Kong: Ilha da Caveira (Jordan Vogt-Roberts, 2017)

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Será que tudo o que é clássico precisa ser intocável? Os puristas que me perdoem, mas “Kong: A Ilha da Caveira” prova muito bem que não. Sem deixar de lado as referências devidas, a megaprodução do ainda desconhecido Jordan Vogt-Roberts (“Os Reis do Verão”) se arrisca a transformar a história e fazer de Kong não um monstro frágil e incompreendido, mas um rei de fato.

Ironicamente, o título “King” desaparece aqui, para dar mais ênfase ao reino – a tão misteriosa Ilha da Caveira, que, pela primeira vez, deixa de ser localizada no oceano Índico para se estabelecer nas águas turbulentas do Pacífico. A novidade não é mero capricho: ambientado nos anos 70, imediatamente ao fim da Guerra do Vietnã, o filme costura o contexto da Guerra Fria com a Segunda Guerra Mundial promovendo um encontro entre EUA e Japão no território neutro de Kong, bem como um encontro entre passado e presente (ou passado e passado, para os espectadores) que coloca todos esses conflitos em perspectiva.

Tudo, na verdade, começa com a guerra: Bill Randa (John Goodman), um cientista interessado em provar a existência de criaturas que vivem em “bolhas” sob a superfície, se aproveita da rivalidade com a Rússia para conseguir financiamento para uma expedição, alegando que “os EUA vão querer chegar primeiro a uma ilha inexplorada”. Juntam-se a ele um pequeno batalhão do exército americano (comandado, obviamente, por Samuel L. Jackson), uma fotógrafa (Brie Larson), uma dupla de cientistas (Corey Hawkins, de “Straight Outta Compton”, e a estrela chinesa Tian Jing) e um especialista em navegação (Tom Hiddleston).

É claro que Jackson será algo como o representante do Mal na equipe, tendo sido frustrado pela retirada dos EUA do Vietnã, enquanto o personagem de Hiddleston, James Conrad, faz as vezes de herói. O maniqueísmo, entretanto, não chega a criar raízes, já que o foco não são eles – é a ilha e seus monstros, muito mais poderosos do que um bando de formiguinhas humanas querendo invadir seu espaço.

Além disso, apesar de Conrad ter uma postura de liderança, a personagem de Larson, Mason Weaver, tem um protagonismo equivalente, jamais assumindo o papel da donzela em perigo que tornou “King Kong” tão popular nos anos 30. No lugar, Vogt-Roberts faz apenas uma referência sutil à relação entre ela e o gorila, deixando no passado a máxima de que “a bela matou a fera” para adotar algo mais próximo de “os humanos conheceram a fera”.

Essa também é outra grande (e corajosa) novidade do filme: o objetivo da expedição não é sequestrar ou matar Kong, mas sim levar provas de sua existência para que outras expedições sejam feitas e outros seres como ele sejam mapeados. O filme, em outras palavras, não sai da ilha, e esse é seu maior presente para os fãs. Finalmente podemos ver em detalhes a relação do Rei com as criaturas ao seu redor (o que inclui animais gigantes e um déja-vu sinistro de “Querida Encolhi as Crianças”), com a tribo nativa (agora mostrada como sábia e pacífica, e não mais como primitiva e violenta) e mesmo com os invasores, mas num contexto em que ele tem o controle.

Esse ponto de vista coloca Kong estrategicamente (para a Legendary, dona de títulos como “Godzilla” e “Círculo de Fogo”) como apenas uma criatura num contexto em que se assume que há muitas outras. Para os fãs, as consequências disso são óbvias – inclusive, a organização secreta Monarch, apresentada pela primeira vez em 2014 no “Godzilla” de Gareth Edwards, é citada. E, para quem se animou com a ideia, pode valer a pena esperar pela cena pós-créditos.

Tudo isso mostra como “Kong: A Ilha da Caveira” se posiciona em relação às origens – com reverência, mas também com consciência e ambição. Esse, porém, está longe de ser o maior trunfo do filme: na verdade, o que faz de “Kong” um sucesso é o fato de ele ser um filme divertido, atraente e assustadoramente bem feito.

A aventura está ali, os monstros estão ali desde o início, esbanjando monstruosidade, e há humor, ação e suspense nas doses certas. A fotografia se inspira em clássicos de guerra, como “Apocalypse Now”, e abusa de takes com pôr do sol, fogo e poeira. Kong, em si, é um escândalo: imenso como jamais se viu, coberto pelas texturas certas e com apenas o toque de humanidade necessário aos olhos. A trilha sonora e os cortes rápidos também ajudam a dar ritmo, lembrando em alguns momentos o tom de “Rua Cloverfield, 10” (que também tem John Goodman no elenco).

“Kong”, enfim, é um tiro certo nos corações dos fãs – seja para os amantes do personagem ou os devotos do cinema “de monstro”. Atualizado para um novo contexto e um novo público, o gorila mais icônico de Hollywood pode voltar a ocupar seu espaço de honra no imaginário do público, sem medo de parecer piegas, sexista ou infantil. Ele, agora, é um monstro de respeito.

 

Publicado originalmente no site Guia da Semana.

Crítica: “Os Oito Odiados” se esforça demais para chocar, mas ainda é um bom Tarantino

Quentin Tarantino não é de fugir de polêmicas, mas, quando seu novo filme, “Os Oito Odiados”, estrear, é bom que ele esteja preparado. O diretor americano, que tem uma tendência a usar a palavra “nigger” como se fosse “bom dia”, volta a trabalhar o conflito entre brancos e negros num faroeste cheio de violência, humor e alguns diálogos ultrajantes.

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“Os Oito Odiados” conta a história de dois caçadores de recompensas, John Ruth (Kurt Russell) e Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), que tentam levar suas vítimas para a prisão de Red Rock, onde receberão o dinheiro. O problema é que uma delas, a louca e agressiva Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), ainda está viva, e Ruth pretende mantê-la assim até chegarem ao destino. No caminho, os três ainda encontram Chris Mannix (Walton Goggins), um homem que diz ser xerife e que pega carona com eles.

O grupo é surpreendido por uma nevasca e decide se hospedar numa pequena pousada no meio da estrada. Misteriosamente, os donos não estão e o lugar está ocupado por outros quatro homens: Bob (Demian Bichir), Oswaldo Mobray (Tim Roth), Joe Gage (Michael Madsen) e o general Sandy Smithers (Bruce Dern). Como a ventania se agrava, os oito (mais o cocheiro O.B., vivido por James Sparks) concordam em passar as próximas horas juntos, confinados numa sala fechada como uma panela de pressão.

O filme segue a tradição claustrofóbica de obras como “Deus da Carnificina” (2011) e “O Anjo Extreminador” (1962), mas, segundo o diretor, a inspiração veio de “O Enigma do Outro Mundo” (1982), onde buscou o nível de tensão e paranoia necessários a estes personagens. Em “Os Oito Odiados”, como no filme de John Carpenter, ninguém é confiável.

Tarantino conduz seus atores com um roteiro forte e uma safra de falas marcantes que não devem demorar a virar jargões, mas as três horas e dois minutos de duração pesam bastante no resultado final. O filme é o mais longo já feito por Tarantino (com exceção, é claro, de “Kill Bill”, se somarmos os dois filmes) e o ritmo não é o mesmo de seus maiores sucessos.

A preciosidade que levou o cineasta a manter um corte tão longo permitiu que alguns diálogos se tornassem didáticos ou redundantes e que o silêncio de algumas cenas (especialmente no início) ultrapassasse o limite do poético e dispersasse a atenção do público. Essa falha, felizmente, é compensada na segunda parte, quando a adrenalina toma conta da pousada.

O que realmente incomoda em “Os Oito Odiados” não é o tempo, mas sim o quanto Tarantino se esforça para chocar. Já sabemos que seus filmes são violentos, mas aqui ele aproxima mais a câmera para mostrar cabeças explodindo. Já sabemos que ele defende uma espécie de “vingança racial”, mas aqui ele transforma o negro num sádico abusador de brancos. Já sabemos que ele quer mostrar mulheres fortes, mas aqui sua protagonista apanha brutalmente a cada frase que pronuncia. O exagero, que em “Kill Bill” ou “Bastardos Inglórios” foi base para um humor sarcástico e autêntico, aqui passa do limite e beira o mau gosto. Teria o diretor se conformado com o estereótipo de “provocador”?

É evidente que “Os Oito Odiados” não faz tudo isso por acaso. A discussão racial tem sido pauta do trabalho de Tarantino desde “Jackie Brown”, quando iniciou uma rixa com o também diretor Spike Lee, que dura até hoje. O cineasta ainda afirmou, em coletiva no Brasil, que tem insistido no faroeste porque “a forma como lida com a questão da raça tem algo a contribuir para o gênero”.

Há ainda uma segunda questão a se considerar na forma como Tarantino aborda a violência e os conflitos raciais neste filme em particular. Recentemente, o diretor participou de manifestações contra a truculência da polícia norte-americana, especialmente contra a população negra, e recebeu, em troca, ameaças de boicote e “outras surpresas” por parte dos policiais. A tensão que dominou este ano nas ruas, portanto, se reflete na violência descontrolada que vemos na tela.

“Os Oito Odiados” tem uma angústia a expressar e uma crítica a fazer, mas isso não justifica, de todo, a falta de equilíbrio do filme. Falta uma edição mais enxuta e uma história mais coesa, sobram pequenos detalhes mal explicados (como o fato de Warren não saber quem é Domergue, ou dos “oito” não ficarem bem definidos). Como um estudo de personagens sob pressão, é uma obra exemplar. Como o oitavo filme de Quentin Tarantino, poderia ser melhor.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.