Vida (Daniel Espinosa, 2017)

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Um grupo de astronautas a bordo de uma estação espacial recebe uma amostra do solo de Marte e descobre a existência de um organismo que pode ser a primeira prova de vida fora da Terra. Com o tempo, a criatura cresce, se liberta e se revela inteligente, forte e assassina.

Desde que li a sinopse de “Vida” pela primeira vez, achei bastante óbvio que se tratava de um plágio, ou de uma cópia genérica do clássico “Alien: O Oitavo Passageiro”, de Ridley Scott. Mesmo assim, as críticas positivas me convenceram de que, talvez, mesmo com o formato idêntico, alguma coisa no filme de Daniel Espinosa seria original. Que ele traria alguma discussão mais atual sobre o conceito de “vida” – afinal, estava no título… Mas não.

Na sala escura do cinema, enfim, fui conferir o blockbuster. Jake Gyllenhaal, Ryan Reynolds, Rebecca Ferguson… Nomes imponentes desfilavam pela tela no que se desenrolava como um enorme déja-vu: não apenas o tema remetia a “Alien”, mas a ambientação, o ritmo e toda a paleta de cores vinham de outro lugar. Vinham descaradamente de “Gravidade”, de Alfonso Cuarón.

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É claro que estamos falando de dois filmes sobre o espaço e, inevitavelmente, sobre as mesmas estações que orbitam a Terra. Mas, antes de “Gravidade”, esse nível de realismo nunca havia sido feito, tampouco desejado. E não seria justo dizer que “Vida” tem a mesma preocupação em simular a realidade, mas, ao pegar emprestados elementos do colega, o filme tenta trazer a fantasia do “monstro assassino” para uma esfera mais próxima e, portanto, teoricamente, mais assustadora.

Mas há um motivo pelo qual isso não funciona. Há uma tensão ali? Certamente. Há um prazer mórbido em assistir a um alienígena com tentáculos aniquilando uma tripulação inteira? Talvez. Mas “Alien” não foi um fenômeno por causa disso. Nem foram todos os filmes de horror que, de fato, permaneceram na memória do público – eles jamais tiveram a o horror como seu elemento principal.

O que prende o público para além das duas horas são as histórias dos personagens, suas relações humanas e seus conflitos internos. O medo é apenas consequência, e é potencializado se o espectador se importa com o que está vendo. Se não há uma construção cuidadosa desse contexto, não há medo. E, aqui, não há medo. Apenas curiosidade e repulsa.

Vida” estreia nos cinemas no dia 20 de abril.

Crítica: Kevin Costner vive anti-herói perturbado em “Mente Criminosa”

Nem todo filme precisa ser cabeça. Mas um filme despretensioso pode ter, simplesmente, as doses certas de ação, drama e suspense para manter o espectador interessado até o fim. “Mente Criminosa”, que estreia no próximo dia 14, é assim.

O filme dirigido por Ariel Vromen (“O Homem de Gelo”) traz Kevin Costner no papel principal, como um anti-herói que lembra os valentões de Liam Neeson (um pouco como Costner já fizera em “3 Dias Para Matar”), mas com uma atuação consideravelmente mais compromissada.

O ator interpreta Jericho, um sociopata que passou a maior parte da vida na prisão, porque um acidente na infância fez com que ele perdesse completamente a empatia e as noções de certo e errado (o que, somado às circunstâncias desse acidente, transformaram-no em um assassino).

Essa deficiência, porém, torna-o o candidato perfeito para uma ação desesperada da CIA: a replicação das memórias de um agente morto em seu cérebro. O espectador pode questionar a base científica para tal operação, mas o pouco de explicação que o filme coloca é suficiente para que se “compre” a história e siga sem problemas.

Passado o estranhamento inicial, o público logo se verá hipnotizado pela evolução de Jericho – que passa a ter os dois personagens dentro de si, numa convivência conflituosa que rende ótimos momentos. Vale notar que o criminoso nunca deixa de ser ele mesmo (ele não “reencarna” o agente, como seria a opção mais charlatã), mas “agrega” um pouco dos sentimentos e conhecimentos do outro em sua própria personalidade.

Além de Costner, o longa também traz no elenco nomes como Gal Gadot, Ryan Reynolds, Tommy Lee Jones, Gary Oldman e Michael Pitt. Gadot, que recentemente roubou a cena em “Batman vs Superman” como a Mulher Maravilha, não tem aqui um papel tão empoderador – ela é, afinal, “a esposa” e “a mãe” que precisa ser resgatada em algum momento –, mas, ainda assim, é uma personagem forte que não vai decepcionar o público feminino.

Se o elenco é um dos pontos altos do filme, o ponto baixo é a dupla de vilões formada por Antje Traue e Jordi Mollà, cujas motivações são mostradas apenas vagamente e cujas personalidades se resumem a estereótipos de “chefão calmo e violento” e “capanga devota e ineficiente”.

“Mente Criminosa” é um filme médio que acaba ganhando o espectador por acertar no tom: há um pouco de humor, romance e suspense e um tanto de drama, mas o foco nunca deixa de ser a ação. Despretensioso, mas bem feito, este é aquele filme que poderia passar na televisão no meio da tarde – e você assistiria até o último minuto sem mudar de canal.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.