninguém”, “Ponte dos Espiões” e “Goosebumps: Monstros e Arrepios”. Para fechar, uma nova tendência chega ao mercado de filmes.

Links:
Trailer Star Wars: Ep. VII – O Despertar da Forçahttps://www.youtube.com/watch?v=sGbxmsDFVnE&sns=fb

15 Filmes imperdíveis da Mostra: http://www.guiadasemana.com.br/cinema/galeria/15-filmes-imperdiveis-da-mostra-internacional-de-cinema-2015

Dicas da Mostra (atualizadas durante o festival): http://www.guiadasemana.com.br/cinema/noticia/dossie-da-mostra-internacional-de-cinema-2015

Clipe de “Hello”, da Adelehttps://www.youtube.com/watch?v=YQHsXMglC9A

Críticas:
Sicario: Terra de Ninguémhttp://www.guiadasemana.com.br/cinema/noticia/critica-inquietante-sicario-traca-um-retrato-complexo-das-relacoes-entre-trafico-policia-e-lei

Goosebumps: Monstros e Arrepioshttp://www.guiadasemana.com.br/cinema/noticia/critica-goosebumps-monstros-e-arrepios-e-diversao-a-moda-antiga-para-criancas-e-adultos

Ponte dos Espiõeshttp://www.guiadasemana.com.br/cinema/noticia/critica-spielberg-e-tom-hanks-fazem-de-ponte-dos-espioes-um-filme-leve-sobre-a-guerra-fria

Análise (Youtube Red, DisneyLife e afins): http://www.guiadasemana.com.br/cinema/noticia/como-a-netflix-esta-obrigando-os-cinemas-a-se-reinventarem

Crítica: “Beasts of No Nation” disseca a guerra pelo ponto de vista de crianças-soldados

Na última sexta-feira (no dia 16 de outubro), a Netflix disponibilizou para assinantes de todo o mundo seu primeiro longa-metragem original, “Beasts of No Nation”. Originalmente pensado para estrear simultaneamente no canal e nos cinemas norte-americanos, o filme acabou sofrendo boicote das principais redes exibidoras do país e conseguiu abrir em apenas 31 salas, amargando o 33º lugar entre as bilheterias do fim de semana.

beasts

“Beasts” conta a história de um menino africano que, após ter sua vila engolida pela Guerra Civil e sua família inteira assassinada, é recrutado como soldado num grupo de resistência. O filme não se preocupa muito em especificar a situação: que país é aquele? Quais exatamente são as facções rivais? Diante de uma série de siglas genéricas, tudo o que sabemos é que o governo totalitário está invadindo as aldeias e que há pelo menos duas forças contrárias a ele, que também fazem sua parcela de saques e invasões. No meio disso tudo, a ONU desempenha um papel bastante ambíguo, o que dá um quê de crítica social ao longa.

Quem conduz o espectador por esse universo animalesco de crianças-soldados é Agu (Abraham Attah), protagonista e narrador que complementa a violência na tela com reflexões muito bem pontuadas. Sua evolução (ou involução, de criança travessa a uma criatura com metade da sua humanidade) é o que mais impressiona no filme de Cary Fukunaga (True Detective), que constrói esse personagem com calma e cuidado.

Outro elemento-chave na narrativa de “Beasts” é o Comandante, interpretado por Idris Elba (um dos únicos atores profissionais no elenco). Paternal e abusivo, seu personagem representa o pior da guerra para Agu: a violência psicológica de quem é obrigado a correr de encontro à guerra para tentar escapar vivo dela, e a fazer tudo o que não acredita para sobreviver.

O longa começa com fôlego e a trilha sonora – composta por canções infantis, palmas e, mais tarde, tiros – ajuda a dar ritmo. Lá pela terceira parte das mais de duas horas de filme, porém, o roteiro perde o embalo e se permite demorar demais em algumas cenas que acabam tornando a jornada de Agu cansativa. O final, apesar de conter algumas cenas belíssimas, não consegue recuperar o encanto do início e o filme termina numa nota um pouco amarga.

“Beasts of No Nation” é, com certeza, apenas o primeiro de muitos projetos ousados da Netflix para o cinema, como foi “House of Cards” para a TV. A produção é muito bem feita e a direção realmente impressiona – não surpreende se o filme for lembrado quando chegar o momento de definirem os indicados ao Oscar 2016. Para quem ainda não viu, fica a dica: respire fundo e vá em frente. É pesado, mas é melhor do que muita coisa que você vai ver nos cinemas este ano.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.