PEIXE GRANDE E SUAS HISTÓRIAS MARAVILHOSAS

Fui injusta com “Peixe Grande” e preciso me redimir: quando falei aqui sobre “Aventuras de Pi” (Ang Lee, 2012), não mencionei o quanto seu sucesso se devia à mesma premissa do filme de Tim Burton. Na verdade, esse foi o primeiro pensamento que me veio à cabeça quanto assisti à cena final de “Pi” – Lee não precisava ter mastigado toda a fantasia para o espectador, expondo a versão “real” da história assim tão facilmente. “Peixe Grande” já fez isso em 2003, nós entendemos a metáfora. Mas, acho que na época não quis polemizar.

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Pois bem. “Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas” já foi alvo de muitas críticas e é considerado por muitos o filme menos “burtoniano” do diretor, um melodrama que se justificaria apenas pela morte do seu próprio pai no ano 2000 (no filme, um jovem se vê diante de um pai doente e reabre algumas feridas para finalmente aceitá-lo antes de se despedir). Protesto e o coloco no topo da minha lista de favoritos, como um dos primeiros filmes a reinterpretar clássicos escapistas infantis (como “Peter Pan”, “Alice” ou “Onde Vivem os Monstros”) na perspectiva de adultos – ideia que reaparecerá em “Em Busca da Terra do Nunca (Marc Foster, 2004) e no já citado “Aventuras de Pi”.

Vivido por Ewan McGregor na juventude e Albert Finney na velhice, Edward Bloom é um contador de histórias por excelência. Seus relatos percorrem os cenários mais improváveis e envolvem os personagens mais incríveis (como um gigante, duas gêmeas siamesas e um lobisomem), mas têm sempre um pé na realidade – o que nos deixa a imaginar a cada ocasião o que, de fato, teria acontecido.

Essa mistura de ambientes mágicos é um prato cheio para Burton, que tem no desenho sua melhor ferramenta. Extremamente visual, é nos cenários cuidadosamente construídos (segundo ele, as flores amarelas foram plantadas uma a uma), nas perspectivas falsas aprendidas em maquetes de Stop Motion e na caracterização bizarra dos personagens que ele se destaca.

Outra prova de que “Peixe Grande” tem toda a pinta de Burton é o perfil psicológico de Bloom. Ele não é um desajustado como “Edward Mãos de Tesoura”, mas usa a criatividade para fugir de um mundo que não lhe é suficiente. É assim com Alice, Wonka, até mesmo Batman. É assim com Burton. A trilha sonora, como em outros 14 filmes do diretor, ficou a cargo de Danny Elfman, ex-Oingo Boingo e hoje um dos compositores mais requisitados do cinema (ele está em cartaz com “Oz: O Mágico Poderoso”, “Hitchcock” e “O Lado Bom da Vida”).

Uma fábula sobre pais e filhos (sempre tão opostos e mal resolvidos), sobre o amor romântico, sobre a ficção e o próprio papel do cinema, sobre artistas e sua função na sociedade. “Peixe Grande” traz um pouco de tudo e muito da velha fantasia que, como diz Will, o filho de Bloom, “ouvimos tantas vezes que até esquecemos por que a adoramos em primeiro lugar”.