“Todo Dia”: adolescente é condenado a viver as vidas dos outros em curioso romance fantástico

Ideias criativas podem ser terrivelmente difíceis de realizar, mas, pelo menos, sempre vão soar mais interessantes do que qualquer clichê bem feito. É esse o caso do longa “Todo Dia”, que troca o padrão “menino-conhece-menina” por algo como “menino-que-também-pode-ser-menina-mas-na-verdade-não-é-nem-gente-conhece-menina”. Continuar lendo ““Todo Dia”: adolescente é condenado a viver as vidas dos outros em curioso romance fantástico”

Crítica: romântico e bem humorado, “De Onde Eu Te Vejo” explora as relações entre espaços e memórias

Ana e Fábio estão casados há vinte anos e decidem se separar. Os dois ainda são amigos e ela, inclusive, ajuda a organizar o apartamento para onde ele se muda. O problema é que ele fica, literalmente, em frente ao seu.

De Onde Eu Te Vejo” é um filme diferente, como se percebe quando seus protagonistas começam a gritar pelas janelas. Dirigido por Luiz Villaça, o longa flerta com a comédia, o romance e o drama, mas não se encontra em nenhuma das categorias. Se for para rotular, sugere o diretor, então que seja “comédia sentimental”. Que seja.

Comédia ou não, o fato é que o filme toca em muitas notas emocionais, especialmente para o público paulistano. Ao contrário de outros títulos que tentaram exaltar a cidade, este não se esforça demais para captar estereótipos e cartões-postais, mas mostra a São Paulo de quem vive sua arquitetura: no lugar do MASP, a Praça do Ciclista; no lugar do Teatro Municipal, o Marabá.

Denise Fraga e Domingos Montagner interpretam o casal em crise, com um misto bem dosado de humor e seriedade. Entre suas enormes janelas de Higienópolis, eles trocam farpas, guardam segredos, provocam ciúmes e compartilham a dor pela partida da filha, que vai estudar em Botucatu.

É Ana (Fraga) quem narra a história, conversando às vezes diretamente com o público e invocando memórias conforme lhe convém. A memória, aliás, é algo tão importante no filme que percorre todos os elementos – o casamento, a cidade, os cinemas de rua, uma cantina italiana. A destruição e a construção do novo são mostrados como forças inevitáveis, mas, ao mesmo tempo, os personagens lutam para resgatar sua história, sempre conectada com lugares específicos.

É interessante notar que os protagonistas são, na verdade, estrangeiros: Ana veio do Rio para ser arquiteta, enquanto Fábio (Montagner) veio de Ribeirão Preto para ser jornalista. Ele ainda trabalha num jornal tradicional no centro da cidade, mas ela abandonou o sonho e agora negocia com casas tradicionais para que sejam demolidas e deem lugar a prédios. Que ironia, não?

Um dos pontos fortes do longa de Villaça é que tudo tem uma função narrativa. Se Ana vive uma frustração profissional, é porque isso muda sua relação com a cidade e, consequentemente, com o próprio casamento. No caso de Fábio, a escolha pelo jornalismo impresso também não é arbitrária: a profissão vive uma crise que dialoga de perto com os temas do filme: tempo, transformação, adaptação.

Três outros personagens ajudam a dar leveza à história e prometem competir pelo posto de queridinhos do público. Marisa Orth está impagável como a jornalista Olga, paulista clássica que ama e odeia seu trabalho; Manoela Aliperti (que já provara sua química com Fraga na série “Três Teresas”, da GNT) rouba a cena no papel de Manu, a filha-conselheira de Ana e Fábio; e Marcello Airoldi interpreta o inesquecível pretendente de Ana, mistura de romântico e perseguidor levemente desequilibrado.

Outro ponto alto é o roteiro, assinado por Leonardo Moreira e Rafael Gomes. Graças à dupla, a narração nunca soa excessiva e algumas passagens tendem a ficar na memória por muito tempo – desafio o leitor, por exemplo, a não pensar na “trilha sonora do mundo” quando pisar fora do cinema.

Tudo isso, embalado por uma trilha executada no violão (outro elemento que remete à memória), faz com que “De Onde Eu Te Vejo” seja uma das melhores surpresas do cinema nacional recente. Romântico e engraçado, o filme se distancia das comédias românticas “água-com-açúcar” por não fazer escolhas óbvias e trabalhar seus personagens com densidade. É impossível não se identificar e é ainda mais difícil não sair apaixonado.

Texto publicado inicialmente no site Guia da Semana.

Crítica: “Orgulho e Preconceito e Zumbis” une a graça de Jane Austen com a agilidade de um filme de ação

Nunca pensei que diria isso, mas “Orgulho e Preconceito e Zumbis” é um filme adorável. Adaptação do livro homônimo de Seth Grahame-Smith, que, por sua vez, reimagina o clássico “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen, o longa consegue equilibrar a fidelidade ao original (de Austen) com as implicações de um novo contexto – no caso, um que envolve uma epidemia incontrolável de zumbis.

Antes de assistir ao filme, trocadilhos à parte, recomendo deixar seus preconceitos de lado. Este é, sem dúvida, um filme com zumbis. Mas não é um filme de zumbis. A história, aqui, não gira em torno dos mortos-vivos, nem da busca pela cura, nem da luta pela sobrevivência, mas sim em torno da relação de amor e ódio entre Elizabeth Bennet (Lily James) e um dos personagens mais queridos da literatura britânica, Mr. Darcy (Sam Riley).

Representar Darcy foi um desafio para Riley (que também vivera o corvo em “Malévola”), afinal, o personagem já havia sido imortalizado nos cinemas em 1995 com a interpretação de Colin Firth – e até o ator admite ser fã dessa versão. Quem desconfiava do novo intérprete, porém, pode ficar tranquilo: seu Darcy é bem diferente, mas tão cativante quanto aquele, com um quê de bad-boy-com-bom-coração que deve agradar às novas gerações.

O longa traz algumas novidades bastante divertidas: com o avanço dos zumbis, tornou-se comum que as famílias enviassem seus filhos para treinarem artes marciais no Japão (para os ricos) ou na China (para os sábios). No caso de Elizabeth e suas irmãs, todas treinaram na China e são exímias espadachins. A estética oriental é, por isso, incorporada na narrativa, com inserções de mapas e desenhos em papel para melhor explicar a guerra.

“Orgulho e Preconceito e Zumbis” aproveita a popularidade do feminismo e explora ao máximo as possibilidades que a história oferece para construir suas protagonistas. Numa sociedade apoiada em casamentos arranjados, Elizabeth discute porque não quer um marido (ou quer um que não a obrigue a escolher entre ele e sua espada), enquanto suas irmãs se divertem procurando rostinhos bonitos e ricos nas festas, mas também têm consciência de que estão muito mais seguras com suas próprias armas do que com as deles.

Tudo isso é apresentado sem afetação, como se aquelas fossem realmente as personagens de Jane Austen, encarnadas num outro universo. Há uma cena exagerada, envolvendo a personagem de Lena Headey (Lady Catherine, cuja função, no filme, não fica clara) e uma frase de efeito. “Não sei se admiro mais sua habilidade como lutadora ou sua determinação como mulher”, ela diz. Desnecessário, mas breve o suficiente para não marcar.

Outros discursos clássicos de Austen são aproveitados na íntegra no filme, o que torna as relações entre os personagens muito mais envolventes. O uso da linguagem formal também ajuda a reforçar a ambientação, bem como o figurino, que busca mobilidade entre tecidos pesados e elegantes, especialmente para as meninas.

“As saias atrapalharam um pouco nas cenas de luta, mas o figurino ajudou a nos lembrar da postura, muito importante nas artes marciais”, explicou Bella Heathcote (que vive Jane, uma das irmãs de Elizabeth), em coletiva à imprensa brasileira. Lily concordou e completou, orgulhosa: “Não é comum que as mulheres tenham mais cenas de ação que os homens, por isso quisemos treinar forte e fazer justiça a isso”.

As duas tiveram três meses de treinamento, antes de terminarem a preparação junto com as outras atrizes. O resultado faz, sim, justiça. “Orgulho e Preconceito e Zumbis” estreia nos cinemas no dia 25 de fevereiro e merece uma chance.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Brooklin” reconstrói o clichê da “garota do interior” com personagem mais humana

Todos os anos, a Academia surpreende o público com a indicação de um título pouco conhecido entre os concorrentes a Melhor Filme. Em 2015, foi “Selma”; em 2014, “Philomena”. Este ano, o “patinho feio” é “Brooklin”, indicado também a Melhor Atriz e Roteiro Adaptado.

“Brooklin”, adaptação do romance homônimo de Colm Tóibín, é um bom filme, mas falta-lhe ambição. A história da garota irlandesa que se muda para os Estados Unidos e volta, só para perceber que sua cidadezinha ficou pequena demais para ela, é envolvente, mas não chega a surpreender.

Saoirse Ronan carrega o filme com seus olhos expressivos e uma simpatia natural (não há dúvida de que veremos muito mais da atriz nos próximos anos) e se revela uma forte concorrente à estatueta dourada (muito mais versátil do que a favorita Brie Larson). É fácil gostar de sua personagem, Eilis, e ela tem um realismo que faz com que acompanhemos sua jornada como se a conhecêssemos bem.

A evolução de Eilis não é muito diferente da de qualquer protagonista que sai do interior para se aventurar na cidade grande, mas há uma distinção essencial: seu conflito é interno, não externo. Não há um inimigo que se aproveita de sua ingenuidade provinciana, nem um homem que a ilude ou aprisiona – pelo contrário, ela sabe o que quer e, se surge uma dúvida em algum momento, é porque ela precisa escolher uma vida, uma carreira e um país que se encaixem melhor em suas ambições. Cabe a ela, não a algum salvador, decidir seu futuro.

Se a construção da protagonista é um ponto positivo em “Brooklin”, incomoda a visão estereotipada com a qual os Estados Unidos são retratados, com direito à mais do que gasta imagem da “porta luminosa” para mostrá-lo como o país das oportunidades. Felizmente, os clichês se limitam a maiôs de pin-up e óculos de gatinhos, sem a necessidade de bandeiras flamulantes pelos cantos.

Os personagens coadjuvantes ajudam a tornar o filme mais divertido para o público, da rabugenta Miss Kelly (Brid Brennan) ao pequeno e desbocado Frankie (James DiGiacomo), passando pela espontânea dona da pensão Mrs. Keogh (Julie Walters), que ganhará uma série própria na BBC. “Brooklin” estreia nos cinemas brasileiros no dia 11 de fevereiro e é uma boa opção para quem procura um filme otimista, romântico e inteligente, sem ser pretensioso.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: Alicia Vikander e Eddie Redmayne entregam performances inesquecíveis em “A Garota Dinamarquesa”

Eddie Redmayne mal teve tempo de curtir seu primeiro Oscar, que ganhou pelo papel do físico Stephen Hawking em 2015, e já mergulhou num projeto igualmente desafiador. Em “A Garota Dinamarquesa”, o ator britânico vive o primeiro transgênero a realizar a cirurgia de redesignação de sexo, na Europa dos anos 20.

Apesar de ter tudo para ser mais um filme convencional sobre superação e luta contra preconceitos, o longa de Tom Hooper (“Os Miseráveis”) segue por um caminho bastante original: seu foco não é a sociedade, mas sim a vida íntima de Einar/Lili (Redmayne) e sua esposa Gerda (Alicia Vikander).

Hooper constrói duas histórias paralelas de emancipação: de um lado, Lili desabrocha de dentro para fora de Einar, afastando-o do trabalho de pintor que o definia perante os outros homens; enquanto, do outro, Gerda se encontra como artista e se liberta, mesmo que contra sua vontade, da dependência emocional do marido. O equilíbrio entre os dois, mantido com muito esforço, é o que move este filme.

Vikander foi uma das atrizes mais requisitadas de 2015 (ela está também em “Ex Machina”, “O Agente da U.N.C.L.E. e “Pegando Fogo”) e sua presença, de fato, faz a diferença em “A Garota Dinamarquesa”. Gerda é forte o suficiente para não perder o próprio rumo durante a transformação do marido e sensível o suficiente para compreendê-lo, levantando ao público questões importantes sobre o sentido do casamento e os limites entre amor, amizade e desejo.

“A Garota Dinamarquesa” foi indicado a quatro Oscars – além de Melhor Ator e Melhor Atriz Coadjuvante (indicação injusta, considerando que o filme segue o ponto de vista de Gerda), também Design de Produção e Figurino. Esta última indicação faz todo o sentido, já que os tecidos têm um papel essencial na narrativa: das meias aos lenços, são eles que despertam em Lili o desejo pelo feminino. Vesti-los começa como uma brincadeira, evolui para um ato erótico e, em pouco tempo, torna-se uma necessidade.

Com atuações belíssimas e uma cenografia que parece saída de um dos quadros de Einar, o filme envolve e surpreende, chegando muito perto de ser uma obra perfeita. Quinze minutos, entretanto, podem mudar tudo quando se trata de cinema. Após fechado o arco de Gerda, Hooper insiste em acompanhar Lili num epílogo sombrio e prolongado, que simplesmente não se encaixa no restante. Ao ganhar uma última virada, o poder transformador do filme se esvai, como num trágico toque de mágica, para o buraco negro dos dramas previsíveis. Foi por muito pouco.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Carol” traz às telas um romance natalino com “algo a mais”

Um dos primeiros grandes filmes do ano chega aos cinemas no dia 14 de janeiro para engrossar a corrida pelo Oscar 2016. “Carol”, de Todd Haynes, tem tudo para agradar a quem procura um romance água-com-açúcar (com um “twist”), mas também carrega uma discussão densa e extremamente relevante para o momento atual.

“Carol” é um romance natalino e, como tal, mostra uma história de amor leve (ao menos, num primeiro olhar) e apaixonante, na Nova York dos anos 50. Cate Blanchett não decepciona e, mais uma vez, está impecável no papel de uma mulher madura e incontrolável. Já Rooney Mara não chega a surpreender, mas encaixa bem no papel silencioso e observador em que a colocaram. O figurino e a trilha sonora, banhados a cinquentismos, são uma experiência à parte e se responsabilizam pelo sucesso do filme tanto quanto o roteiro ou a direção.

Blanchett é Carol, uma mulher rica que está passando por um processo de divórcio e tem uma filha pequena. Já Mara é Therese, uma jovem vendedora que vive numa espécie de inércia – insegura, ela segue seus amigos e pretendentes, sem saber realmente o que quer. Na primeira vez em que elas se encontram, Carol está procurando um presente de Natal para a filha e, por sugestão de Therese, encomenda um trenzinho, ao invés da boneca da moda. Este é o primeiro ato de subversão que as duas compartilham.

O romance que se desenvolve é construído aos poucos, entre olhares sugestivos, diálogos ambíguos e, finalmente, uma viagem decisiva. Não é por acaso que a cumplicidade é a primeira relação que elas estabelecem, ambas fugitivas de uma sociedade machista e homofóbica da qual não se sentem parte.

A história acompanha principalmente a luta de Carol, que, sendo ainda oficialmente casada (o que, para seu marido, significa que ela “é responsabilidade dele”), não consegue se libertar para viver um novo relacionamento – e o fato de sua nova parceira ser uma mulher só piora as coisas.

Se a situação parece absurda nos dias de hoje, é porque muito já foi conquistado, mas é importante lembrar que, não mais que algumas décadas atrás, metade da população se considerava genuinamente superior à outra metade – inclusive, dona dela. No filme, por exemplo, há uma cena em que uma personagem acusa Harge (Kyle Chandler), marido de Carol, de isolar a esposa, afastando-a de seus interesses e obrigando-a a cultivar apenas as suas amizades, o seu emprego e a sua família. Qualquer semelhança com a realidade, infelizmente, não é coincidência. Mas a opressão aparece também nos pequenos gestos, como num diálogo em que Harge se refere a uma amiga do casal como “a esposa de fulano”, ao invés de dizer seu nome. Soa familiar?

O que faz a diferença neste drama é o fato de suas protagonistas não se deixarem abalar. Em nenhum momento, elas aceitam o rótulo de “indefesas” ou de “loucas”, mesmo que, às vezes, sejam obrigadas a ceder em algum ponto. O amor entre elas, aqui, é tanto uma afirmação de identidade e independência quanto uma relação romântica. Ainda assim, surpreendentemente, o filme consegue ser doce, como uma canção de Natal*.

*Em inglês, “carol” é a palavra usada para designar canções natalinas.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “À Beira-Mar” não é um filme romântico, mas é um filme sincero sobre amor

À Beira-Mar” não é um filme fácil. O terceiro longa-metragem dirigido por Angelina Jolie (e o segundo escrito por ela) é seu projeto mais pessoal até agora, mas também o mais maduro. Na tela, ela e o marido, Brad Pitt, se insultam, se machucam e se compreendem apesar de tudo, sob um cenário que oscila entre a paz silenciosa e a sensualidade latente.

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O filme se passa nos anos 70 e tem como protagonistas Roland (Pitt) e Vanessa (Jolie), um casal junto há 14 anos que decide passar uma temporada num hotel isolado numa praia francesa. Ele busca inspiração para seu novo livro, mas não consegue completar uma linha, falha que a companheira não hesita em apontar.

Os dois formam um quadro estranho: nunca estão juntos e, quando estão, tudo o que fazem é hostilizar um ao outro. Ela, aliás, não é uma personagem fácil de gostar: logo na primeira cena, insiste em andar sobre a areia de salto alto e reclama do cheiro dos peixes. Mas o filme, inteligente e paciente, nos obriga a observar por mais tempo do que seria confortável e, finalmente, a compreender essa personagem como Roland.

Num certo momento, o marido descreve os dois como o casal perfeito de Nova York: “eu era um escritor e ela, tinha um corpo incrível”. A depreciação de Vanessa não é acidental e ajuda a compor o contexto psicológico da personagem, necessário para entender suas reações. Estes são os anos 70 e ela cresceu acreditando no casamento como um dos objetivos finais na vida de uma mulher. Por isso, quando questionada sobre sua profissão, define-se como “esposa” e resigna-se a passar dias inteiros ociosa dentro do quarto do hotel.

Se, no início, enxergamos os dois como um casal cansado um do outro, aos poucos percebemos que há uma ferida mais profunda afastando os dois. O comportamento dela, que repele ao mesmo tempo a ele e a si mesma, se aproxima mais de uma depressão do que da simples arrogância que ela se esforça em aparentar.

A montagem, que em alguns momentos sobrepõe diálogos a imagens fugidias, ajuda a expressar visualmente a relação entre os dois: as palavras de Roland parecem não atingir Vanessa, cada vez mais imersa no ódio a si mesma. A trilha sonora, composta por Gabriel Yared (que já trabalhara com a diretora em “Na Terra de Amor e Ódio”), também participa da narrativa, inserindo um tom melancólico e quase conformado ao drama – o que combina com a tranquilidade do mar e com a proposta geral do filme. “É preciso nadar de acordo com as ondas”, lembra Roland.

Além de Jolie e Pitt, o longa também traz Niels Arestrup como o dono do restaurante e Mélanie Laurent e Melvil Poupaud como os recém-casados que ocupam o quarto vizinho aos protagonistas – um casal jovem, feliz, amigável e incansável na cama, que traz à tona todas as feridas do casal veterano.

“À Beira-Mar” não é um filme romântico, mas é um filme sobre amor. Um filme lento, fique avisado, mas ainda assim intenso, sobre a realidade bruta da vida a dois. A estreia está marcada para o dia 3 de dezembro nos cinemas.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Gemma Bovery” cria humor inteligente inspirado em romance francês

“Uma mulher banal que se entedia com uma vida banal não é banal”, protesta o protagonista de “Gemma Bovery”, buscando alguma faísca de excepcionalidade em sua monótona vida real. Estaria ele falando da personagem de Gustave Flaubert, Emma Bovary, ou de sua nova vizinha inglesa?

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O novo filme de Anne Fontaine, diretora do memorável “Coco Antes de Chanel”, é uma comédia para quem ama literatura e, como o padeiro Martin (interpretado pelo sempre adorável Fabrice Luchini), também vive procurando semelhanças entre a realidade e seus mundos imaginários – mesmo que isso signifique, às vezes, dar um empurrãozinho na direção certa.

Martin é um parisiense que se mudou com a família para a Normandia (precisamente onde Flaubert escreveu “Bovary”) buscando tranquilidade, mas não encontrou nada parecido com isso. Como ele mesmo descreve, aquele é um lugar onde as pessoas tendem a se suicidar… Ou tomar Calca (uma bebida bem forte). Ou, quem sabe, se envolver nas vidas dos outros.

Quando os novos vizinhos, Gemma (Gemma Arterton) e Charlie (Jason Flemyng) Bovery, chegam para morar na casa ao lado, Martin imagina se a vida da garota não seria parecida com a da personagem da ficção. Logo, a sensualidade da moça e seus instáveis relacionamentos amorosos começam a confirmar sua teoria – despertando o receio de que seu final também seja o mesmo.

O filme instiga a curiosidade e levanta o tempo todo uma desconfiança: será que a vida de Gemma remete à de Emma porque Martin a vê assim, porque ele a influencia para ser assim, ou por alguma semelhança natural e misteriosa? Vale lembrar que Gemma também está lendo o romance enquanto sua história acontece e pode estar sendo impactada por ele.

Reforça essa dúvida o fato de que a história é narrada por um misto de dois pontos de vista igualmente tendenciosos: o de Martin, que faz o papel de narrador, e o de Gemma, cujo diário ele lê. É interessante notar que Luchini revisita aqui uma situação de voyeur semelhante à que vivera no drama “Dentro da Casa”, de François Ozon, mas, desta vez, é ele quem invade a intimidade do outro.

“Gemma Bovery” é mais uma homenagem do que uma adaptação e, ao mesmo tempo em que transporta o espectador para aquele universo literário de Flaubert, também se empenha em quebrar essa ilusão, criando uma ambiguidade que prende a atenção do início ao fim. Uma dica infalível para amantes de livros que procuram um humor inteligente para o fim de semana.

Texto publicado no Guia da Semana em 24/07/2015.

Crítica: Blake Lively vive uma idosa num corpo de menina em “A Incrível História de Adaline”

A fantasia é um terreno complicado da ficção. Ao mesmo tempo em que um autor pode brincar com todas as (im)possibilidades do mundo e distorcer quaisquer leis da física que deseje, ele precisa fazê-lo de forma convincente para seu público e sua história. No caso de “A Incrível História de Adaline”, um delicado romance mágico sobre uma mulher que não envelhece, o mesmo toque fantástico que dá origem à aventura, quando mal dosado, é o que acaba por quebrar seu encanto.

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Blake Lively (da série Gossip Girl) comanda o longa com firmeza na pele de Adaline Bowman, ou Jenny, ou Amanda. Presa nos 29 desde um acidente de carro nos anos 20, ela desenvolve o hábito de trocar de identidade e endereço a cada década, para fugir de autoridades que possam querer estudá-la ou prendê-la, duvidando de seus documentos.

Desde o início, vários elementos curiosos são associados ao nascimento de Adaline, fazendo dela alguém “especial”. Ela foi, por exemplo, a primeira criança nascida no século, às 00h01 do dia 1º de janeiro de 1901 (data que entra em contradição mais à frente por um descuido do roteiro).

Só isso já bastaria para justificar a situação excepcional da personagem, mas, por alguma razão, os roteiristas vão além e criam diversas condições extremamente específicas para explicar a anomalia de forma mais “científica. Acontece uma neve fora de época, um raio e até um cometa. Com tantas coincidências desnecessárias, a magia se perde e o espectador deixa de acreditar na história antes mesmo de ela começar.

Se aceitarmos a questão fantástica, porém, a trama que se desenvolve no presente é um romance bastante simpático com o jovem Ellis (Michiel Huisman) – muito culto, pois é preciso ter bagagem para surpreender uma centenária. Mescla-se a ele um drama interessante sobre uma mulher cujos únicos amigos são um cão, uma cega e uma filha que se apresenta aos outros como sua avó (Ellen Burstyn).

Não há nada tão surpreendente no enredo, nem mesmo o fato de que o pai de Ellis (Harrison Ford) é um antigo namorado de Adaline. O público sabe que, em algum momento, alguém iria reconhecer a protagonista e forçá-la a se revelar, mas isso não chega a prejudicar a experiência. Afinal, quantas comédias românticas de sucesso não tiveram desfechos totalmente previsíveis?

Para quem acompanhava a série de TV “Forever” (recém-cancelada na Warner), “A Incrível História de Adaline” pode soar incomodamente familiar, tocando nas mesmas teclas do “filho” idoso e da erudição absoluta (associada a uma memória excepcional para datas e rostos). A verdade, contudo, é que nenhuma das duas obras conseguiu acertar o ponto exato do que significaria, para um ser humano, não ter que se preocupar com a morte ou com a velhice.

O longa, por essas razões, não funciona tão bem como ficção científica nem como discussão filosófica, mas nem por isso deixa de ter sua graça. Pelo contrário, Lively e o diretor Lee Toland Krieger garantem um filme romântico e divertido, gostoso para assistir a dois ou sozinho, numa tarde chuvosa.

Texto publicado no Guia da Semana em 14/05/2015.

“Ponte Aérea” explora romance descomplicado entre carioca e paulistana

Num momento em que o cinema nacional vem se expandindo e abraçando novos gêneros, Julia Rezende apresenta seu singelo romance do cotidiano, “Ponte Aérea”. Focado numa classe média Rio-São Paulo, o filme aposta numa linguagem natural, sem excessos ou afetações, emoldurada por uma fotografia limpa e delicada.

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Bruno e Amanda, interpretados por Caio Blat e Letícia Colin, são como uma versão moderna de Eduardo e Mônica: ele é carioca; ela, paulistana. Ele dá dois beijinhos; ela vai de calabresa sem queijo. Ele vive de chinelo; ela de salto alto. Os dois são criativos, pois é preciso que tenham algo em comum – mas ele faz sua arte no quintal; ela, no escritório.

A dupla se conhece durante um desvio de rota de um avião que vem do Rio para São Paulo. Obrigados a passar a noite num hotel, eles tomam uma cerveja juntos e vão para a cama – sem compromisso. Depois, acabam se encontrando novamente em São Paulo e, depois, no Rio, até engatarem num namoro à distância cheio de idas e vindas.

O filme capta a relação dessa geração de vinte e tantos anos com o sexo com um olhar fresco e sem drama: há o do primeiro encontro, há o casual entre amigos, há o sem sentimento e o com sentimento. A diretora só mostra algo mais agressivo numa única cena, que não chega a pesar mais do que o necessário e tem uma função importante na construção emocional de um dos personagens.

O longa segue uma fórmula de comédias românticas, mesmo sem investir na comédia: o casal se conhece, tem um primeiro envolvimento, depois se afasta, se aproxima novamente, vive uma fase feliz, eventualmente se separa e passa por diversos desentendimentos até resolver ficar junto de vez – ou não.

As histórias paralelas ajudam a conduzir o romance entre Bruno e Amanda. Enquanto ele lida com o pai internado e um meio-irmão recém conhecido, que de repente o vê como figura paterna, ela se esforça para provar ao chefe que mereceu sua promoção, criando uma campanha publicitária que fuja do lugar comum.

O filme falha um pouco no ritmo, especialmente nos diálogos, mas acerta na dosagem de “piadas internas” e deve agradar a uma variedade grande de espectadores. Paulistanos e cariocas com certeza vão se divertir com as pequenas rixas entre os dois estilos de vida, publicitários vão se enxergar em algumas referências e jovens em início de carreira, em geral, encontrarão algo para se identificar com esses dois protagonistas.

“Ponte Aérea” estreia nos cinemas no dia 26 de março.

Texto publicado no Guia da Semana em 15/03/2015.