Culpa: suspense policial cresce e surpreende sem sair de dentro da delegacia >MostraSP

Às vezes, os filmes mais simples podem ser os mais envolventes. Em “Culpa” (Den Skyldige), longa que representará a Dinamarca no Oscar 2019 e que está na seleção da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, toda uma trama de sequestro, assassinato e perseguição é narrada sem que se veja uma única cena da ação. E, ainda assim, vemos em nossas cabeças cada detalhe. Continuar lendo “Culpa: suspense policial cresce e surpreende sem sair de dentro da delegacia >MostraSP”

Visitamos a exposição “Hitchcock – Bastidores do Suspense” no MIS

A próxima sexta-feira não será um dia qualquer. Ela será uma sexta-feira 13 – dia do terror, do medo, do suspense e também o dia em que o Museu da Imagem e do Som (MIS) inaugura sua megaexposição sobre o diretor Alfred Hitchcock. Intitulada “Hitchcock – Bastidores do Suspense”, a instalação ocupa dois andares do museu e traz fotografias, documentos, vídeos e espaços interativos montados para colocar o visitante dentro dos sets do cineasta britânico. Continuar lendo “Visitamos a exposição “Hitchcock – Bastidores do Suspense” no MIS”

De volta ao mundo dos dinossauros

Por mais que Hollywood diga o contrário, poucos filmes nascem com a vocação para se tornarem franquias. Desses poucos, os melhores provavelmente vieram da mente de Steven Spielberg. Nesta quinta (21), estreia oficialmente (depois de uma semana de pré-estreias) o quinto longa de sua famosa saga jurássica, “Jurassic World – Reino Ameaçado”. Um filme que vem provar, em meio a um mar de sequências desnecessárias, que um universo bem construído pode render décadas de terror, curiosidade, aventuras e dilemas morais que não estão nem perto de acabar.

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Um Lugar Silencioso (John Krasinski, 2018)

Você já deve ter visto John Krasinski em algum lugar. Se é fã de “The Office”, foi lá. Se não, como eu, talvez tenha sido numa comédia romântica genérica, onde ele chamava a atenção por não ser o galã que você esperaria num filme do gênero: “Licença Para Casar”, “Simplesmente Complicado” ou “O Noivo da Minha Melhor Amiga”, ele esteve nos três. Continuar lendo “Um Lugar Silencioso (John Krasinski, 2018)”

M. Night Shyamalan no Brasil

Na última terça-feira, o cineasta M. Night Shyamalan veio a São Paulo promover o suspense “Fragmentado” e conhecer o público brasileiro. Em entrevista exclusiva, ele falou sobre os mistérios do transtorno que inspirou o filme, sobre o primeiro encontro com o ator James McAvoy e sobre a proposta de ambientar parte de sua filmografia num mesmo universo. Shyamalan revelou, ainda, que está escrevendo uma sequência que pode chegar aos cinemas já em 2018.
“Fragmentado” conta a história de um homem (McAvoy) com 23 personalidades diferentes que sequestra três adolescentes e precisa lidar com seu lado mais monstruoso. O filme estreia no dia 23 de março nos cinemas.

Crítica: apesar das expectativas, “O Escaravelho do Diabo” não consegue deixar sua marca

Se você está lendo este texto, provavelmente já ouvir falar em “O Escaravelho do Diabo”. O longa, que chega aos cinemas no dia 14 de abril, é a adaptação de um dos maiores clássicos juvenis brasileiros, publicado inicialmente em 1953 por Lúcia Machado de Almeida, depois incluído na Coleção Vaga-Lume em 1972 e reeditado infinitamente (27 vezes, na verdade) de forma que, praticamente, todas as gerações já tiveram algum contato com ele.

O filme toma algumas liberdades, mas tenta manter a atmosfera de suspense da obra original. A história, em geral, é a mesma: um assassino em série está atacando ruivos numa cidade do interior e, antes de matar cada alvo, envia a ele um escaravelho. Quem investiga o caso é o irmão da primeira vítima, Alberto (Thiago Rosseti), que, no filme, é um garoto de 12 anos.

Esta é uma das principais diferenças em relação ao livro, já que o protagonista costumava ser um estudante de medicina, bem mais velho. Talvez a intenção seja que, na tela, as crianças se identifiquem com alguém da idade delas, mas é questionável se isso funcionará ou não com um personagem tão apático.

Após ver o irmão morto, por exemplo, o garoto tem uma conversa com o delegado Pimentel (Marcos Caruso) que só pode ser descrita como surreal: ele não apenas mostra que não entendeu o que aconteceu (um sinal de choque, mas pouco convincente na cena), como não se enraivece quando o policial o aborda de forma totalmente insensível. Mais tarde, Alberto será mostrado como um jovem de instinto investigador, mas suas pesquisas sobre o assassino terão pouca ou nenhuma relevância para o desenvolvimento da história.

O filme sofre um pouco com atuações caricatas (herança, sem dúvida, do passado novelesco do diretor), mas sua maior fraqueza é outra: para um suspense de assassinatos, o assassino, simplesmente, não dá medo. Ele é, sim, apresentado como um louco de sangue frio, que mata sem hesitar (o que, provavelmente, é culpado pela classificação de 12 anos), mas, quando finalmente podemos vê-lo em seu “habitat” ou conhecemos seu passado, as visões são, apenas, bizarras – com direito a grunhidos, contorções e fantasias que caberiam melhor a um filme de público-alvo bem abaixo desses 12 anos.

“O Escaravelho do Diabo” não é uma adaptação ruim, mas deve funcionar para uma parcela pequena do público. Algumas cenas são fortes demais para crianças menores, ao mesmo tempo em que o filme não é desafiador o suficiente para as mais velhas. Para os pais, não será nenhuma tortura (nós sabemos o que vocês passam…), mas também não será especialmente estimulante. Infelizmente, um dos filmes mais esperados do ano deverá, simplesmente, passar batido.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Crítica: “Rua Cloverfield, 10” combina o realismo do suspense psicológico com um toque de sci-fi

Preciso confessar: nunca tinha visto “Cloverfield – Monstro”. Não porque eu tenha algum problema particular com filmes de monstros (pelo contrário, é o meu tipo de filme), mas, simplesmente, nunca sentei no sofá e tomei uma atitude a respeito. Isto é, até assistir a “Rua Cloverfield, 10” e perceber o que eu estava perdendo.

A sequência do cultuado found-footage da produtora de J.J. Abrams, que chega aos cinemas no dia 7 de abril, não é bem uma sequência, nem é um found-footage (para alívio de muitos de nós), mas é bom o suficiente para fazer qualquer um ir correndo atrás do original. Aliás, é ridiculamente bom.

O filme acompanha a aspirante a estilista Michelle (Mary Elizabeth Winstead) que, por alguma razão, acaba de abandonar o noivo. Na estrada, ela sofre um acidente e acorda dentro de um bunker, onde vivem Howard (John Goodman, numa atuação arrepiante) e Emmett (John Gallagher Jr.).

Michelle logo descobre que não tem permissão para sair, porque Howard acredita que o ar, do lado de fora, está contaminado. Se isso é verdade ou não, ela não pode dizer, já que eles não têm nenhum tipo de comunicação com o mundo exterior. Para piorar, a previsão é que os três permaneçam trancados por um ou dois anos.

Para quem, como eu, esperou até agora para dar uma olhada no primeiro filme, minha dica é: espere um pouco mais. “Rua Cloverfield, 10” funciona muito bem sozinho e, arrisco dizer, até melhor. A relação com o primeiro filme tem a ver, apenas, com o que acontece do lado de fora do bunker – e, mesmo assim, é uma relação distante.

O que o longa de estreia de Dan Trachtenberg faz é misturar a ficção científica do universo de “Cloverfield – Monstro” com um suspense psicológico de fincar as unhas na poltrona. A maior parte do filme, afinal, se ocupa não com monstros e possíveis ataques químicos, mas com as relações de desconfiança entre os três protagonistas.

Winstead e Goodman são o coração do filme, carregando em seus olhares um milhão de significados. De um lado, Michelle tem a consciência de que pode estar sendo vítima de um sequestro e que seu abdutor pode ser qualquer coisa entre um louco paranoico, um estuprador ou um assassino (ou todas as anteriores) – mas também tem que lidar com a possibilidade de que o mundo exterior tenha se tornado inabitável e que seu sequestrador, na verdade, seja seu salvador. Do outro, Howard passou a vida toda se preparando para o apocalipse e, quando ele finalmente chega, não recebe de seus “hóspedes” a gratidão esperada. Como transformar aquele ambiente no lar perfeito que ele sonhou?

“Rua Cloverfield, 10” é uma opção obrigatória para fãs de suspense e ficção científica. Para quem tem um pé atrás por ser sequência, não há razão para se preocupar: além de diferente do anterior na forma, o filme também é bastante independente no tema, existindo sozinho ou como parte de algo maior. Estreia nesta quinta-feira.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

Crítica: “Boa Noite, Mamãe” explora o suspense na quebra da confiança entre mãe e filhos

Uma mulher e várias crianças entoam uma canção de ninar, sorrindo para as câmeras como num programa de TV antigo. São uma família feliz e desejam paz a todos. Bem que Lukas (Lukas Schwarz) e Elias (Elias Schwarz), que agora brincam sozinhos na floresta em torno de sua casa, gostariam que essa fosse a sua família, mas algo aconteceu… E eles não estão mais em paz.

Boa Noite, Mamãe” é um suspense austríaco que vem colecionando prêmios e indicações desde  2014 e só agora, dois anos depois, estreia nos cinemas brasileiros. Dirigido por Severin Fiala e Veronika Franz, ambos estreantes em longas de ficção, o filme conta a história de dois irmãos gêmeos que não conseguem reconhecer a mãe depois que ela retorna de uma cirurgia plástica.

O segredo de “Boa Noite, Mamãe” está em entregar os detalhes do contexto aos poucos, permitindo ao público montar o quebra-cabeça em seu próprio tempo. Por que ela fez a cirurgia? O que aconteceu entre ela e Lukas? O espectador mais atento poderá descobrir as respostas logo no início (o que prejudica um pouco a experiência), mas algumas questões continuarão martelando até o final.

Mesmo que não sejamos surpreendidos, há muito o que apreciar. A evolução dos personagens, ora vítimas, ora agressores, sempre inseguros quanto às intenções do outro, garante nervos tensionados o tempo todo. Para as crianças, é inaceitável que a mãe se mostre fragilizada; enquanto, para ela, também é doloroso que um filho recorra ao outro como figura protetora, anulando sua autoridade. O sadismo resultante desse conflito é material para longos pesadelos.

“Boa Noite, Mamãe” chega aos cinemas no dia 10 de março.

 

 

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Corrente do Mal” se distancia dos outros filmes de terror pela sutileza e tensão

Não é de hoje que o cinema de horror gosta de explorar a culpa dos adolescentes em relação ao sexo, lançando maldições sobre jovens casais e preenchendo a tela com mortes e perseguições. Em “Corrente do Mal” (no original, “It Follows”, algo como “a coisa segue”), não é diferente, mas a sutileza com que o tema é tratado faz do filme de David Mitchell uma peça rara.

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“Corrente do Mal” é um daqueles filmes levemente supervalorizados, que ganharam pontos extras pelo boca-a-boca antes de chegar aos cinemas. Mas nem tudo é exagero e existe, realmente, algo que faz esta obra muito mais interessante do que qualquer horror com espíritos que tenha estreado nos últimos anos.

Em primeiro lugar, a história é bem simples e não há grandes mistérios para desvendar: depois de transar com um garoto, Jay (Maika Monroe) descobre – de forma bastante sinistra – que ele era perseguido por “algo” e que ela, agora, será perseguida até que “passe” a maldição ao próximo. Vocês sabem como.

Esse “algo” toma a forma de diferentes pessoas, frequentemente seminuas, que andam em linha reta encarando o amaldiçoado. Nenhuma outra pessoa consegue vê-las e, caso encostem na vítima, podem matá-la (num processo bastante sugestivo que só reforça a ideia da culpa).

Em segundo lugar, muito pouco é realmente mostrado. Ao contrário dos seus companheiros de gênero, “Corrente do Mal” nunca mostra seu vilão (é um espírito? É uma força emanada por alguém? Ele tem uma forma? Jamais saberemos) e quase nunca mostra os resultados de sua vilania – os mortos e feridos são raríssimos. O foco, aqui, é na tensão que sua existência provoca; no estresse de se sentir observado e caçado após um ato sexual. Pior: o ato se torna uma violência quando a vítima sabe que está passando a “maldição” ao parceiro. Como lidar com essa responsabilidade?

Paralelamente ao terror, uma segunda trama se desenrola em torno de Jay, envolvendo suas relações com a irmã, os amigos e alguns amores platônicos. Se encararmos a “entidade maligna” como uma metáfora, essa história secundária se torna a principal, mostrando as oscilações da vida amorosa da protagonista e seu distanciamento da infância.

Um dos grandes acertos do filme é a trilha sonora de Rich Vreeland, que dá um ar retrô à composição e faz pensar em clássicos como “A Profecia” e “Halloween”. A referência aos antigos filmes de terror se reforça na direção, que explora a sugestão no lugar do choque e do susto – há sempre a iminência de algo, mas nunca a certeza.

Como resultado, “Corrente do Mal” não é tão assustador de imediato, nem tão impressionante para quem está acostumado a muito mais sangue e efeitos. Este, porém, é um filme que permanece muito tempo após a sessão… Como nos velhos tempos.

Texto publicado no Guia da Semana em 16/07/2015.