Rádio Jota #05 – Talibã, Matrix e Cowboy Bebop

Olá, queridos ouvintes! Perdoem a demora para trazer este novo episódio a vocês, mas aconteceu que, na mesma semana, me tornei Mestre em Letras e comecei um novo trabalho, então… Aqui estamos, tentando manter a sanidade e os olhos atentos na cultura e no cinema mundial. 

Hoje, vamos falar um pouquinho sobre o caos que tomou conta do Afeganistão nas últimas semanas, ameaçando principalmente as mulheres e seu desenvolvimento na arte e na ciência; vou indicar um filme sobre um lado mais moderno do mundo islâmico, dirigido por mulher, que está estreando nos cinemas; também vou contar pra vocês sobre o novo filme da franquia Matrix que, sim, vai acontecer e já tem até trailer; e sobre a série em live action inspirada no anime Cowboy Bebop, que ganhou suas primeiras imagens. Vamos nessa? 

Bom, o assunto da vez não poderia deixar de ser a tomada de poder no Afeganistão pelo Talibã, que promete afetar diretamente a produção cultural do país e também abala um pouco o resto do mundo ao trazer mais um exemplo claro de que o mundo anda, ao mesmo tempo, uns dois passos para a frente e uns dez para trás. 

Em resumo, o que aconteceu? Bem, o Talibã é um grupo extremista islâmico que atua desde os anos 90 no Oriente Médio e que tem como objetivo construir um Estado que siga uma certa visão do islamismo – uma visão bastante estreita, diga-se de passagem, que envolve o cerceamento de liberdades de pensamento e comportamento, especialmente de mulheres, artistas, jornalistas e acadêmicos. 

“Ah, mas a gente está avaliando com os olhos da sociedade ocidental, liberal, blablabla….” Pode ser. Mas foram eles, por exemplo, que atiraram na cabeça de uma menina de 15 anos em 2012 porque ela queria estudar. Essa era Malala Yousafzai, que sobreviveu, foi viver na Inglaterra, ganhou o Nobel da Paz, se formou em Filosofia, Política e Economia em Oxford e hoje atua no mundo inteiro defendendo o direito de mulheres à educação. Então, quer dizer… Quantos e quantas cientistas, diplomatas, artistas e outras pessoas que poderiam fazer a diferença para o mundo todo não estão sendo perdidas ou podadas por conta de meia dúzia de homem que se acha dono do mundo? Isso, obviamente, não é sobre religião. É sobre poder.

No caso específico do Afeganistão, os Estados Unidos e a OTAN intervieram em 2001 para, supostamente, “salvar” a população do “terrorismo”, começando pela morte de Bin Laden, líder da Al-Qaeda apoiado pelo Talibã. Na época ficou bem claro que havia outros interesses envolvidos, como o petróleo, mas o fato é que as tropas foram ficando e a população viveu um período de avanço em termos de educação, trabalho e direitos humanos, especialmente para as mulheres. Porém, vinte anos se passaram e o atual presidente dos Estados Unidos Joe Biden decidiu que era hora de retirar as tropas porque, para eles, não estava mais valendo a pena. E realmente manter uma situação de exceção como se fosse regra não é ideal pra ninguém. Mas, não deu nem tempo de o exército voltar para casa e o Talibã tomou o país inteiro e ocupou a capital. 

Daí pra frente, foi o horror que vocês devem ter visto nos jornais. Pessoas lotando os aeroportos, se enfiando em aviões do jeito que coube pra fugir do país, pessoas morrendo ao tentar pegar esses aviões… O horror. No campo do cinema, a diretora-geral da Afghan Film, Sahra Karimi, publicou uma carta aberta pedindo ajuda e proteção aos artistas e às mulheres, dizendo que tinha certeza de que iriam banir qualquer manifestação artística, abafar as vozes femininas, e que temia que o cinema afegão estivesse prestes a morrer sob o controle do Talibã. Ela e outra cineasta, Shahrbanoo Sadat, conseguiram sair de lá com a ajuda de outros países.

Vale dizer que alguns porta-vozes do Talibã deram entrevistas afirmando que tinham mudado e que permitiriam, por exemplo, que mulheres estudassem e trabalhassem. Porém, segundo relatos, eles já começaram a mandar para casa mulheres que estavam trabalhando, e a pegar menininhas como “noivas” para os seus soldados. 2021, né, gente, e a pandemia nem é a coisa mais horrível no horizonte.

E pra dar um gostinho do cinema que é feito hoje por mulheres em países islâmicos, vou indicar um filme que eu ainda não vi, mas pretendo, que está estreando nos cinemas. Ele se chama “A Candidata Perfeita” e é da diretora Haifaa Al Mansour – que foi a primeira mulher saudita a dirigir um filme em 2012 com o fofíssimo “O Sonho de Wadjda”. “A Candidata Perfeita” acompanha uma médica que, acidentalmente, se candidata a uma vaga na Secretaria Municipal, e decide abraçar a oportunidade para lutar por condições melhores no trabalho. Nem preciso dizer que o fato de ela ser uma mulher traz alguns obstáculos para a sua carreira como médica, pela dificuldade que ela enfrenta em ser levada a sério pelos colegas homens. Fica a dica pra quem estiver vacinado ver nos cinemas, e pra quem ainda não estiver, ficar de olho porque jajá deve chegar às plataformas para aluguel.

E, já que o assunto é cinema, vamos falar do trailer mais interessante da semana que não foi o do Homem-Aranha, mas sim o do quarto Matrix. Na verdade, só alguns donos de redes de cinemas e jornalistas americanos puderam assistir ao teaser, mas a descrição já está rolando solta na internet e daqui a pouco o vídeo deve aparecer por aí.

Eu revi a trilogia das Wachowskis recentemente e, de fato, o segundo e o terceiro filme são muito piores do que eu lembrava, mas o primeiro ainda tem um lugar especial no meu coração, então, tenho esperanças. O quarto filme se chamará Matrix: Ressurrections e, pelo trailer, parece que Neo e Trinity estão vivendo novamente na Matrix, sem nenhuma memória do que aconteceu, e Neo está fazendo terapia para lidar com uma sensação estranha de que o mundo não é exatamente o que parece. Nada mais 2021 do que um herói-escolhido no divã, né? E, atualizando um pouco mais aqueles questionamentos filosóficos da virada dos anos 2000 com a internet para os dias de hoje, o filme parece trazer uma crítica ao vício em celulares e telas, e talvez trabalhe essa alienação voluntária como a versão 2.1 do Mito da Caverna.

E ,ainda nessa onda de nostalgia, vem aí (finalmente) a versão em live action do anime mais estiloso de todos os tempos, com a melhor trilha sonora de todos os tempos, Cowboy Bebop. A série deve chegar à Netflix em novembro e tem provavelmente o elenco mais questionável, e questionado, entre adaptações recentes. 

John Chu, apesar de ser excelente em tudo o que faz, não é exatamente o que você esperaria de um Spike Spiegel, e  Daniella Pineda, de “Jurassic World”, não parece ter nem um terço da atitude “foda-se o mundo” da Faye Valentine, MAS…. Mustafa Shakir, de Luke Cage, está relativamente convincente nas primeiras imagens como Jet Black, e temos um corgi lindinho fazendo as vezes do cãozinho Ein. 

Ed, a criança andrógina, ainda não foi mostrada e não consta com esse nome no elenco, mas, ainda podemos ser surpreendidos com algum personagem semelhante de nome diferente. As primeiras imagens foram divulgadas nesta semana e só deixaram os fãs com mais dúvidas sobre o potencial desse projeto. A boa notícia é que a compositora Yoko Kanno, que fez a trilha original, retorna para a versão da Netflix. 

Bom ou ruim, aguardamos ansiosamente. Let’s Jam!

É isso por hoje! Se você gostou e quer dar aquele apoio moral, ou tem uma ideia de assunto para discutirmos aqui, mande uma mensagem pelo Instagram @julianavarella (com 2 Ls) ou mande um email para cadernojota@gmail.com. Até a próxima!

Rádio Jota #04 – Tanques, mudanças climáticas e mulheres livres

Olá, queridos ouvintes! Estou de volta com mais um Rádio Jota, o programa de variedades culturais do Caderno Jota. Eu sou Juliana Varella, e hoje trago meu novo companheiro de mesa, o microfone Marty Mic Fly! Deem as boas vindas ao Marty. Agradeço ao Douglas Oliveira por ter sugerido esse nome maravilhoso, e vamos às notícias!

Estou gravando este programa numa sexta-feira 13, e não há nada mais horripilante no momento do que a pessoa que ocupa a presidência do país. Pois, na última semana, esse tal senhor apelou, literalmente, para tanques de guerra, numa tentativa desesperada – e fracassada – de demonstrar poder. No mesmo dia da votação da PEC do voto impresso na câmara dos deputados, algumas dezenas de veículos do exército desfilaram em frente ao planalto, coisa que não acontecia desde 1984 assim, fora de datas comemorativas. 

O desfile foi ordenado pelo próprio presidente para entregar a ele um convite para uma cerimônia militar que acontece todos os anos. É o auge do auto-convite, né? E vocês aí achando que café é que é cringe… Mas sigamos. O fato de esse showzinho acontecer no dia da votação certamente não é coincidência: Bolsonaro vem tentando emplacar o voto impresso desde que foi eleito (pelo voto eletrônico), o que só pode ser explicado como 1. Mais uma estratégia para desviar a atenção do que realmente importa, ou 2. Um jeito de tornar mais fácil a manipulação do voto no futuro, ou de levantar a dúvida sobre o principal instrumento da democracia hoje. Pois, mesmo perdendo na câmara, como aconteceu, ele já conseguiu colocar aquele pontinho de interrogação na cabeça de muitos brasileiros.  

Agora, se essa barulheira toda era pra botar medo em alguém… Acho que passou bem longe disso. Um dos tanques que desfilou soltava uma fumaça preta como um carro velho, bem capenga, e o evento virou chacota instantânea na internet. Mas duvido que ele tenha se incomodado com isso: o lema da presidência desde o início tem sido “falem mal, mas falem de mim”, e, mais uma vez, o Brasil está falando dele.  

Enquanto isso, chega hoje a notícia de que o projeto de lançamento no Brasil do filme Marighella, pronto desde 2019 e já exibido em festivais no mundo todo, foi oficialmente cancelado pela Ancine, sob alegação de “desistência” da produtora – no caso a O2. O curioso é que a produtora, segundo a reportagem de Jotabê Medeiros, negou a informação e, portanto, qualquer que tenha sido o motivo para o bloqueio, não foi desistência. Surpresa seria se um governo totalmente militarista apoiasse um filme sobre um líder que se opôs à ditadura militar. O filme estava previsto pra estrear em novembro nos cinemas. 

Continuando no clima de terror, nesta semana a ONU divulgou mais um dos seus relatórios sobre o clima, desta vez estabelecendo um “sinal vermelho” bem claro para a humanidade. Primeiramente, o relatório confirmou que o aquecimento global é culpa nossa – nenhuma novidade aqui – e que um crescimento de um grau e meio em relação à era pré-industrial já é praticamente inevitável, mas pode chegar a dois graus antes de 2050. E isso não significa só um calor insuportável: alguns países insulares correm o risco de desaparecer, ou perder grandes porções, com a elevação do nível do mar. Isso sem contar no aumento de coisas como ciclones, enchentes, secas e outros desastres naturais.

Para evitar o apocalipse, o ideal seria zerar a emissão de gases do efeito estufa, como o dióxido de carbono, mas os efeitos ainda demorariam 30 anos pra serem sentidos. Algo me diz que parar de queimar e desmatar florestas também ajudaria bastante.

Voltando pra cultura, porque dei uma desviada aí, vocês lembram da história da Britney Spears, presa numa tutela do pai por 13 anos? Pois é: pra quem não me viu falando disso num dos meus vídeos no Instagram, a Britney foi colocada sob tutela legal do pai quando teve aquele pequeno surto em 2008. Isso colocou todo o seu dinheiro e todos os seus direitos sob o controle do pai, que, desde então, transformou a filha numa máquina de fazer shows em Las Vegas, lucrando rios de dólares, mas negando a ela até mesmo a possibilidade de escolher o próprio advogado. 

Em julho, com a história se tornando pública e amplamente divulgada, ela ganhou o direito de escolher o advogado e, em questão de semanas, seu pai decidiu abandonar voluntariamente a tutela, alegando que não havia base legal nenhuma para retirá-lo à força, mas que ele “quer o bem da filha”. Aham. Milagres da mídia, né? Fica aqui meu boa sorte pra Britney, que vai ter um longo caminho aprendendo a ser dona da própria carreira. E, se for pra ser doidinha, que seja uma doidinha livre!

E, pra fechar com uma dica, hoje eu recomendo pra vocês uma leitura que terminei esses dias: “Afiadas”, de Michelle Dean. O livro tem como subtítulo “as mulheres que fizeram da opinião uma arte”, e é sobre isso que ele fala: são minibiografias de nomes como Norah Ephron, Susan Sontag, Hannah Arendt e Pauline Kael, mulheres que trabalharam como jornalistas, acadêmicas ou roteiristas, ou um pouco de tudo, e que ficaram famosas por terem “opiniões fortes”. 

Bom, a ideia de que qualquer mulher que tenha uma voz pública vai ser considerada “afiada”, de um jeito pejorativo, é abraçada pela autora, que tenta mostrar, no seu livro, como essas autoras eram diferentes entre si. Umas apoiam o movimento feminista quando ele estoura nos anos 60, outras rejeitam; umas escrevem sobre cinema, outras sobre teatro ou literatura; e umas inclusive não se dão bem com as outras. 

Ler essas histórias e me fez querer ler pelo menos um texto de cada uma dessas mulheres, pra ver na prática essa personalidade toda que o livro mostra em cada capítulo. Porém, achei que a autora dá atenção demais às intrigas pessoais fora das redações, de um jeito que acaba reforçando o estereótipo de que mulheres que escrevem são mulheres “difíceis”, que arranjam briga com todo mundo e que estão sempre criticando tudo. É verdade? Provavelmente é. Mas me interessa mais a obra do que a vida delas.  Dito isso, vale muito a leitura, especialmente se você, como eu, é uma mulher tentando se encontrar na crítica e no jornalismo. É bom saber quem foram as divas que abriram caminho pra você.

É isso por hoje! Obrigada a quem me acompanhou até aqui, lembrando que quem quiser enviar uma mensagem ou sugestão, é só me procurar no instagram no @julianavarella ou enviar um email para cadernojota@gmail.com. Até a próxima! 

Rádio Jota: Scarlett vs. Disney, incêndio na Cinemateca e Julia Ducournau

Olá, queridos ouvintes! Sejam bem-vindos de volta ao Rádio Jota, o programa de notícias e dicas culturais do Caderno Jota. Se você ainda não conhece o programa, dá uma olhadinha lá no Spotify! Toda semana, tenho dedicado alguns minutinhos a discutir duas ou três notícias culturais, tentando juntar informação e reflexão. Hoje, convido vocês a pensarem comigo dois assuntos quentes: o caso Scarlett vs. Disney; e o incêndio na Cinemateca Brasileira. Pra não perder o costume, também prometo trazer uma dica cultural diferentona, que eu aposto que vocês ainda não conhecem. Vamos lá?

Começando com a bomba hollywoodiana da vez: a atriz Scarlett Johansson, intérprete de Natasha Romanoff, AKA Viúva Negra há 11 anos, abriu um processo contra a Walt Disney alegando quebra de contrato pelo lançamento simultâneo do filme-solo da heroína nos cinemas e no Disney Plus. Desde então, a Disney respondeu menosprezando a acusação, a agência da Scarlett retrucou e a coisa virou uma guerra midiática. Mas vamos por partes.

Você, aí em casa, com seu salário xoxo que mal paga o aluguel, ficou sabendo que a atriz já tinha recebido 20 milhões de dólares pela participação no filme, e ficou revoltado: cara, do quê que ela tá reclamando? E, de fato, se a gente for pensar no salário base de cada um dos Vingadores para os seus primeiros filmes-solo, esse foi, de longe, o mais alto. Robert Downey Jr. ganhou meio milhão para o primeiro Homem de Ferro, Chris Evans cerca de 1 milhão por Capitão América e a Brie Larson, 5 milhões por Capitã Marvel – pelo que foi divulgado na época de cada lançamento. Porém, onde esses atores realmente ganham é com uma espécie de “participação nos lucros”  – eles incluem no acordo uma porcentagem do que o filme arrecadar em ingressos nos cinemas. E é aí que entra o processo da Scarlett.

Se 20 milhões é muita coisa, o que esses atores podem ganhar com a tal participação é coisa de 50, 70 milhões. E, apesar de o filme da Viúva Negra ter feito cerca de 60 milhões no streaming, como divulgado pela própria Disney, esse número não conta no acordo – só a bilheteria dos cinemas. Entendeu o problema? A questão que o processo levanta não é sobre quanto ela ganhou, mas sobre quanto a Disney ganhou e não compartilhou com ela, ao assumir o risco de reduzir o lucro nos cinemas investindo no aplicativo. 

Isso aconteceu num período de pandemia? Sim. Era necessário lançar no streaming? Era. Mas também era necessário negociar a mudança, se o contrato previa algo diferente, especialmente porque essa estratégia pode se tornar permanente depois da pandemia. E o caso não é exclusivo da Scarlett – ela representa muita gente com esse gesto, que, diga-se de passagem, é bastante corajoso. A equipe da Pixar responsável pela animação Luca, por exemplo, também reclamou do lançamento simultâneo, mas não tinha o peso de alguém como ela pra bancar um processo. E a Warner chegou a negociar condições especiais com nomes como Gal Gadot e Patty Jenkins antes de lançar seus filmes na HBO Max, porque sabia que ia dar problema. 

Ou seja? Tem muito mais em jogo aí do que o salário de uma atriz: é a mudança de formatos de distribuição e de relações entre profissionais e estúdios que está sendo negociada.

Agora, vem comigo respirar fundo e passar pro segundo assunto do dia, porque parece que todo programa tem que pegar fogo em alguma coisa por aqui. 

Na última quinta-feira, 29 de julho, um incêndio tomou conta de um dos galpões da Cinemateca Brasileira, como já estava previsto e avisado há pelo menos um ano. Como assim? Bom, em agosto de 2020 a equipe inteira da Cinemateca foi demitida por falta de dinheiro pra pagar os salários – isso, porque a verba de 14 milhões prometida para o ano inteiro simplesmente não tinha sido entregue pelo Governo Federal, e, no ano anterior, só metade disso tinha sido repassado. Ou seja, o espaço que deveria preservar e difundir o cinema brasileiro ficou sobrevivendo por meses com uma equipe sem salário e sem um centavo para fazer o seu trabalho. 

É a velha história: você não precisa ter jogado gasolina e acendido o fósforo pra ser o culpado pelo incêndio. É só mexer os pauzinhos pra tornar impossível qualquer prevenção do estrago que um acervo cheio de material inflamável vai fazer mais cedo ou mais tarde. Era questão de tempo e todo mundo do meio artístico sabia. Mas, no Brasil, não adianta falar: as pessoas só acreditam quando veem o fogo. E olha lá.

A tragédia da Cinemateca, é claro, não vem sozinha. Ela é parte de um processo muito maior de sucateamento da cultura brasileira que só vem piorando nos últimos anos. Coincidência ou não, nesta mesma semana diversos sistemas do CNPq, incluindo a Plataforma Lattes, onde ficam registrados os currículos acadêmicos de basicamente todos os pesquisadores do Brasil, caíram por conta de uma falha técnica. O medo se espalhou rapidinho, porque, se não houvesse backup, as bolsas de pesquisa seriam afetadas; o ingresso em cursos de pós-graduação seria afetado; contratações seriam afetadas, enfim. E a gente sabe que as únicas pessoas que se importariam com isso eram os próprios acadêmicos, o que torna tudo mais doloroso. Felizmente, o CNPq garantiu que tinha backup e que nada foi perdido. E a gente espera que seja verdade.

E eu falo que isso tudo é sucateamento e não problemas pontuais porque é um conjunto de coisas que vão enfraquecendo acadêmicos, artistas, intelectuais, todos aqueles que tendem a ser mais questionadores, pouco a pouco. O próprio CNPq sofreu um corte de orçamento em 2021 que prejudicou o pagamento das bolsas de doutorado, por exemplo. Isso significa que várias pessoas que tiveram suas bolsas aprovadas há meses não receberam nada até agora, e precisam continuar pagando pra trabalhar. As Universidades Federais também tiveram suas verbas cortadas entre 2020 e 2021 ao ponto que algumas, como a UFRJ e a Unifesp, afirmaram que não têm como bancar o retorno às aulas presenciais.

E, falando em incêndios, vocês devem lembrar de outros ícones da cultura brasileira que queimaram recentemente – o Museu Nacional em 2018, o Memorial da América Latina em 2013, o Museu de História Natural em BH em 2020, e o Museu da Língua Portuguesa no finalzinho de 2015. Esse, finalmente, está reabrindo ao público nesta semana e você já pode até reservar seus ingressos pelo site. Pelo menos uma boa notícia, né? Ô museu maravilhoso!

Pra fechar nosso encontro, trago uma dica mucho loka: um curta-metragem chamado “Junior”, da diretora francesa Julia Ducournau. Ducournau foi a vencedora da Palma de Ouro neste ano com seu segundo longa, Titane, e já tinha levado o prêmio da crítica em Cannes com seu filme de estreia, “Raw” – ou Grave. “Junior”, de 2011, é uma produção de 21 minutos sobre uma menina super moleca e bruta, que começa a entrar na puberdade e vê seu corpo se transformando – no caso, bem literalmente. É um filme com elementos fantásticos e grotescos, que tenta quebrar a ideia do feminino como algo delicado, belo ou, principalmente, controlável, algo que ela vai levar para seus filmes seguintes. 

E o interessante de ver esse curta é descobrir que a diretora tem adotado uma persona comum em todos os seus grandes projetos até agora: a adolescente de “Junior” se chama Justine, como a protagonista de Raw e uma das personagens de Titane, e todas são interpretadas pela mesma atriz, Garance Marillier. Ao que parece, Justine é a mulher monstruosa, errada, ameaçadora, do novo cinema monstruoso, errado, ameaçador e brilhante de Ducournau.  O curta “Junior” fica disponível até 21 de agosto no site shortoftheweek.com.

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Rádio Jota #02 – Jeff Bezos no espaço, churrasquinho de Borba Gato e mulheres nas Olimpíadas

No programa de hoje, comento três notícias culturais cheias de polêmica: a (curtíssima) viagem de Jeff Bezos ao espaço, parte de uma corrida espacial dos bilionários; o ataque à estátua do bandeirante Borba Gato em São Paulo, e a tendência de derrubada de estátuas ligadas à escravidão e ao colonialismo pelo mundo; e as dificuldades enfrentadas por atletas mulheres nas Olimpíadas de Tóquio, no que diz respeito a regras antiquadas de vestuário e à total falta de compreensão sobre as necessidades de lactantes e puérperas. Para não perder o costume, também indico um filme bem diferente para ampliar seus horizontes: o sci-fi angolano “Ar condicionado”, em cartaz na plataforma Mubi.

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Vem aí: vídeos e podcasts

Depois de muito tempo andando em câmera lenta e oscilante rumo a nenhum lugar particularmente interessante, comecei este ano tentando colocar a vida de volta aos trilhos. Esta vida, quer dizer, a produtiva. O que só foi possível depois de entender que eu teria que criar novos trilhos sobre os quais colocá-la. Pois, mãos à obra: respirei fundo, olhei bem para minhas frustrações dos últimos anos e separei o que eu gosto e sei fazer do que eu escolhi abandonar completamente da minha vida (no fim, não era todo o jornalismo que eu abominava, mas parte dele. No fim, eu não queria ficar assim tão longe dele). Se vai dar certo? Ora, desta vez vamos ter que fazer dar. (Gostam desse otimismo, né? Esperem mais um mês. Ou uma semana).

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