Nasce uma estrela: conto de fadas é atropelado pelo álcool em remake com Gaga e Cooper

Sim, Lady Gaga sabe atuar. E sim, Bradley Cooper sabe cantar. Agora que já concordamos com isso, é hora de ir um pouco além do primeiro impacto de “Nasce Uma Estrela” e pensar sobre tudo o que o filme – quarta versão do musical a chegar aos cinemas – propõe ao público de 2018 entre uma canção e outra. Continuar lendo “Nasce uma estrela: conto de fadas é atropelado pelo álcool em remake com Gaga e Cooper”

FC! Review – Caça-Fantasmas


No FC! Review desta semana, comentamos a estreia mais polêmica do momento: “Caça-Fantasmas”, reboot do clássico de 1984 com protagonistas femininas.
O filme conta a história de duas pesquisadoras do sobrenatural que se unem a outras duas especialistas e um secretário para impedir que um lunático abra um portal entre os mundos, libertando fantasmas em Nova York.
Estreia no dia 14 de julho nos cinemas.

Imagens: Caça-Fantasmas (2016) / Sony Pictures

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Crítica: “Mogli – O Menino Lobo” eleva a animação realista ao próximo nível

Qual é a linha exata que separa um live action de uma animação? Na nova adaptação do clássico “Mogli – O Menino Lobo”, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (14/04) sob direção de Jon Favreau (do adorável “Chef”), os limites se revelam mais turvos (e irrelevantes) do que nunca.

O filme é em todos os sentidos mais intenso que o desenho de 1967, com o qual muitos espectadores tiveram o primeiro contato com a história de Rudyard Kipling: há mais aventura, mais drama, mais tensão, mais emoção. Mas nem era preciso. Com aqueles efeitos visuais, até a mais fraca das tramas seria hipnotizante.

“Mogli – O Menino Lobo” causa um espanto semelhante ao que causou “Avatar” em 2009, como se uma revolução técnica de repente desabrochasse diante dos olhos do espectador. A diferença é que, aqui, não é só o visual dos animais e da floresta (todos construídos em CGI, sobre um cenário quase completamente coberto por panos azuis) que surpreende, mas toda a qualidade da produção.

As vozes originais, gravadas por nomes como Bill Murray (o urso Baloo), Idris Elba (o tigre Shere Khan), Lupita Nyong’O (a loba Raksha) e Scarlett Johansson (a cobra Kaa), são tão responsáveis pela imersão na fantasia quanto o design – e o elenco faz um trabalho tão bom que o fato de dois animais digitais estarem conversando entre si (numa floresta digital) nunca parece falso.

Se isso tudo não faz de “Mogli – O Menino Lobo” uma animação, é porque existe um único ator em cena (Neel Sethi, que interpreta Mogli), acompanhado por alguns detalhes do cenário e eventuais marionetes. A captura de movimento dos animais e a criação dos cenários virtuais foram feitos antes das filmagens com o ator-mirim e combinados posteriormente.

O roteiro, escrito pelo quase estreante Justin Marks, tem sacadas inteligentes e funciona bem tanto para o público infantil quanto para o adulto – pelo menos, na maior parte do tempo. Uma cena, em especial, pode incomodar: quando o gigantesco orangotango Louie (Christopher Walken, cuja voz não combina tão bem com o personagem) tenta convencer Mogli a ajudá-lo, tem início um número musical desnecessário e um tanto inseguro – nem falado, nem propriamente cantado. Em seguida, acontece uma perseguição dentro das ruínas que parece saída de um videogame. Passado esse trecho, porém, o filme volta aos trilhos.

“Mogli – O Menino Lobo”, ao contrário de outras refilmagens recentes de clássicos da Disney, é um filme necessário. Favreau se permite distanciar do original (considerando, aqui, a animação dos anos 60 e não o livro), criando uma fábula mais atual, mais poderosa e mais livre – tanto no conteúdo quanto na forma. Despreocupado com rótulos, o filme consegue explorar todas as possibilidades do cinema como meio e atinge o “status” de experiência. Uma experiência que deve conquistar as novas (e as velhas) gerações.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Fala, Cinéfilo! #05 – Guerra Civil, Caça-Fantasmas, Convergente e Zootopia


No Fala, Cinéfilo! Desta quinzena, comentamos a aparição do Homem-Aranha no novo trailer de “Capitão América: Guerra Civil”. Também mostramos os trailers do reboot de “Caça-Fantasmas” e da animação em stop-motion “Kubo e a Espada Mágica”. Entre as notícias, saiba tudo sobre os contos inéditos de J.K. Rowling, a sequência de “Beetlejuice” e quem pode ser a próxima Lara Croft nos cinemas. Em cartaz, destacamos a aventura “Convergente”, o terror psicológico “Boa Noite, Mamãe” e a animação “Zootopia”.

Links:
Trailer “Capitão América: Guerra Civil”: http://bit.ly/1WhUJPS
Trailer “Caça-Fantasmas”: http://bit.ly/1U94h1z
Trailer “Kubo e a Espada Mágica”: http://bit.ly/1QPEZDy
Pottermore (contos de J.K. Rowling em português): http://bit.ly/1WhUW5u
Crítica de “Convergente”: http://bit.ly/1TtMJgK
Crítica de “Boa Noite, Mamãe”: http://bit.ly/1SJCEey
Crítica de “Zootopia”: http://bit.ly/1RXjPSV

Crítica: “Peter Pan” funciona bem como aventura infantil, mas não emociona o público mais velho

Você já conhece a história do garoto que não queria crescer, do capitão com um gancho no lugar da mão e até daquele mesmo garoto, quando resolveu virar adulto. Mas, e quanto à origem dos personagens? No novo filme de Joe Wright, Peter e Gancho ainda não são “Pan” nem “Capitão”, mas a Terra do Nunca já está ali e é nela que os dois se tornarão grandes amigos, antes de descobrirem suas primeiras desavenças.

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Peter Pan” traz de volta aos cinemas alguns velhos conhecidos do público: além de Peter (Levi Miller) e Gancho (Garrett Hedlund), Tigrinha (Rooney Mara) e o pirata Smee (Adeel Akhtar) têm papéis de destaque, as sereias (Cara Delevigne) têm seu momento, o crocodilo dá as caras e Sininho tem uma participação relâmpago. No papel do vilão, quem entra é Barba Negra, interpretado por um Hugh Jackman de peruca, bigode e um sorriso de quem nunca se divertiu tanto.

O filme começa promissor, com uma sequência da mãe de Peter (Amanda Seyfried) abandonando o bebê na porta de um orfanato e, em seguida, algumas cenas divertidas do dia-a-dia na instituição. Logo, o protagonista começa a desconfiar que a diretora (má como a mais malvada das diretoras de orfanatos) esteja vendendo crianças em troca de dinheiro.

Para tirar a prova, ele e seu melhor amigo resolvem ficar acordados durante a noite, e é aí que Peter é levado pelos piratas de Barba Negra, que caem do teto pendurados em cordas feito ioiôs. A partir daí, Peter conhecerá a Terra do Nunca, descobrirá que pode voar e partirá numa aventura em busca do ninho secreto das fadas, ao lado de Tigrinha e Gancho.

Tudo em “Peter Pan” é bastante teatral – das acrobacias aéreas à fumaça colorida que sai das armas de fogo; do figurino dos índios aos hinos de punk rock entoados pelos escravos de Barba Negra. Já era de se esperar: entre outros filmes, Joe Wright é conhecido por sua adaptação nada discreta de “Anna Karenina”, que, apesar de cansativa, transformou o romance de Tolstói numa sofisticada encenação.

Como aventura infantil, “Peter Pan” tem todos os elementos para funcionar bem: um herói mirim, criaturas fantásticas, vilões sedutores, capangas atrapalhados e uma grande viagem cheia de obstáculos. Para o público adulto, porém, acostumado a versões como a animação de 1953 ou o filme  com Robin Williams, de 1991, será difícil estabelecer um novo laço. O Peter de Miller, sério e todo “adulto”, não é o Peter que conhecemos. Aquele Gancho,  mulherengo e nobre de coração, também não é o pirata que tememos na infância.

Muita coisa se manteve e muita coisa mudou, mas, nesse processo de inovação, algo da essência de J.M. Barrie se perdeu. O que foi feito da Terra do Nunca, único lugar da imaginação onde qualquer um poderia ser criança para sempre? Onde está a sensação de liberdade que aquele mundo deveria carregar?

“Peter Pan” traz as doses certas de diversão, ação e drama, mas erra em alguns personagens e exagera em algumas cenas essenciais (o clímax da batalha contra Barba Negra é algo que você dificilmente esquecerá, e não digo isso no bom sentido). Por isso, o longa perde a chance de ser inesquecível, mas, ainda assim, é um programa interessante para o Dia das Crianças. O filme chega aos cinemas no dia 8 de outubro, com cópias em 3D.

Texto publicado inicialmente no Guia da Semana.

Crítica: “Férias Frustradas” acerta no tom e não recorre à nostalgia para ser engraçado

Quem diria: em pleno 2015, “Férias Frustradas” ainda é uma ótima comédia para ver com a família. A diferença é que, agora, não estamos mais falando daquele filme com Chevy Chase que você assistiu há mais de trinta anos (sim, sinto muito, já faz todo esse tempo), mas da sequência de mesmo nome que chega aos cinemas no dia 10 de setembro.

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John Francis Daley e Jonathan M. Goldstein, de “Quero Matar Meu Chefe”, assumem a direção e o roteiro do novo filme, com Ed Helms no papel principal. Ele é Rusty, o filho dos Griswold que cresceu e formou sua própria família, ao lado de Debbie (Christina Applegate) e dos filhos James (Skyler Gisondo) e Kevin (Steele Stebbins).

Tentando oferecer aos três um programa diferente para as férias, Rusty decide refazer a viagem que marcou sua infância: cruzar o país de carro rumo ao parque Walley World. É claro que ninguém além do próprio Rusty gosta da ideia, mas eles partem para a estrada mesmo assim.

Para começar, paremos um minuto para falar sobre o carro: ele é, provavelmente, a melhor piada de todo o filme, competindo apenas com a montagem de fotos na abertura. Com duas frentes, quatro retrovisores e muitos botões, além de um GPS memorável, essa é a primeira das muitas escolhas péssimas-mas-bem-intencionadas de Rusty ao longo da viagem.

É essa boa intenção por trás de cada erro que torna tudo tão engraçado, afinal, o público consegue se identificar com os personagens e torcer por eles enquanto ri de sua desgraça. Outro ponto positivo é que “Férias Frustradas” não se apoia num humor ofensivo, machista ou racista: seu instrumento é a ingenuidade dos personagens e o exagero das situações em que eles se envolvem. É um riso leve e sem culpa.

Há, sim, algumas piadas mais pesadas no meio do caminho, como um beijo grego ou uma participação mais do que especial de Chris Hemsworth, mas a abordagem é tão inocente que essas brincadeiras não chegam a ser impróprias (e as crianças, provavelmente, nem entenderão).

“Férias Frustradas”, como o próprio protagonista avisa, não tenta repetir o sucesso do filme original, mas se sustenta por si só, com um novo elenco (apesar da participação especial do antigo), novas situações e novos motivos para rir. O que se mantém é o espírito familiar: como nos anos 80, pais e filhos vão poder se sentar diante da tevê ou da tela do cinema e curtir algumas boas gargalhadas juntos.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Quarteto Fantástico” renova a origem dos personagens, mas decepciona na reta final

Numa época em que até Homem-Formiga e Aquaman estão ganhando sua chance em megaproduções, é natural que os poucos heróis que ainda não tenham conseguido se firmar dentro de uma franquia voltem às telas de cara nova, recontando suas origens na esperança de se tornarem os novos Vingadores.

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Isso já aconteceu com Homem-Aranha, Batman e até X-Men, que vem explorando duas linhas do tempo para introduzir um elenco mais jovem. Agora, é a vez do Quarteto Fantástico tentar a sorte no filme que estreia nesta quinta (6 de agosto) com Miles Teller, Kate Mara, Michael B. Jordan e Jamie Bell.

O elenco não poderia estar mais em alta: Teller brilhou no Oscar 2015 com “Whiplash”; Jordan conquistou críticos em 2013 com “Fruitvale Station”; Mara está na premiada série “House of Cards” e Bell saltou de “Billy Elliot” (2000) para “Ninfomaníaca” (2013), mostrando que não era apenas uma criança-prodígio.

Tanto cuidado com os heróis não compensa, porém, a escalação de Toby Kebbell para o papel do Dr. Destino. Apesar de se destacar em “Planeta dos Macacos – O Confronto” como o chimpanzé Koba, aqui ele não convence como a criatura enciumada e amargurada que, de uma hora para a outra, decide destruir o mundo.

Um clichê como este – o vilão 100% mau, contra os heróis que precisam trabalhar juntos para salvarem a Terra – já deveria estar superado a esta altura, mas ainda é o motor de 10 em cada 10 filmes de super-heróis. O mais decepcionante é que “Quarteto Fantástico” poderia ter sido diferente.

A primeira hora do filme é, afinal, bastante autêntica: conhecemos a infância de Reed (Teller) e Ben (Bell), descobrimos como uma experiência com teletransporte leva a uma dimensão paralela, ouvimos falar de física quântica, buracos negros e outras teorias da moda. Enfim, acompanhamos o trabalho de um grupo de cientistas, mergulhamos no seu sonho e vibramos com eles quando finalmente conseguem realizá-lo.

E é então que tudo desmorona. A ficção científica dá lugar ao filme de super-herói, com todos os seus clichês: os amigos que precisam se reconciliar, o governo que explora heróis como armas de guerra, o vilão que pode matar com um único olhar, mas cuja luta final se revela muito mais fácil do que deveria. E, é claro, a mocinha em perigo (que, para piorar, é excluída da ação mais interessante do filme sem nenhum motivo aparente).

O novo “Quarteto Fantástico”, cujo custo é estimado em US$ 120 milhões, não tem apenas a missão de iniciar uma possível franquia, mas também precisa provar que é superior ao filme de 2005 – o que, em muitos aspectos, não é.

Menos ambicioso, aquele Quarteto se apoiava mais no humor e nos conflitos amorosos de seus personagens do que na ciência em si, construindo uma aventura que, apesar de simplista, se sustentava do início ao fim. Já este, empenhado em criar uma nova história e agradar aos fãs mais intelectuais, acaba se perdendo na ação, escorregando para um encerramento ruim que prejudica todo o produto.

No fim, é provável que o Sr. Fantástico, a Mulher Invisível, o Tocha Humana e o Coisa voltem à obscuridade mais uma vez, e tenham que esperar mais dez anos por uma nova chance.

Texto publicado no Guia da Semana em 03/08/2015.

Crítica: “Poltergeist – O Fenômeno” atualiza clássico dos anos 80

Às vezes, tudo o que os fãs esperam de um remake é que ele seja fiel ao original. No caso de “Poltergeist – O Fenômeno”, o diretor Gil Kenan (“A Casa Monstro”) segue essa regra à risca e recria todos os momentos clássicos, mas também se empenha em atualizar o terror para uma plateia muito mais acostumada a filmes com espíritos e criancinhas mediúnicas do que há 30 anos.

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Para quem não conhece o filme de 1982, escrito por Steven Spielberg, tudo começa quando uma família com três filhos se muda para uma nova casa. Lá, um grupo de espíritos agressivos (um Poltergeist, como chama o especialista) começa a mover objetos e fazer barulhos e, eventualmente, sequestra a criança mais nova, usando a eletricidade da casa para se comunicar (por exemplo, pela televisão).

Na nova versão, que chega aos cinemas nesta quinta (21 de maio), Sam Rockwell e Rosemarie Dewitt são os pais, enquanto Saxon Sharbino, Kyle Catlett e Kennedi Clements interpretam os filhos. Já Jared Harris vive um caçador de fantasmas que vem para socorrer a família, mais ou menos no papel que antes pertencera a Zelda Rubinstein.

A trama se mantém idêntica, com pequenas diferenças, mas a intensidade dos sustos é exponencialmente maior. No lugar da criatura esquisita que saíra do armário nos anos 80, Kenan nos oferece uma centena de corpos putrefatos, cobrindo as paredes e o chão de seu universo paralelo. A mão que sai da TV no original se transforma, aqui, num conjunto de palmas aparecendo do outro lado da tela e o palhaço que aterroriza o filho, no remake, ganha a companhia de vários outros. Por outro lado, algumas cenas icônicas ganham referências bem mais modestas, como a dos esqueletos no jardim.

Para novas audiências, o longa promete suprir a expectativa de sustos e arrepiar com sequências muito bem feitas, sem desperdiçar o roteiro de Spielberg. Para os mais nostálgicos, porém, o filme pode parecer apressado e menos sofisticado que o original. De qualquer forma, o medo é garantido.

Texto publicado no Guia da Semana em 20/05/2015.

Crítica: “Mad Max: Estrada da Fúria” eleva a trilogia original a um novo nível de loucura e ação

Estreia nesta quinta-feira o remake-sequência do clássico de 1979, “Mad MaxCom todo o barulho, velocidade e fúria que o título promete, “Mad Max: Estrada da Fúria” mantém George Miller na direção, retoma o protagonista com algumas variações e cria um universo pós-apocalíptico que homenageia e expande o original. O que chega às telas, contrariando todas as expectativas que se poderia ter sobre um reboot, é provavelmente o melhor longa de ação que os fãs já viram em muitos anos.

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Melhor, não por ser mais sofisticado, mas justamente o oposto: a trama é simples, porém convincente, e os efeitos, apesar de grandiosos, não substituem o papel da maquiagem e dos objetos de cena – concretos, sujos e pesados. O público é transportado ao mesmo tempo para o futuro e para o passado, àquele auge dos anos 80 quando jogar uma guitarra no público era sinônimo de atitude, não de mau gosto.

Max, antes interpretado por um quase principiante Mel Gibson (nos seus vinte-e-poucos anos), agora é vivido pelo multifacetado e consideravelmente mais experiente Tom Hardy (já nos trinta-e-tantos). Não que ele precise colocar em prática muito mais do que sua voz cavernosa: apesar do título, o show é de Charlize Theron – de cabelo raspado, braço decepado e a coragem de quem não tem mais nada a perder (exatamente como Max).

O filme se passa após uma guerra nuclear que transformou a Austrália (se não o mundo) num deserto quase inabitável. Agora, as poucas comunidades primitivas que restaram lutam por água e combustível. Nesse contexto, o ex-policial Max viaja sozinho, remoendo fantasmas, quando é capturado pelos capangas de Immortan Joe (interpretado, numa grande piscadela aos fãs, pelo mesmo ator que viveu o vilão no primeiro Mad Max, Hugh Keays-Byrne).

Joe tem um jeito curioso de governar: do alto de um jardim suspenso, mantém um harém de esposas cuja única função é gerar futuros “senhores da guerra”, a quem alimenta com o leite de gordas amas-secas. Seus demais guerreiros são, na maioria, jovens anêmicos e mutilados que sonham com a glória no mundo mítico de Valhala e que, por isso, não pensam duas vezes antes de se sacrificar. Para completar, de tempos em tempos, Joe libera um pouco de água para os civis, mantendo-os sempre fracos, esperançosos e submissos.

Furiosa (Theron) é sua imperatriz. No dia em que Max é preso, ela sequestra um caminhão e foge pelo deserto com todas as esposas, engatando uma corrida que se estenderá, literalmente, até o final do filme. No caminho, elas unem forças com o prisioneiro e, eventualmente, com um dos garotos de Joe: Nux (Nicholas Hoult, talvez o mais surpreendente em cena). É ele que brada o hino desse circo de loucos: “Oh what a day! What a lovely day!” (Oh que dia! Que dia adorável!).

Seja para fãs nostálgicos ou novos entusiastas, “Mad Max: Estrada da Fúria” tem tudo para ser um clássico instantâneo. A jornada é envolvente, os protagonistas têm motivações consistentes, os coadjuvantes são suficientemente interessantes para que nos importemos com eles (mesmo sem saber quase nada sobre seus passados) e o vilão é realmente perigoso. Em torno desses personagens, desenha-se um futuro hostil e insano, com criaturas tão bizarras quanto a consciência de Max – um homem louco num mundo que enlouqueceu.

Texto publicado no Guia da Semana em 12/05/2015.

Leonardo DiCaprio é o ponto alto de O Grande Gatsby

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Esqueça a moda, a música, a direção de arte. Se há um bom motivo para assistir a  O Grande Gatsby, do diretor Baz Luhrmann, é para ver o ex-garoto-prodígio de Hollywood, Leonardo DiCaprio, em uma das grandes atuações de sua carreira.

Luhrmann tem sido muito questionado por sua megalomania: foi ele quem criou o operesco Moulin Rouge e o longuíssimo Australia, além da adaptação adolescente de Romeu e Julieta com DiCaprio em 1996. Em O Grande Gatsby, porém, nem mesmo a excentricidade do diretor consegue ofuscar o drama pessoal do personagem vivido por DiCaprio, Jay Gatsby: o homem que sobe aos céus e às estrelas só para reconquistar um amor do passado e que despenca tão vertiginosamente quanto ascendeu.

A trajetória é narrada por Nick Carraway (Tobey Maguire), um eterno observador: como os olhos que estampam um outdoor na estrada por onde passam os personagens, Nick nunca chega a ser um protagonista – essa não é a sua história. Ele observa, sofre, ajuda, guarda segredos e só os reconta anos depois, no livro que escreve como terapia. Ele é primo de Daisy (Carey Mulligan), uma garota rica de Nova York que se casou por conveniência com o infiel Tom Buchanan (Joel Edgerton) e que é capaz de usar vestidos de festa em plena luz do dia, apenas pela diversão.

Nick também é vizinho de Gatsby (DiCaprio), um misterioso ricaço que organiza festas gigantescas em sua mansão, cujo rosto e o passado quase ninguém conhece. Gatsby é refinado e poderoso, mas também solitário como o próprio Nick. É perto de Daisy que ele se transforma, revelando uma criatura frágil e assustada, quase infantil. Não é só Daisy que ele ama: é o sonho de futuro que ela um dia representou, e que hoje parece tão próximo. Seu amor tange a obsessão, mas transborda ingenuidade. É triste testemunhá-lo.

Mesmo quando o filme ameaça cair num thriller tedioso de perseguição ou assassinato, DiCaprio segura a onda e lembra o espectador de que Gatsby é o centro do drama – não o adultério de Daisy nem o crime. Luhrmann, consciente disso, usa a direção para emoldurar o sonho trágico do herói: o festival de cores vivas, ângulos vertiginosos e cortes descontínuos só fazem reforçar o deslocamento de Gatsby e do próprio narrador diante de uma sociedade apoiada em aparências.

A trilha sonora tem seus pontos fortes nas batidas de black e em interpretações melancólicas como a Back to Black de Beyoncé. O resultado é um clima de rebeldia que quase destoa da elegância de Gatsby e Daisy, mas que faz sentido no conjunto concebido por Luhrmann. Um conjunto que respeita a obra original, mas que carrega um brilho próprio: seja na beleza incontestável da direção, seja no talento de Leonardo. O resto é luxo.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.