Una (Benedict Andrews, 2016)

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Já faz mais de 60 anos que Vladimir Nabokov publicou seu livro mais famoso e mais de 50 que Stanley Kubrick o transformou numa das obras mais polêmicas da história do cinema. “Lolita”. A infame história de amor entre um homem adulto e uma menina adolescente. Sedutora, culpada, ninfeta. Saltamos, então, para 2017 e para o burburinho na saída da sessão de um filme chamado “Una”, com Rooney Mara e Ben Mendelsohn… E é como se tempo nenhum tivesse passado.

Una” tem seus problemas e eles são numerosos, mas as expressões de repulsa nada tinham a ver com isso. Como “Elle”, que às vésperas do Oscar causara alvoroço ao arriscar uma perspectiva mais “acinzentada” sobre um estupro, “Una” também tenta humanizar um tema inaceitável: o abuso de uma menor.

O filme, baseado numa peça chamada “Blackbird”, de David Harrower, traz Mara no papel do título. Ela é uma mulher que, 15 anos depois de ser estuprada pelo vizinho e passar por um processo judicial que o levou à cadeia por apenas quatro anos, decide confrontá-lo em seu local de trabalho e descobre que ele mudou de nome, apagou seu passado e vive sem precisar lidar com as consequências de seu crime.

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Isso, porém, é o que a consciência do público traz para o filme e não o que, de fato, se desenha na tela. O que vemos é um casal apaixonado e ingênuo que, diante da intervenção educadora da sociedade, percebe que seu relacionamento foi um erro e desenvolve um ódio mútuo que, eventualmente, se transfigura de volta à forma de atração. É, em outras palavras, um romance proibido entre uma menina de 13 e um homem de, sabe-se lá, 30 e poucos.

Mas acalmem-se. Ao que tudo indica, isso era para ser apenas uma superfície permeada por uma intenção muito mais questionadora. Uma tragédia, talvez, sobre a menina que nunca mais conseguiu se desprender de uma ilusão.

Infelizmente, essa intenção não transparece com clareza suficiente, talvez pela inexperiência do diretor Benedict Andrews. O texto, afinal, acerta ao narrar os eventos do passado sob a perspectiva questionável dos dois envolvidos (um, manipulador; a outra, iludida), mas Andrews toma a decisão errada ao colocar essas narrativas na forma de flashbacks, sem nada que as coloque em cheque além do desgosto da audiência. O resultado é que o filme pode se passar por apologético a um crime indefensável, mesmo que não seja.

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Outra carta desperdiçada no filme é o ator britânico Riz Ahmed (“Rogue One: Uma História Star Wars”), que parece existir apenas para cumprir uma função prática de roteiro. Intenso e carismático, ele assume o papel de um funcionário do ex-convicto que tem um contato breve com Una e acaba ajudando-a a se encontrar com ele novamente. Mas ele não tem uma história, não tem direito a uma reação (mesmo expressando desconfiança), não tem uma influência real nos personagens.

Sua função, como tantas outras coisas no filme, poderia ter sido muito mais relevante se a obra se prolongasse por mais 15 ou 20 minutos. Curta demais, ela deixa a sensação de estar inacabada e suas pontas soltas fazem com que o diretor pareça inseguro. O público, então, toma a liberdade de amarrá-las como preferir e isso, diante de um tema como este, pode ser, simplesmente, catastrófico.IFrame

Una” estreia nos cinemas no dia 13 de abril.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Crítica: “Carol” traz às telas um romance natalino com “algo a mais”

Um dos primeiros grandes filmes do ano chega aos cinemas no dia 14 de janeiro para engrossar a corrida pelo Oscar 2016. “Carol”, de Todd Haynes, tem tudo para agradar a quem procura um romance água-com-açúcar (com um “twist”), mas também carrega uma discussão densa e extremamente relevante para o momento atual.

“Carol” é um romance natalino e, como tal, mostra uma história de amor leve (ao menos, num primeiro olhar) e apaixonante, na Nova York dos anos 50. Cate Blanchett não decepciona e, mais uma vez, está impecável no papel de uma mulher madura e incontrolável. Já Rooney Mara não chega a surpreender, mas encaixa bem no papel silencioso e observador em que a colocaram. O figurino e a trilha sonora, banhados a cinquentismos, são uma experiência à parte e se responsabilizam pelo sucesso do filme tanto quanto o roteiro ou a direção.

Blanchett é Carol, uma mulher rica que está passando por um processo de divórcio e tem uma filha pequena. Já Mara é Therese, uma jovem vendedora que vive numa espécie de inércia – insegura, ela segue seus amigos e pretendentes, sem saber realmente o que quer. Na primeira vez em que elas se encontram, Carol está procurando um presente de Natal para a filha e, por sugestão de Therese, encomenda um trenzinho, ao invés da boneca da moda. Este é o primeiro ato de subversão que as duas compartilham.

O romance que se desenvolve é construído aos poucos, entre olhares sugestivos, diálogos ambíguos e, finalmente, uma viagem decisiva. Não é por acaso que a cumplicidade é a primeira relação que elas estabelecem, ambas fugitivas de uma sociedade machista e homofóbica da qual não se sentem parte.

A história acompanha principalmente a luta de Carol, que, sendo ainda oficialmente casada (o que, para seu marido, significa que ela “é responsabilidade dele”), não consegue se libertar para viver um novo relacionamento – e o fato de sua nova parceira ser uma mulher só piora as coisas.

Se a situação parece absurda nos dias de hoje, é porque muito já foi conquistado, mas é importante lembrar que, não mais que algumas décadas atrás, metade da população se considerava genuinamente superior à outra metade – inclusive, dona dela. No filme, por exemplo, há uma cena em que uma personagem acusa Harge (Kyle Chandler), marido de Carol, de isolar a esposa, afastando-a de seus interesses e obrigando-a a cultivar apenas as suas amizades, o seu emprego e a sua família. Qualquer semelhança com a realidade, infelizmente, não é coincidência. Mas a opressão aparece também nos pequenos gestos, como num diálogo em que Harge se refere a uma amiga do casal como “a esposa de fulano”, ao invés de dizer seu nome. Soa familiar?

O que faz a diferença neste drama é o fato de suas protagonistas não se deixarem abalar. Em nenhum momento, elas aceitam o rótulo de “indefesas” ou de “loucas”, mesmo que, às vezes, sejam obrigadas a ceder em algum ponto. O amor entre elas, aqui, é tanto uma afirmação de identidade e independência quanto uma relação romântica. Ainda assim, surpreendentemente, o filme consegue ser doce, como uma canção de Natal*.

*Em inglês, “carol” é a palavra usada para designar canções natalinas.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.