Crítica: “Brooklin” reconstrói o clichê da “garota do interior” com personagem mais humana

Todos os anos, a Academia surpreende o público com a indicação de um título pouco conhecido entre os concorrentes a Melhor Filme. Em 2015, foi “Selma”; em 2014, “Philomena”. Este ano, o “patinho feio” é “Brooklin”, indicado também a Melhor Atriz e Roteiro Adaptado.

“Brooklin”, adaptação do romance homônimo de Colm Tóibín, é um bom filme, mas falta-lhe ambição. A história da garota irlandesa que se muda para os Estados Unidos e volta, só para perceber que sua cidadezinha ficou pequena demais para ela, é envolvente, mas não chega a surpreender.

Saoirse Ronan carrega o filme com seus olhos expressivos e uma simpatia natural (não há dúvida de que veremos muito mais da atriz nos próximos anos) e se revela uma forte concorrente à estatueta dourada (muito mais versátil do que a favorita Brie Larson). É fácil gostar de sua personagem, Eilis, e ela tem um realismo que faz com que acompanhemos sua jornada como se a conhecêssemos bem.

A evolução de Eilis não é muito diferente da de qualquer protagonista que sai do interior para se aventurar na cidade grande, mas há uma distinção essencial: seu conflito é interno, não externo. Não há um inimigo que se aproveita de sua ingenuidade provinciana, nem um homem que a ilude ou aprisiona – pelo contrário, ela sabe o que quer e, se surge uma dúvida em algum momento, é porque ela precisa escolher uma vida, uma carreira e um país que se encaixem melhor em suas ambições. Cabe a ela, não a algum salvador, decidir seu futuro.

Se a construção da protagonista é um ponto positivo em “Brooklin”, incomoda a visão estereotipada com a qual os Estados Unidos são retratados, com direito à mais do que gasta imagem da “porta luminosa” para mostrá-lo como o país das oportunidades. Felizmente, os clichês se limitam a maiôs de pin-up e óculos de gatinhos, sem a necessidade de bandeiras flamulantes pelos cantos.

Os personagens coadjuvantes ajudam a tornar o filme mais divertido para o público, da rabugenta Miss Kelly (Brid Brennan) ao pequeno e desbocado Frankie (James DiGiacomo), passando pela espontânea dona da pensão Mrs. Keogh (Julie Walters), que ganhará uma série própria na BBC. “Brooklin” estreia nos cinemas brasileiros no dia 11 de fevereiro e é uma boa opção para quem procura um filme otimista, romântico e inteligente, sem ser pretensioso.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “O Quarto de Jack” explora o conflito entre a claustrofobia do mundo conhecido e o horror do mundo lá fora

Quem diria que, apenas um ano depois de dirigir a comédia super-indie e ultra-experimental “Frank”, Lenny Abrahamson lançaria um drama maduro, indicado a quatro Oscars, incluindo o de Melhor Filme. “O Quarto de Jack”, adaptação do livro “Quarto”, de Emma Donoghue, estreia no Brasil no dia 18 de fevereiro e merece sua consideração.

Jack (Jacob Tremblay) é um menino de cinco anos que vive com a mãe (Brie Larson) num quarto sem janelas, iluminado apenas por uma claraboia. Ele não tem muito com quem conversar, então trata todos os objetos como coisas vivas. “Bom dia, Pia”, ele diz. “Bom dia, Cama”.

A porta é reforçada, como um cofre, e aberta apenas com uma senha que os dois desconhecem. Por ela, de vez em quando passa um homem para trazer mantimentos. “Você não sabe como está o mundo lá fora”, ele comenta. Como saberiam?

A menos que tenha lido alguma coisa sobre o filme antes, o público não sabe por que os dois estão presos, mas as peças começam a se juntar quando Jack espia o homem de dentro do armário. Entendemos que a mãe não quer que o menino veja o que acontece à noite, e entendemos rapidamente o que acontece.

Apesar da situação, Ma (como a mãe é chamada pelo menino) tenta criar uma vida normal para Jack dentro daquele canto limitado: aquele é o Mundo e lá fora é o Espaço. Todas as coisas de Quarto formam o Mundo, e todo o resto não é real. Isso, até ela perceber que precisa que o filho entenda a verdade para ter uma chance de sair dali.

“O Quarto de Jack” é um filme extremamente tocante, que adota o ponto de vista da criança para mostrar suas descobertas – num processo que não termina ao sair de Quarto. O que torna o longa ainda mais interessante é a forma como Abrahamson não deixa o espectador relaxar. O tempo todo, esperamos por uma nova tragédia e, como Jack, não conseguimos confiar em nenhum dos novos personagens, que chegam envoltos num suspense proposital.

Aos poucos, as coisas vão ganhando sentido e se encaixando em seus novos lugares. O que começara como um filme sobre a conquista da liberdade se revela um estudo sobre as relações que a criança cria com seu entorno, independente de quão pequeno ou amplo ele seja. Então, quando Jack está pronto para encarar a realidade, o público também está e Quarto pode, finalmente, deixar de ser o Mundo.

 

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “A Grande Aposta” é exaustivo, mas mexe com a consciência do espectador

Em 2008, o mercado imobiliário americano quebrou e alguns dos maiores bancos do país decretaram falência, iniciando uma crise que estenderia por anos. Meia dúzia de pessimistas (ou, apenas, realistas) conseguiram prever a queda e, percebendo que os bancos não fariam nada para frear o desastre, decidiram lucrar com isso. É a história desses pequenos abutres que conta o filme “A Grande Aposta”, um dos queridinhos do Oscar 2016.

O longa é dirigido por Adam McKay – de “O Âncora” e da sequência “Tudo Por Um Furo” –, ou seja, não surpreende que o tema seja tratado com humor e, principalmente, sarcasmo. Apesar disso, é difícil rotular “A Grande Aposta” como uma comédia: com câmeras instáveis, uma infinidade de diálogos expositivos e algumas inserções de imagens de arquivo, o filme se aproxima muito mais de um documentário, com a diferença de que seus personagens são interpretados por atores de alto calibre.

Christian Bale e Steve Carell são os protagonistas mais interessantes, representando duas figuras cêntricas e diametralmente opostas. De um lado, Bale é Michael Burry, uma espécie de gênio antissocial que trabalha fechado em seu escritório, ouvindo rock e tocando uma bateria imaginária enquanto observa os números. Ele só está cumprindo seu papel de buscar os melhores investimentos quando decide apostar contra o mercado. Carell, por sua vez, é Mark Baum, um workaholic que guarda um ressentimento do mundo após a morte do irmão e investe na queda da bolsa como uma forma de vingança. Em seu escritório, ao contrário do de Burry, as relações são próximas e os outros analistas são envolvidos nas decisões, como uma família.

Além dessas duas figuras, conhecemos também Jared Vennett (Ryan Gosling), que faz as vezes de narrador, Ben Rickert (Brad Pitt), um ex-bancário que largou tudo para acumular sementes, e a dupla de novatos Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), que querem ganhar muito dinheiro muito rápido.

Se você se perdeu entre tantos nomes, não se preocupe, é assim mesmo. Há um excesso de personagens importantes em cena e isso é proposital – o foco do filme, afinal, é o contexto, o sistema, não as trajetórias pessoais. A consequência disso é que o espectador muitas vezes se sente perdido, sem um protagonista em quem se apoiar enquanto flutua pelos conceitos econômicos que, apesar das explicações dadas por celebridades como Margot Robbie e Selena Gomez, são quase impenetráveis.

Felizmente, se olharmos além do “economês”, “A Grande Aposta” oferece uma reflexão bem interessante sobre o mercado financeiro e sobre como os bancos e investidores manipulam o dinheiro, fluido e irreal, sem se dar conta de que aqueles números não são apenas números. Ao final da sessão, exaustos de tanto tentar entender, chegamos à mesma conclusão que Charlie, quando entra numa sala de Wall Street pela primeira vez: tudo não passava de um grande jogo, uma brincadeira irresponsável. Onde estão os adultos?

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: Alicia Vikander e Eddie Redmayne entregam performances inesquecíveis em “A Garota Dinamarquesa”

Eddie Redmayne mal teve tempo de curtir seu primeiro Oscar, que ganhou pelo papel do físico Stephen Hawking em 2015, e já mergulhou num projeto igualmente desafiador. Em “A Garota Dinamarquesa”, o ator britânico vive o primeiro transgênero a realizar a cirurgia de redesignação de sexo, na Europa dos anos 20.

Apesar de ter tudo para ser mais um filme convencional sobre superação e luta contra preconceitos, o longa de Tom Hooper (“Os Miseráveis”) segue por um caminho bastante original: seu foco não é a sociedade, mas sim a vida íntima de Einar/Lili (Redmayne) e sua esposa Gerda (Alicia Vikander).

Hooper constrói duas histórias paralelas de emancipação: de um lado, Lili desabrocha de dentro para fora de Einar, afastando-o do trabalho de pintor que o definia perante os outros homens; enquanto, do outro, Gerda se encontra como artista e se liberta, mesmo que contra sua vontade, da dependência emocional do marido. O equilíbrio entre os dois, mantido com muito esforço, é o que move este filme.

Vikander foi uma das atrizes mais requisitadas de 2015 (ela está também em “Ex Machina”, “O Agente da U.N.C.L.E. e “Pegando Fogo”) e sua presença, de fato, faz a diferença em “A Garota Dinamarquesa”. Gerda é forte o suficiente para não perder o próprio rumo durante a transformação do marido e sensível o suficiente para compreendê-lo, levantando ao público questões importantes sobre o sentido do casamento e os limites entre amor, amizade e desejo.

“A Garota Dinamarquesa” foi indicado a quatro Oscars – além de Melhor Ator e Melhor Atriz Coadjuvante (indicação injusta, considerando que o filme segue o ponto de vista de Gerda), também Design de Produção e Figurino. Esta última indicação faz todo o sentido, já que os tecidos têm um papel essencial na narrativa: das meias aos lenços, são eles que despertam em Lili o desejo pelo feminino. Vesti-los começa como uma brincadeira, evolui para um ato erótico e, em pouco tempo, torna-se uma necessidade.

Com atuações belíssimas e uma cenografia que parece saída de um dos quadros de Einar, o filme envolve e surpreende, chegando muito perto de ser uma obra perfeita. Quinze minutos, entretanto, podem mudar tudo quando se trata de cinema. Após fechado o arco de Gerda, Hooper insiste em acompanhar Lili num epílogo sombrio e prolongado, que simplesmente não se encaixa no restante. Ao ganhar uma última virada, o poder transformador do filme se esvai, como num trágico toque de mágica, para o buraco negro dos dramas previsíveis. Foi por muito pouco.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Fala, Cinéfilo! #04 – Orgulho e Preconceito e Zumbis; A Bruxa e Oscar 2016

No Fala, Cinéfilo! de hoje, trazemos três dicas de trailers para quem quer saber o que vem por aí: “Meu Amigo, O Dragão” e “Sing – Quem Canta Seus Males Espanta” são estreias infantis marcadas para o fim do ano, enquanto o drama “The Light Between Oceans” ainda não tem data para estrear no Brasil. Entre as estreias, destaque para a chegada da sequência de “O Tigre e O Dragão” na Netflix. Nos cinemas, comentamos “Como Ser Solteira”, “Orgulho e Preconceito e Zumbis”, “A Bruxa” e “Kung Fu Panda 3”. Para fechar, saiba o que achamos do vencedor do Oscar 2016!

Links
Trailer “Meu Amigo, O Dragão”: http://bit.ly/1TguJ9M
Trailer “Sing – Quem canta seus males espanta”: http://bit.ly/1QmfGc1
Trailer “The Light Between Oceans”: http://bit.ly/1QFEt6w
Crítica “Como Ser Solteira”: http://bit.ly/1Ryqhjb
Crítica “Orgulho e Preconceito e Zumbis”: http://bit.ly/1TJ65wO
Crítica “A Bruxa”: http://bit.ly/1SX5fOo
Crítica “Kung Fu Panda 3”: http://bit.ly/1QmfBF6
Confira os vencedores do Oscar 2016: http://bit.ly/1oRtVvs

Crítica: “Filho de Saul” explora a busca desesperada por sentido numa vida condenada à morte

Esteja avisado: “Filho de Saul” é um filme pesado. Ao final da sessão, você não estará se sentindo bem e não terá certeza se gostou ou não do que viu. Mas é essa mesmo a ideia: o drama húngaro (em co-produção com outros quatro países) propõe uma visão nova sobre o Holocausto, focando nos efeitos psicológicos do horror sobre um tipo específico de prisioneiro: aquele que, em troca de alguns meses a mais de vida, é obrigado a trabalhar, na chacina contra o próprio povo.

Saul Ausländer (Géza Röhrig) é o protagonista, um judeu preso num campo de concentração nazista que, no momento em que o conhecemos, está orientando um grupo de novos detentos para o vestiário. Lá, ouvimos alguém dizer a eles que se lembrem dos cabides onde guardaram suas roupas, mas sabemos que eles nunca mais as vestirão. Saul também sabe e, após o banho de gás, entra na câmara para retirar os corpos e fazer a limpeza do local. Ele e seus colegas têm consciência de que sua vez chegará em breve.

Dois elementos incomodam muito em “Filho de Saul”, mas são essenciais para a narrativa. O primeiro é a câmera, que acompanha o protagonista o tempo todo num close exagerado, sobre seu ombro, como se fôssemos condenados a uma liberdade tão limitada quanto a sua. O segundo é o próprio Saul: com uma expressão vazia, ele anda de um lado ao outro como uma máquina, ou um zumbi, seguindo ordens sem erguer os olhos nem pronunciar uma palavra.

É um mero relance de expressão que passa por seu rosto quando ele vê o menino. Um sobrevivente, em meio a todos os mortos – não por muito tempo, já que o médico chega logo para asfixiá-lo e pedir sua autópsia. Será esse o filho de Saul? Algumas passagens do filme colocarão o parentesco em dúvida, mas o fato é que o protagonista encontra, no menino, um motivo para viver.

O garoto está morto, não há dúvida, mas Saul decide dar a ele um enterro decente e, para isso, precisa sequestrar o corpo, encontrar um rabino e cavar uma cova longe dos olhos dos guardas. O interessante é que sua jornada pessoal acontece paralelamente a um plano de rebelião dos detentos, que exigem sua participação. Escolherá ele os vivos ou os mortos? A escolha é mais complexa do que isso: de um lado, está a luta por sobrevivência, mesmo que desumana; do outro, o ritual pela transcendência da vida, mesmo que curta.

“Filho de Saul” levou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes e foi vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, o que faz dele o favorito para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O longa, dirigido pelo estreante László Nemes, estreia no Brasil no dia 4 de fevereiro.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “O Regresso” pode (e deve) dar primeiro Oscar a Leonardo DiCaprio

Quatro estatuetas de ouro não foram suficientes para acalmar o espírito ambicioso de Alejandro González Iñárritu. Depois de levar os Oscars de Melhor Filme, Direção, Roteiro Original e Fotografia em 2015 por “Birdman”, o cineasta mexicano desponta novamente como o favorito da Academia com 12 indicações  por “O Regresso”, que estreia nos cinemas no dia 4 de fevereiro.

Mais conhecido como “o filme que pode dar a Leonardo DiCaprio seu primeiro Oscar”, “O Regresso” é uma saga de sobrevivência, um filme hostil que exige força de seu público tanto quanto de seus protagonistas. DiCaprio interpreta Hugh Glass, o principal navegador num grupo de caçadores, no século XIX, que ganha a vida vendendo peles de animais. Ele é abandonado pela equipe no meio da floresta após ser atacado por um urso. Sua história é (pelo menos parcialmente) real.

Um dos temas mais fortes no filme é o conflito entre os exploradores e os índios americanos. Mesmo que os diálogos tentem dizer que as tribos não são todas iguais e também têm suas desavenças, tudo o que vemos na tela é a velha dualidade do bem (os “bons selvagens, ingênuos e manipulados”) contra o mal (o “branco que destrói a natureza”). Glass, que tem um filho mestiço, representa o equilíbrio ideal entre os povos, o herói sem defeitos.

Apesar de escorregar no maniqueísmo, o longa acerta em todos os quesitos técnicos. A fotografia, que explora a luz natural, é capaz de mergulhar o espectador no inverno canadense sem a necessidade de óculos 3D. O som também ajuda na ambientação, trazendo à sala todos os ruídos da natureza (a trilha musical, infelizmente, não colabora tanto). Já a habilidade de Iñárritu com a câmera faz com que cenas aparentemente impossíveis, como o ataque do urso a Glass, possam ser observadas de todos os ângulos, como se estivéssemos no local.

A batalha contra o animal, inclusive, revela uma característica que se repetirá em todas as outras cenas de ação de “O Regresso”: a brutalidade. Desde a sequência inicial, quando os exploradores são encurralados por índios, até o duelo final, o que vemos são brigas feias, sujas, sangrentas e por vezes desajeitadas, muito mais próximas de lutas reais do que as coreografias que nos acostumamos a ver no cinema. O efeito é incômodo, mas surpreendentemente hipnotizante.

Para quem está curioso para saber se a atuação de DiCaprio é digna da estatueta dourada, a resposta é sim, sem dúvida. Se o ator já havia mostrado sua capacidade de rastejar, grunhir e se contorcer naquela cena curta, mas inesquecível, de “O Lobo de Wall Street”, aqui ele explora ao máximo os limites do próprio corpo, inclusive da voz.

Quem também se destaca, num elenco que conta ainda com o onipresente Domhnall Gleeson (que também atua em “Star Wars: O Despertar da Força”, “Ex Machina” e “Brooklyn”, todos indicados a Oscars neste ano), é Tom Hardy, que interpreta o antagonista de Glass, John Fitzgerald. Mais uma vez, o maniqueísmo é forte e seu personagem é quase 100% mau, mas Hardy consegue entregar uma atuação tão convincente que quase nos pegamos torcendo por ele.

“O Regresso” concorre nas categorias Melhor Filme, Direção, Ator, Ator Coadjuvante, Fotografia, Montagem, Design de Produção, Figurino, Maquiagem, Mixagem de Som, Edição de Som e Efeitos Visuais.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Fala, Cinéfilo! #02 – Esquadrão Suicida, O Regresso, Anomalisa e Amy


No “Fala, Cinéfilo!” de hoje, confira o trailer do “Esquadrão Suicida”, conheça filme que está quebrando recordes em Sundance, saiba mais sobre a sequência de “Blade Runner” e veja quatro dicas de filmes em cartaz indicados ao Oscar: “Anomalisa”, “Trumbo: Lista Negra”, “O Regresso” e “Filho de Saul”. Para ver no sofá, confira a data de estreia do documentário “Amy”, sobre Amy Winehouse, na Netflix.

 

Links:

Crítica de “Anomalisa”: http://bit.ly/1Sp05Zt

Crítica de “O Regresso”: http://bit.ly/1SmQ8x5

Crítica de “Filho de Saul”: http://bit.ly/1Tu9MH7

Trailer de “Esquadrão Suicida”: http://bit.ly/2009SG0

Filmes que estão dando o que falar em Sundance: http://bit.ly/1nqtK8S

Crítica: “Spotlight” resgata a nostalgia do jornalismo investigativo em tempos de crise nas redações

Um dos filmes “menores” que vêm crescendo na corrida pelo Oscar 2016, depois de ganhar indicações em todos os principais prêmios de cinema e levar o troféu de Melhor Filme no Critics’ Choice Awards, é “Spotlight: Segredos Revelados”. O longa, dirigido por Tom McCarthy (do péssimo “Trocando os Pés” e do ótimo “O Visitante”) e escrito por ele e Josh Singer (“O Quinto Poder”), conta a história real da equipe de jornalismo que investigou o esquema de proteção aos padres pedófilos pela Igreja Católica em Boston.

A história, como se pode imaginar, é polêmica, mas não chega a ser realmente surpreendente. Durante décadas, a Igreja praticou o abafamento sistemático dos casos de abuso de menores por padres, realocando os responsáveis a cada novo incidente ao invés de entregá-los à justiça. Além disso, o filme mostra como bispos e outras autoridades tinham conhecimento da situação, e como prejudicavam o trabalho da polícia ao ocultar documentos e dificultar o acesso às informações.

O filme traz um elenco invejável: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams e Brian D’Arcy James formam a equipe investigativa do Boston Globe, enquanto Liev Shrieber e John Slattery são editores do jornal. Shreiber representa a visão externa que lança luz sobre o problema – recém-contratado e não-católico, é ele quem decide investir nessa história, que já havia sido ignorada pela redação numa outra ocasião.

“Spotlight” tem chamado a atenção por recuperar uma espécie de nostalgia do jornalismo. No filme, os repórteres têm tempo de sobra para mergulhar na história e o jornal aceita até bancar um processo para que documentos sigilosos possam ser avaliados. Os jornalistas, aqui, são heróis a serviço da justiça, como haviam sido na época do escândalo de Watergate. É interessante que esse otimismo pela profissão venha num momento em que o jornalismo vive sua maior crise, com jornais impressos e digitais em todo o mundo contemplando a falência (inclusive o próprio Boston Globe).

Apesar de não se passar num tempo tão distante (início dos anos 2000), o filme trabalha ainda com outro fator nostálgico: a memória analógica. Ao mostrar uma investigação apoiada em arquivos físicos, pastas, notícias de jornais e anuários enterrados nos fundos das prateleiras, o longa acaba apelando para uma carência que a modernidade traz por validação: se está no papel, então é verdade. Se foi preciso dedicar dias inteiros de pesquisa para encontrar uma informação, então o trabalho foi bem feito.

O que martela na cabeça do espectador após assistir a “Spotlight”, porém, não é a aventura jornalística nem o esquema criminoso da Igreja, mas sim uma reflexão breve e audaciosa levantada durante a investigação: a de que a pedofilia entre profissionais religiosos seria um padrão e responderia por 6% de toda a instituição. Essa informação, com consequências muito mais vastas do que os limites de Boston, é lançada por um personagem cujo rosto nunca é visto, talvez para amenizar o impacto junto à Academia e ao público. Nesse ponto, McCarthy deixa passar uma oportunidade de ouro: se decidisse se aprofundar sobre esses números, talvez seu filme pudesse ser mais do que apenas um retrato do jornalismo – para se tornar uma experiência do próprio.

“Spotlight: Segredos Revelados” está em cartaz nos cinemas e concorre a seis Oscars: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Melhor Atriz Coadjuvante (Rachel McAdams), Melhor Roteiro Original e Melhor Montagem.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Creed – Nascido Para Lutar” faz justiça à franquia “Rocky”

O que define um bom filme? Entre tantas características valiosas para o cinema, talvez a mais importante (e rara) delas seja a capacidade de envolver o espectador, de verdade, a ponto de fazê-lo vibrar e sofrer com o protagonista como se esquecesse de que tudo aquilo que vê não passa de fantasia. Pensando nisso, não resta dúvida: “Creed – Nascido Para Lutar” é excelente.

O sétimo episódio da franquia “Rocky” é o primeiro que não leva o nome do garanhão italiano no título, porque já não conta mais a sua história. “Creed”, que estreia nesta quinta (14), faz a ponte entre a série clássica, iniciada em 1976, e uma nova saga, com um novo protagonista e novos desafios. Sylvester Stallone ainda está lá, reprisando seu papel como Rocky Balboa, mas desta vez não é ele quem vai lutar: é Adonis, filho de seu primeiro grande oponente e melhor amigo, Apollo Creed.

Adonis é interpretado com corpo (trincado) e alma (inquieta) pela estrela em ascensão Michael B. Jordan, ator que já trabalhara com o diretor Ryan Coogler em “Fruitvale Station”, outra pérola do cinema recente. Seu personagem nunca conheceu o pai famoso, mas nasceu com o gosto pela briga e decide procurar ajuda para enfrentar os ringues profissionalmente. É claro que a ajuda virá de um lugar muito familiar: o restaurante Adrian.

Se “Rocky” havia mostrado ao mundo e a Hollywood que homens podiam chorar e que filmes de luta podiam ser mais do que isso, “Creed” não fica nem um passo atrás e trabalha todos os pontos de roteiro, trilha e câmera para que seus espectadores também fiquem com os olhos marejados. Destaque para a lente giratória que acompanha as sequências de luta, para o hip hop que invade o pop setentista na cena da corrida e para a relação paternal que se constrói entre Adonis e Rocky. “Se eu luto, você luta” é uma das declarações de amor mais bonitas que você verá neste ano.

“Creed – Nascido Para Lutar” é um filme para fãs, mas quem não assistiu aos outros seis episódios também conseguirá acompanhar a história sem dificuldades. O único risco é que o espectador novato sairá do cinema louco para conhecer a franquia completa. Por sorte, os cinco primeiros filmes estão em cartaz na Netflix.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.