Meus favoritos de 2018

Chamem-me de piegas, mas sou daquelas pessoas que aproveitam o período entre dezembro e janeiro para fazer o “balanço” do ano que passou e anotar os projetos, metas e tendências para o ano que vem. Retrospectivas são comigo mesmo e talvez esta seja a única época em que eu realmente vejo sentido em fazer listas. Então, antes de olhar para 2019 com olhos curiosos, quero compartilhar com vocês um pouco do que eu vi, li e descobri em 2018. Vamos?

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Histórias descartáveis

Quando foi a última vez que você assistiu a um filme que ficou com você? Digo, realmente ficou, até que você assistisse de novo, lesse uma crítica, convencesse todos os seus amigos a verem também e finalmente incorporasse frases inteiras, ideias e referências da tela para a sua vida? Faz tempo, né? Continuar lendo “Histórias descartáveis”

Westworld, 2ª temporada: considerações

Tive dificuldade para dormir ontem à noite. Por mais que tentasse, não conseguia desviar os pensamentos do final da segunda temporada de “Westworld”, que foi ao ar neste domingo na HBO após uma sequência de episódios propositalmente confusos e enlouquecedores. É só uma série, eu sei, mas havia muito o que pensar – inclusive sobre o mundo do lado de fora da ficção.

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FC! No Ar – Doutor Estranho, A Garota no Trem, Trolls

No programa de hoje, conheça os trailers de “Logan”, nova aventura-solo de Wolverine que estreia em 2017, e “Gilmore Girls: Um Ano Para Recordar”, especial de quatro episódios que estreia na Netflix em 25/11.
Entre as estreias, saiba o que esperar do suspense “A Garota no Trem”, do novo filme da Marvel, “Doutor Estranho”, e da animação feel good “Trolls”.

Trailer “Logan”: https://youtu.be/KPND6SgkN7Q
Trailer “Gilmore Girls: Um Ano Para Recordar”: https://youtu.be/DDRIZUlB1zA
Trailer “A Garota no Trem”: https://youtu.be/mdb5sQiQojQ
Trailer “Doutor Estranho”: https://youtu.be/YUfWrIcX4zw
Trailer “Trolls”: https://youtu.be/vWj1VYDXyIM

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Demônio de Neon + Westworld: dois conceitos de humanidade no cinema e na TV

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Desde que assisti ao primeiro trailer de “Demônio de Neon”, eu soube que escreveria sobre ele. Um manifesto belo e grotesco sobre a própria beleza. Um tesouro conceitual e incompreendido – já sabia disso antes de ver o filme completo e confirmei minhas impressões na sala de cinema, maravilhada com as imagens de Nicolas Winding Refn. Aliás, me enganei quanto ao “grotesco”: existe a sugestão do “gore”, mas o tal demônio não abre mão da qualidade estética nem por um segundo. Não há um fio de cabelo fora do lugar, mesmo que, por dentro, seus personagens estejam se corroendo e apodrecendo como troncos ocos.

Mas o fato é que não consegui escrever sobre “Demônio de Neon” porque fui atropelada por “Westworld”.

Eu mesma sabia muito pouco sobre a nova série da HBO, mas tive a chance de assistir ao primeiro episódio numa sessão de imprensa. “Westworld” estreia no dia 2 de outubro e é livremente inspirada no filme homônimo de 1973, com roteiro de Jonathan Nolan (que escreveu “Interestelar” junto com o irmão mais famoso) e de sua esposa, Lisa Joy.

O primeiro episódio apresenta um Velho Oeste bastante convincente onde vive um grupo de personagens típicos: a doce e otimista garota apaixonada (Evan Rachel Wood), seu pacato pai fazendeiro (Louis Herthum), o aventureiro que retorna para cumprir uma promessa (James Marsden), a cafetã (Thandie Newton) e o assassino (Rodrigo Santoro). O espectador é pego de surpresa quando alguns desses personagens são brutalmente assassinados, mas, ao revê-los sãos e salvos na manhã seguinte, começa a compreender: aquele, na verdade, é um parque de diversões onde clientes ricos podem se vestir a caráter e viver algumas horas no Velho Oeste (ainda não sabemos se a série mostrará outros cenários).

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Lá, eles interagem com robôs humanoides tão avançados que é quase impossível diferenciá-los dos visitantes, exceto por seus discursos repetidos e por um ou outro tique mecânico. Para dar mais realismo à experiência, os robôs não sabem que não são humanos. E é aí que voltamos ao Neon.

O filme de Refn e a série de Nolan trabalham conceitos opostos de humanidade, mesmo tendo, ambos, perspectivas pessimistas sobre ela. Em “Demônio de Neon”, o valor de uma pessoa está na aparência, enquanto, em “Westworld” o que define um humano é o seu comportamento.

O longa conta a história de uma modelo novata (Elle Fanning) que chega a Los Angeles e encara a inveja destrutiva de suas concorrentes, enquanto despe-se de sua alma e seu intelecto para dar à agência o que ela quer – e o que aprendeu a querer, também – sua beleza exterior e vazia.

[ALERTA DE SPOILER]

Numa cena, a personagem de Jena Malone, uma maquiadora que completa a renda maquiando corpos para o velório, compensa a frustração de ter sido rejeitada por uma pretendente viva realizando sua fantasia com um cadáver. A imagem pode ser chocante, mas não é gratuita: se o que ela desejava era a beleza de uma modelo, a estética despida de significado, então não haveria diferença entre um corpo preenchido com vida e outro vazio.

Em outro momento, uma série de fotos é levada a uma agência de modelos. São fotos belas e impactantes que contam uma história intrigante: uma mulher está morta num sofá. O que teria acontecido com ela? Como ela teria chegado ali? Quem era ela? As fotos, porém, são rejeitadas como sendo “amadoras”. O motivo não é dito, mas podemos pensar que o fato de levantarem perguntas e estimularem o olhar para além da imagem não atende aos objetivos da empresa.

[FIM DO SPOILER]

A humanidade, portanto, é definida aqui pelo corpo: a modelo deve expressar beleza sem consciência e a imagem deve ser dissociada de sua significação. O oposto acontece em “Westworld” – ou, pelo menos, em parte dela.

Na série, os humanos que embarcam na fantasia do parque assumem atitudes desumanas: matam, estupram e traem simplesmente porque não serão punidos e porque sabem que seus “hóspedes” são personagens ficcionais. Então, numa cena, um roteirista do parque faz a seguinte reflexão: “Talvez devêssemos parar de atualizar os robôs. Até que ponto, afinal, as pessoas se sentiriam confortáveis para trair ou matar se eles se parecessem cada vez mais com humanos?”

A humanidade, portanto, é definida pelo comportamento: quanto mais complexos se tornarem os robôs, mais as pessoas os enxergarão como iguais. Além disso, ter a capacidade de pensar, aprender, ter memórias e sentimentos faz com que os robôs também se considerem humanos.

Há um paradoxo, entretanto: ao mesmo tempo em que os robôs passam a “sensação” de humanidade por seu comportamento, eles ainda são julgados, racionalmente, pela estrutura física. Os usuários do parque sabem que os habitantes do Velho Oeste não são humanos porque são feitos de componentes mecânicos e não de células naturais – e isso cria uma distância intransponível que tem sido explorada pela ficção científica desde os primórdios.

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Como a série vai desenvolver essa questão, ainda não sabemos, mas ficaremos pregados na TV todos os domingos para descobrir. E, quanto ao Neon, aviso que é um filme tão polêmico que dificilmente ficará muitas semanas em cartaz. Sugiro que corram logo aos cinemas (a partir do dia 29) e voltem com suas próprias respostas para algumas destas perguntas: afinal, será que o filme segue o próprio conceito e é só bonito, mas sem conteúdo? Ou será que ele nos mostra que realmente só consideramos humanos aqueles que nos agradam aos olhos?

Perguntas difíceis, respostas desagradáveis.