SOMOS TÃO JOVENS (E TÃO CARETAS)

Fui assistir toda esperançosa à cinebiografia de Renato Russo, o tão falado Somos Tão Jovens, de Antônio Carlos da Fontoura. O menino é bom, diziam. A história dele é incrível, eu pensava. Mas…  Sabe como é. O diretor conseguiu o impossível: se esquivar de temas polêmicos fazer uma caricatura infantil dos anos 60.

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Somos Tão Jovens conta a história de Renato Manfredini Júnior (o “Russo”, pasmem, foi uma homenagem aos filósofos Bertrand Russell e Jean-Jacques Rousseau) em suas primeiras aventuras musicais: primeiro no Aborto Elétrico, com André Pretorius e Fê Lemos, depois com a nova formação sem Pretorius, com Flávio Lemos, e por fim numa curta carreira solo antes do nascimento do Legião, com Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Paulo Paulista. Dinho Ouro Preto e Herbert Vianna também dão as caras no filme, lembrando que Brasília foi mesmo o berço do que se viu de melhor no rock nacional até hoje.

Como já era de se esperar, é bem difícil segurar os pés na sequência de abertura: a vontade é cantarolar e marcar as batidas da música que dá nome ao filme. Mas os primeiros minutos jogam um balde de água fria nessa empolgação toda: descobrimos uma doença degenerativa que impede nosso herói de andar durante os anos de colégio, e ficamos esperando a desgraça voltar às telas a qualquer instante – o que não acontece.

A descoberta do sexo, das drogas (só a maconha, no caso) e do punk rock marcam os meninos do Aborto Elétrico durante os repressores anos 70. E eles não estão sozinhos: bandas inglesas e norte-americanas chegam aos seus ouvidos com atraso, mas com um impacto devastador. Chega a ser cômico o momento em que a morte de John Lennon é noticiada e Russo se desespera como se fosse um velho conhecido.

Na tela, porém, o que vemos é apenas esse retrato caricato, com piadas e frases de efeito (ou citações óbvias de canções), e não o sentimento agonizante de querer mudar o mundo sem dar conta do próprio umbigo que de fato marcou aquela geração. Vemos um bando de adolescentes brincando de pular, gritar e rasgar as roupas, sonhando com a fama, mas a carga política – tão forte nas letras de Russo – fica em segundo (se não terceiro) plano no filme de Fontoura.

A homossexualidade do músico (que morreu de AIDS em 96) infelizmente permanece um tabu.  Mesmo não esperando um beijo gay, surpreende que a segunda figura mais forte do filme seja Ana Cláudia, uma personagem fictícia que ocupa o papel de melhor amiga e amante do artista. Interpretada por Laila Zaid, Ana é protagonista das únicas cenas de beijo e sexo – já que, com homens, Russo se limita a flertar e abraçar.

A interpretação de Thiago Mendonça (que canta e toca ao vivo, sem intervenções de estúdio) é digna, mas não se destaca: os diálogos são “certinhos” demais para o ambiente e deixam tudo um pouco falso.