FC! No Ar – Especial Oscar 2017


E lá se foi mais um Oscar, talvez o mais polêmico em muitos anos.
Marcada para sempre por uma gafe que levou a estatueta de Melhor Filme às mãos erradas, esta edição se mostrou muito mais política do que nos anos anteriores, e é esse o foco do FC! No Ar especial Oscar 2017.
Nos discursos, reinaram a diversidade, a empatia e o apoio a estrangeiros, enquanto, nos monólogos do apresentador Jimmy Kimmel, sobraram provocações ao presidente americano Donald Trump.
Quer saber mais sobre a maior festa do cinema americano? É só dar o play!

Toni Erdmann (Maren Ade, 2016)

Você pode até não ter ouvido falar de “Toni Erdmann” ainda, mas, no mundinho paralelo do cinema e da crítica, este filme simplesmente não saiu de pauta desde que estreou em Cannes, em maio de 2016 – tamanha a impressão que deixou em cada um que se aventurou a assisti-lo. Agora, finalmente chegou a vez de o Brasil conferir este que pode ser o favorito ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, se “O Apartamento” não levar a estatueta como protesto anti-Trump.

“Toni Erdmann” é um longa alemão dirigido por Maren Ade (uma mulher, caso o nome não ajude) que corre por duas horas e quarenta minutos, mas tem a leveza de uma comédia de uma hora e meia. O filme conta a história de uma mulher (Sandra Hüller), que trabalha como consultora na área de petróleo e luta para ser reconhecida; e seu pai (Peter Simonischek), um professor de música cara-de-pau que passa os dias fazendo piadas ruins e vestindo uma ridícula dentadura falsa. Os dois, obviamente, não se entendem muito bem.

Pelo título, é fácil presumir que “Toni Erdmann” seja o nome do pai, mas não é. E É. Quando Winfried (este, sim, é seu nome) faz uma visita-surpresa à filha Ines em Bucareste, abordando-a no prédio onde ela trabalha e depois se hospedando sem convite em seu apartamento, ela o suporta por algum tempo, mas logo o obriga a ir embora. Quando ele volta, novamente sem aviso e sem limites, ele já não é mais Winfried, mas sim Toni: um homem de peruca e dentadura que se diz “coach” do CEO da empresa dela.

5

O cenário realista desenhado por Ade, que também assina o roteiro, só torna mais surreais as situações em que Ines e Toni se envolvem, especialmente depois que ela abraça a fantasia do pai e começa a envolvê-lo, de fato, em seu ambiente de trabalho. Aos poucos, mesmo incomodada pela quebra de privacidade, ela vai percebendo a espiral corrosiva em que mergulhara: humilhada diariamente por clientes e colegas, ela se vinga transferindo a humilhação para a assistente e o pai, ciente de que a promoção que lhe fora prometida jamais chegará. A presença daquele louco ao seu lado, portanto, não é nada comparada à loucura de toda aquela vida falsa.

Falo de Ines mais do que de Toni porque esta parece ser a trajetória dela, desde a tomada de consciência até a tomada de atitude, tanto em relação ao pai quanto ao trabalho. Não que o filme coloque Winfried/Toni como uma figura boa e injustiçada, mas justamente o contrário: o espectador sente na pele a vergonha e a raiva de Ines, enquanto testemunha o prazer sarcástico do pai em enfrentá-la. No fim, é impossível – e inútil – escolher um lado.

“Toni Erdmann” estreia no dia 9 de fevereiro nos cinemas.

FC! No Ar – Indicados ao Oscar 2017

No programa desta semana, conheça os nove indicados ao Oscar de Melhor Filme em 2017 e entenda quais são as características mais fortes de cada candidato.

Mais sobre os filmes:

A Chegada (Sony Pictures)
Estreia no Brasil: 24 de novembro (2016)
Crítica: https://goo.gl/T9DiR0

Fences / Um Limite Entre Nós
Sem data de estreia.

Até o Último Homem (Diamond Films)
Estreia no Brasil: 26 de janeiro (2017)

A Qualquer Custo (Califórnia Filmes)
Estreia no Brasil: 2 de fevereiro (2017)

Estrelas Além do Tempo (Fox Film do Brasil)
Estreia no Brasil: 2 de fevereiro (2017)

La La Land – Cantando Estações (Paris Filmes)
Estreia no Brasil: 19 de janeiro (2017)
Crítica: https://goo.gl/M38SUg

Lion – Uma Jornada Para Casa (Diamond Films)
Estreia no Brasil: 16 de fevereiro (2017)

Manchester à Beira-Mar (Sony Pictures)
Estreia no Brasil: 19 de janeiro (2017)

Moonlight – Sob a Luz do Luar (Diamond Films)
Estreia no Brasil: 23 de fevereiro (2017)
Crítica: https://goo.gl/ld47XV

Jackie (Pablo Larraín, 2016)


É interessante como nossas certezas são muitas vezes construídas sobre as narrativas dos outros. Quase não percebemos, mas estamos o tempo todo formando opiniões com base no que lemos ou ouvimos, sem poder distinguir entre o que é realidade e o que são ficções, construídas minuciosamente por quem teve a sorte de poder contar sua versão da história.

Foi essa ideia que me fisgou enquanto assistia a “Jackie” – um filme de Pablo Larraín que eu jurava ser apenas uma biografia romantizada da famosa primeira-dama do governo Kennedy. Obviamente, não era. “Jackie”, aliás, nem narra propriamente a história de Jacqueline Kennedy (Natalie Portman), mas, sim, a história de seu marido tal qual narrada por ela. Mais especificamente, é a história da morte de seu marido tal qual narrada por ela.

Perdoem o excesso de “histórias”, mas o filme é justamente sobre isso: sobre a construção de narrativas em torno da vida real. Duas narrativas, para ser mais exata. A primeira é a que Jackie entrega a um jornalista (Billy Crudup), dias após o enterro de John F. Kennedy, sobre seus sentimentos diante do choque de ter seu marido assassinado ao seu lado e do confronto com os homens que queriam continuar seu jogo o mais rápido possível dentro da Casa Branca. A segunda é a que ela entrega ao público, tecendo um mito em torno do presidente por meio de um gigantesco espetáculo fúnebre, um programa patético de TV e uma anedota envolvendo um disco da peça Camelot.

jackie-d

O interessante do longa de Larraín (“No”, “O Clube”) não é o que Jackie conta, mas sim o que Portman revela entre um sotaque inocente, um maço de cigarros e a expressão de quem sabe exatamente o que está fazendo. Em certo momento, ela informa ao entrevistador que ele só publicará o que ela autorizar, e chega a pegar seu caderno nas mãos para rabiscar as anotações – mas nem por isso deixa de lhe contar toda a verdade. Ela o manipula com o sorriso confiante de quem já fez isso diversas vezes durante o curto mandato de seu sobrenome.

Quem lê isso pode pensar que o filme faz um desserviço à personagem, retratando-a como uma vilã, mas não é tão simples. Pela primeira vez, Jacqueline Kennedy se revela uma personagem completa, complexa e com um papel relevante na história americana, mesmo que desempenhado nos bastidores. Se o presidente tomou as decisões oficiais que moldaram o país, ela moldou sua imagem para que essas decisões fossem interpretadas da forma mais conveniente. A Casa Branca foi reformada não por capricho, mas para passar uma mensagem. O caixão foi carregado pelas ruas com todas as pompas sob o risco de novos atentados não por vaidade, mas para criar uma lenda. Para contar uma história que não seria esquecida tão facilmente… Ou, pelo menos, é essa a história que Larraín escolheu contar.

jackie-b

“Jackie” estreia no Brasil no dia 2 de fevereiro.

Vídeo – La La Land, o Oscar e uma história de amor (por Hollywood)

No primeiro FC! No Ar de 2017, falamos sobre o hype em torno do musical “La La Land – Cantando Estações“, de Damien Chazelle. Afinal, será que o filme tem tantas chances no Oscar 2017 só porque quebrou recordes no Globo de Ouro? E por que será que nos importamos tanto com o Oscar?

Se você gostou e quer saber mais sobre o filme, confira nossa crítica (escrita).

Moonlight – Sob a Luz do Luar

Nesta temporada de premiações, dois nomes vêm sendo repetidos à exaustão e devem brigar de frente pelo Oscar 2017 (isso, é claro, se nenhuma campanha mais generosa interferir). Um, obviamente, é “La La Land – Cantando Estações”, o apaixonado e megalomaníaco projeto de Damien Chazelle sobre Hollywood, jazz e seus românticos incuráveis. O outro, bem mais discreto e ainda longe de estrear por aqui (o lançamento está marcado para 23 de fevereiro, às vésperas da premiação), é “Moonlight – Sob a Luz do Luar”.

Seria injusto tentar comparar os dois filmes, por mais que seja exatamente isso que vá acontecer mais cedo ou mais tarde. De um lado, um romance metafórico sobre o contexto, a arte, a magia, sem foco nos personagens, mas sim no universo em que vivem. Do outro, um drama intimista e psicológico sobre um indivíduo, seu mundo interior, sua realidade em conflito com esse universo. São obras opostas e igualmente sensíveis.

“Moonlight” é baseado numa peça que nunca foi produzida chamada “In moonlight black boys look blue”, de Tarell Alvin McCraney, e conta a história de um garoto negro crescendo numa comunidade pobre em Miami. Esse recorte poderia ser sinônimo de uma abordagem agressiva, crua e pessimista, mas, surpreendentemente, o longa de Barry Jenkins escolhe o caminho oposto: delicadeza, angústia e uma ponta de otimismo.

moonlight

O protagonista é Chiron, interpretado por três atores diferentes à medida que cresce: Alex R. Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes. Ele não é apenas negro e pobre, mas também gay – e sofre as consequências disso antes mesmo de compreender os próprios sentimentos. Chiron também lida com a mãe (Naomie Harris), que é viciada em drogas e o despreza, desenvolvendo uma relação de interdependência tóxica com o filho.

Um dia, enquanto foge dos colegas da escola, Chiron encontra Juan (Mahershala Ali, nome difícil que você terá que decorar, pois está prestes a explodir), um traficante que o abriga em momentos de crise, junto com a esposa (Janelle Monáe), e lhe ensina lições importantes para a vida, sem jamais deixar de devolvê-lo aos braços da mãe. A relação entre os três é bela e sincera, mesmo tropeçando em certos dilemas insolúveis.

moonlight-b

“Moonlight” é diferente em muitos sentidos. Sua forma é ambiciosa – cada período na vida de Chiron representa um início de um longo processo: o encontro da figura paterna; a descoberta da sexualidade (e da punição que vem com ela); a aceitação. Como em três filmes separados, acompanhamos a evolução de um grupo de personagens caminhando quase inevitavelmente para preencher aqueles clichês que esperávamos no início do filme: papéis pré-definidos, previsíveis, determinados – o gângster, o trabalhador suado, a mulher silenciada.

Esses papéis, porém, não os definem realmente – são apenas fantasias que eles assumem diante do mundo como um escudo. Sob o uniforme, logo se vê, estão pessoas de carne, osso e coração… Transparentes sob a luz do luar.

“La La Land – Cantando Estações”

la-la-e

Quem diria que, em pleno 2017, estaríamos falando seriamente sobre um filme cuja sequência inicial envolve dezenas de bailarinos dançando em cima de carros, cantando alegremente e até colocando as mãos para o alto como se estivessem num musical da Broadway ou numa cena de Grease… O fato é que talvez não estaríamos se esse filme não tivesse sido criado por um jovem apaixonado chamado Damien Chazelle.

Para quem não se lembra, Chazelle foi a mente perturbada por trás de “Whiplash”, concorrente pequeno do Oscar 2015 que logo se tornou gigante pelo boca-a-boca e talvez tenha sido o filme mais unânime daquele ano (pelo menos eu não me lembro de ter ouvido ninguém dizer que não gostou – apenas, talvez, que não tenha assistido).

Agora, seu novo projeto não tem mais a vantagem do anonimato e chega aos cinemas carregado de expectativas – o que, curiosamente, parece ter funcionado muito bem para Chazelle. Seu “La La Land”, ao contrário de “Whiplash”, não pretende ser pequeno. Seu objeto não é mais o artista solitário, ou uma jornada pessoal rumo à maestria, mas sim a indústria em torno dele. É como se o garoto iniciante tivesse alcançado a perfeição e, agora, buscasse seu lugar de direito. É como se, agora, ele tivesse que descobrir o que fazer com sua arte (e com sua vida).


O filme tem como protagonistas um pianista de jazz (Ryan Gosling) que sonha em poder tocar livremente, sem perder o emprego a cada improviso, e uma atriz iniciante (Emma Stone) que serve cafés dentro do complexo da Warner, mas não consegue ser levada a sério nas audições. Entre um tropeço e outro, os dois se encontram, se conhecem, e descobrem os sonhos um do outro.

Então, assim como a velha Hollywood que o inspira, “La La Land” se revela grandioso. Na verdade, gigantesco: o filme parece absorver toda a expectativa depositada nele e devolver em dobro, em excessos obsessivamente calculados e geometricamente perfeitos. Desde o ritmo musical presente nos gestos, nos diálogos e especialmente na montagem de Tom Cross (que também trabalhou em “Whiplash”) até a delicadeza dos cenários e dos figurinos, mistos de uma memória nostálgica e um mundo de sonhos, “La La Land” pode se gabar de ser uma produção impecável.

la-la-b

O perfeccionismo técnico, porém, não parece ter sido suficiente para garantir a mesma imunidade de “Whiplash“. Otimismo, afinal, sempre gera desconfiança. Há quem diga que toda a homenagem a Hollywood (as referências a clássicos dos anos 50 e 60 estão por toda a parte), o tom romântico (mesmo que melancólico) e o próprio formato de musical sejam formas de escapismo, como se o filme evitasse lidar com as dificuldades do mundo real. Essa, entretanto, me parece uma acusação extremamente simplista.

La La Land” pode não ser um filme político, mas nem por isso é vazio. Sua mensagem é tão sincera e necessária quanto qualquer outra – talvez até mais, em tempos de desesperança generalizada. Ele diz: “dane-se o mercado”. E então se encaixa no mercado, transformando-o. Ele ensina que é preciso acreditar na sua arte ou o resto do mundo deixará de acreditar. Se isso não é um manifesto pela esperança, então não sei o que é…

A verdade é que, ao conquistar o mundo com um musical à moda antiga, quase ingênuo diante de dramas viscerais como “Moonlight” e “Animais Noturnos”, Chazelle prova que, sim, tudo é possível. Que, não importa o quão tolo pareça seu sonho, ele não é irrelevante nem ultrapassado. “Pessoas valorizam o que é feito com paixão”, pondera a personagem de Emma Stone em certo momento, como se falasse do próprio filme… E “La La Land” é isso: pura e sincera paixão.

 

O Apartamento (2016)

Se há um diretor que está dominando o cinema iraniano atualmente, é Asghar Farhadi. Pela quarta vez, um filme seu é o representante do país na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar e, pela segunda vez, ele é selecionado, pelo menos entre os nove finalistas (o primeiro foi “A Separação”, que levou a estatueta).

O Apartamento”, drama que estreia nesta quinta-feira no Brasil depois de ser exibido brevemente na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é ao mesmo tempo muito diferente e muito similar aos seus trabalhos mais recentes, “O Passado” (2013) e “A Separação” (2011). Diferente no tema, similar na forma e na mensagem.

“O Apartamento” conta a história de um casal que é obrigado a se mudar depois que uma reforma no terreno ao lado coloca em risco a estrutura de seu prédio. Sem tempo ou dinheiro para procurar algo permanente, eles aceitam a oferta de um amigo, que lhes aluga um imóvel que acabara de ficar vago.

Esse amigo é um membro do grupo de teatro do qual eles participam, que ensaia a peça “A Morte de Um Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller. Em inglês, o título do filme é “The Salesman”, em alusão a esse caixeiro, mas a verdade é que as duas histórias têm muito pouco em comum.

O foco aqui não é uma ilusão de importância cultivada por um homem ambicioso, mas sim algo muito mais íntimo, como um trauma familiar. Um crime acontece dentro do apartamento, ligado à antiga moradora, e o que o filme busca é compreender os sentimentos que cada um dos moradores desenvolve após o evento. Mais uma vez, Farhadi estuda de perto as diferenças entre a perspectiva do homem e da mulher e, mais uma vez, não existe certo e errado em suas ações.

A olhos acostumados com o cinema ocidental, “O Apartamento” tende a parecer um pouco cru. Faltam-lhe cores, faltam-lhe sons. Os enquadramentos nem sempre são os mais ousados ou os mais expressivos. Mas isso tudo acaba apenas evidenciando as atuações de Shahab Hosseini e Taraneh Alidoosti, e os diálogos escritos por Farhadi.

apartamento-c

No fim, “O Apartamento” é um filme tão incômodo quanto “A Separação” e, mesmo que menos completo, talvez seja ainda mais relevante para o público de hoje. Em meio a silêncios, brigas e atitudes desastrosas bem intencionadas, o longa traz uma representação mais realista e menos maniqueísta dos conflitos de gênero, e principalmente das dificuldades que o mundo masculino ainda tem para enxergar uma mulher como dona de si mesma.

“O Apartamento” foi premiado em Cannes como o Melhor Roteiro e Melhor Ator (Hosseini) e também está indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro.