Liberdade é um caminho sem volta

Primeiro foram os sutiãs. Bati o olho num modelito sem aro, sem bojo, sem quase nada, e foi amor à primeira vista… Pensei nas pontadas que já tinha levado quando o ferro se desprendera do pano, pensei no formato estranho que meus seios ganhavam quando os obrigava a se encaixar num semicírculo perfeito, pensei no tamanho irreal e na posição eternamente imóvel que ganhavam quando vestia as peças mais desconfortáveis da indumentária humana… E saquei a carteira. Continuar lendo “Liberdade é um caminho sem volta”

Versos livres

Tenho colocado poucas palavras no papel. Meus pontos finais andam cada vez mais raros e já não sei o que dizer para a tela em branco, o caderno de bolso ou a parede preta pintada de tinta-lousa. Passei os últimos meses procurando sem sucesso pelo texto que se desmanchava entre sonhos dormidos e acordados, mas talvez procurasse, sem saber, pelos pedaços que se perderam de mim. Continuar lendo “Versos livres”

Azul, com traços vermelhos

A questão me apresentava quatro alternativas e, em cada uma delas, duas palavras ambíguas. Você é distante e reservada? Ou cuidadosa e atenciosa? Influente e criativa ou firme e assertiva? Azul, verde, amarela ou vermelha? Vamos, escolha. Conte-nos quem você é. Continuar lendo “Azul, com traços vermelhos”

(Des)aprendendo a escrever

Escrevo desde criancinha e nunca dei muita bola pra isso. Simplesmente inventava histórias para as minhas bonecas, para os personagens que eu gostava da televisão, ou criava minhas próprias heroínas estranhas e as colocava no papel – fosse em forma de quadrinhos, anotações nos cantos dos desenhos ou, certa vez, num calhamaço de papel escrito à mão, com capa e tudo como num livro de verdade.

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Daniel Radcliffe vive poeta beat em “Versos de um Crime”

versos

Mate suas coisas queridas, diz o professor. Mate seus impulsos infantis, suas manias, seus ídolos, e recomece. O professor Stevens (John Collum), à frente da turma de calouros na Universidade de Columbia, gostaria que o recomeço seguisse as tradições e a métrica clássica, mas não foi o que aconteceu a Lucien Carr, Allen Ginsberg, William Burroughs e Jack Kerouac naquele ano.

Versos de um Crime”, que estreia no dia 12 de junho, é uma mistura entre romance biográfico e thriller, que não se encaixa, entretanto, em nenhuma dessas categorias. O longa de estreia de John Krokidas narra com perfeição e detalhes uma fase-chave na história da literatura americana, nos anos 40, quando os principais nomes da geração beat se conheceram e deram os primeiros passos em direção à rebeldia que marcaria seus textos.

O filme fala de literatura como fala de amor, guerra e crime, e o faz com linguagem poética, como a de seus biografados. Desde a fotografia, escurecida e amarelada, até a escolha de cada corte e cada enquadramento (sempre fechado, particular, ora observando os poetas de cima, ora caminhando com eles), tudo é consciente, como uma discreta assonância num verso livre.

Daniel Radcliffe (bem longe do Harry Potter que o consagrou) entrega-se de corpo e alma a Ginsberg, nosso ponto de vista nesta história de amizade, inspiração e assassinato. Um homem morre já na cena inicial – mas, mais do que descobrir o culpado, precisamos entender por quê.

Comecemos, então, por Ginsberg. Educado e cuidadoso com a mãe, louca, o jovem (filho de outro poeta, Louis Ginsberg/David Cross) mal consegue relaxar para comemorar sua entrada na Universidade de Columbia. Lá, encontra uma instituição rígida e tradicional, quebrada apenas pelos surtos de um poeta exibicionista: Lucien Carr.

Interpretado visceralmente por Dane DeHaan, Carr é uma espécie de furacão que suga as energias de quem orbita à sua volta. Ele é sedutor e ambicioso, mas é um poeta apenas nas ideias, pois jamais escreve. Ele é a inspiração rebelde para escritores como Ginsberg, que só precisa de uma brecha no seu círculo de mesmices.

O círculo é a forma que rege o longa, cujo início coincide com o fim. Citado num discurso atribuído a Yeats, ele representa a repetição, a morte e o renascimento – mas diz-se que pode ser ampliado caso um evento quebre o padrão. Carr quebra o padrão de Ginsberg, que mergulha num delírio criativo e transformador (numa sequência deliciosamente provocativa, ao som de jazz); e Ginsberg quebra o de Carr, que é obrigado a amadurecer.

Juntam-se a eles David Kammerer (Michael C. Hall), Kerouac (Jack Huston) e Burroughs (Ben Foster), que logo criam um movimento chamado “Nova Visão”. Sua poética não é exposta nos versos, mas nas ações – como a invasão de uma biblioteca e a destruição de livros clássicos, só para que trechos dispersos sejam colados à parede, formando uma “nova” literatura.

Kammerer logo torna-se uma peça central: apaixonado por Carr, ele parece persegui-lo numa estranha relação de cumplicidade e medo. O personagem foi real e o caso ambíguo entre os dois nunca foi, de fato, desvendado. Na interpretação de Krokidas, as tensões são sexuais, tanto entre Carr e Kammerer quanto entre Carr e Ginsberg – que, sim, protagonizam um beijo bem quente, mesmo que rápido.

“Versos de um Crime” é um filme apaixonado por literatura, que prova em imagens e ações a força das ideias de uma geração de escritores. Para amantes de livros, será um cult. Para fãs de romances trágicos, será, no mínimo, marcante. Para todos os outros, é um filme que impressiona pelo visual, pela música e pelas atuações. Um must.

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Crítica: “À Beira-Mar” não é um filme romântico, mas é um filme sincero sobre amor

À Beira-Mar” não é um filme fácil. O terceiro longa-metragem dirigido por Angelina Jolie (e o segundo escrito por ela) é seu projeto mais pessoal até agora, mas também o mais maduro. Na tela, ela e o marido, Brad Pitt, se insultam, se machucam e se compreendem apesar de tudo, sob um cenário que oscila entre a paz silenciosa e a sensualidade latente.

beira

O filme se passa nos anos 70 e tem como protagonistas Roland (Pitt) e Vanessa (Jolie), um casal junto há 14 anos que decide passar uma temporada num hotel isolado numa praia francesa. Ele busca inspiração para seu novo livro, mas não consegue completar uma linha, falha que a companheira não hesita em apontar.

Os dois formam um quadro estranho: nunca estão juntos e, quando estão, tudo o que fazem é hostilizar um ao outro. Ela, aliás, não é uma personagem fácil de gostar: logo na primeira cena, insiste em andar sobre a areia de salto alto e reclama do cheiro dos peixes. Mas o filme, inteligente e paciente, nos obriga a observar por mais tempo do que seria confortável e, finalmente, a compreender essa personagem como Roland.

Num certo momento, o marido descreve os dois como o casal perfeito de Nova York: “eu era um escritor e ela, tinha um corpo incrível”. A depreciação de Vanessa não é acidental e ajuda a compor o contexto psicológico da personagem, necessário para entender suas reações. Estes são os anos 70 e ela cresceu acreditando no casamento como um dos objetivos finais na vida de uma mulher. Por isso, quando questionada sobre sua profissão, define-se como “esposa” e resigna-se a passar dias inteiros ociosa dentro do quarto do hotel.

Se, no início, enxergamos os dois como um casal cansado um do outro, aos poucos percebemos que há uma ferida mais profunda afastando os dois. O comportamento dela, que repele ao mesmo tempo a ele e a si mesma, se aproxima mais de uma depressão do que da simples arrogância que ela se esforça em aparentar.

A montagem, que em alguns momentos sobrepõe diálogos a imagens fugidias, ajuda a expressar visualmente a relação entre os dois: as palavras de Roland parecem não atingir Vanessa, cada vez mais imersa no ódio a si mesma. A trilha sonora, composta por Gabriel Yared (que já trabalhara com a diretora em “Na Terra de Amor e Ódio”), também participa da narrativa, inserindo um tom melancólico e quase conformado ao drama – o que combina com a tranquilidade do mar e com a proposta geral do filme. “É preciso nadar de acordo com as ondas”, lembra Roland.

Além de Jolie e Pitt, o longa também traz Niels Arestrup como o dono do restaurante e Mélanie Laurent e Melvil Poupaud como os recém-casados que ocupam o quarto vizinho aos protagonistas – um casal jovem, feliz, amigável e incansável na cama, que traz à tona todas as feridas do casal veterano.

“À Beira-Mar” não é um filme romântico, mas é um filme sobre amor. Um filme lento, fique avisado, mas ainda assim intenso, sobre a realidade bruta da vida a dois. A estreia está marcada para o dia 3 de dezembro nos cinemas.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.