Solos – antologia sci-fi explora a estética do isolamento em coleção de autorretratos

Qual seria o formato dramático mais óbvio para um cenário de isolamento e distanciamento social? Na minha cabeça, o monólogo. Apesar disso, não vimos uma explosão de produções pandêmicas estreladas por um único ator ou atriz – no máximo, observamos tentativas de replicar a realidade mostrando personagens comunicando-se através de telas, como nós. Doentes, como nós. E tivemos algumas experiências interessantes com elencos reduzidos, como o romance Malcolm & Marie, além das muitas experiências com apocalipses (que justificam o uso de máscaras em cena). Mas monólogos? Nem tanto.

Foi em parte por isso que me interessei pela nova série original da Amazon, Solos. Com sete episódios de 30 minutos cada, ela traz histórias vagamente interligadas sobre personagens que, por um motivo ou por outro, precisam se reconectar com as próprias memórias e revisitar suas escolhas e perspectivas sobre o mundo. São autorretratos, praticamente, como sessões de terapia, porém ancoradas num futuro tecnologicamente mais avançado. Alguns com diálogos, outros mais puramente monológicos, todos fechados em ambientes únicos. Replicando a situação contemporânea bem mais na forma do que no conteúdo – exceto por uma das histórias, que menciona mais abertamente uma pandemia.

O outro atrativo, que pode ser simultaneamente bom e ruim, é o elenco quase excessivamente estelar: Anne Hathaway, Anthony Mackie, Helen Mirren, Uzo Aduba, Constance Wu, Nicole Beharie, Dan Stevens e Morgan Freeman. Desses, apenas Stevens e Freeman contracenam, enquanto os demais respondem a Inteligências Artificiais, vozes no telefone, crianças, ou… Bem, a eles mesmos. 

O casting extremo faz sentido: é preciso ser muito bom para encarar sozinho textos como o do episódio 5 (com Wu), e o público precisa simpatizar com você o suficiente para se dispor a assisti-lo durante meia-hora, às vezes multiplicado (como Mackie). Por outro lado, acho que minha favorita foi a ainda desconhecida (por mim, que não vi Orange is the new black) Uzo Aduba, que encarna a paranoia em pessoa enquanto conversa com uma IA que tenta convencê-la a sair de casa, 20 anos após o início do isolamento coletivo por uma doença que pode ou não ter acabado. 

Também me sensibilizei com a sempre maravilhosa Helen Mirren, aqui embarcando numa viagem para o espaço enquanto relembra sua infância e juventude. Sua história é triste, mas ela a conta de um jeito doce – até parece uma menina. E os episódios seguem assim, bem diferentes uns dos outros, mas ligados por uma ideia, uma mensagem: a de que é preciso reconhecer a vida enquanto se está vivendo, pois o tempo não volta atrás. 

É uma mensagem bem mais amarga do que eu esperaria de uma produção tão hollywoodiana, ainda mais uma que parece querer ser seu livro de autoajuda em meio a (ou no fim de) uma pandemia… Mas, pensando bem, por que não? No fim das contas, o que aquele mix de monólogos tenta mostrar é que o que há de humano em todo mundo – as inseguranças, as futilidades, as desconfianças, as brincadeiras, as paixonites, as amizades, os medos, as escolhas ruins, a busca por conforto, o conflito entre a autopreservação e o desejo de contato com o outro – há em todo mundo e em todos os tempos. E a gente pode esquecer que ainda existe humanidade quando coisas tão horríveis quanto a negação da ciência e da História, a recusa das vacinas, a derrubada de florestas, o assassinato de jovens negros, a celebração pública de uma execução pela polícia, passam a fazer parte do dia-a-dia.

Solos é uma criação de David Weil (que escreveu um episódio da nova Twilight Zone e comandou a série Hunters, também da Amazon), com alguns episódios dirigidos por Sam Taylor-Johnson (O garoto de Liverpool, Cinquenta tons de cinza), Zach Braff (Despedida em grande estilo) e Tiffany Johnson (Girls room). Já os roteiros são assinados pelo próprio Weil, com a participação de Stacey Osei-Kuffour (Watchmen), Bekka Bowling (mais experiente como atriz, mas que traz claramente um humor sombrio ao episódio em que participa) e Tori Sampson (sem outros créditos por enquanto, mas fiquemos de olho).

Uma pedida rápida, nem tão pesada, mas nem tão feel good quanto as cores vibrantes e a presença de Morgan Freeman fazem parecer. Dê uma chance: aposto que pelo menos um dos episódios vai te provocar.