Halloween: sequência chega aos cinemas tentando atualizar a franquia

Quarenta anos atrás, Jamie Lee Curtis enfrentava pela primeira vez um assassino de máscara com um ódio específico por babás que atacava na noite do Dia das Bruxas. Esse slasher estiloso se chamava “Halloween” e logo se tornaria um fenômeno cult. Desde então, onze filmes e muitas reviravoltas se passaram, mas a história, aparentemente, não acabou. Continuar lendo “Halloween: sequência chega aos cinemas tentando atualizar a franquia”

De volta ao mundo dos dinossauros

Por mais que Hollywood diga o contrário, poucos filmes nascem com a vocação para se tornarem franquias. Desses poucos, os melhores provavelmente vieram da mente de Steven Spielberg. Nesta quinta (21), estreia oficialmente (depois de uma semana de pré-estreias) o quinto longa de sua famosa saga jurássica, “Jurassic World – Reino Ameaçado”. Um filme que vem provar, em meio a um mar de sequências desnecessárias, que um universo bem construído pode render décadas de terror, curiosidade, aventuras e dilemas morais que não estão nem perto de acabar.

Continuar lendo “De volta ao mundo dos dinossauros”

Crítica: “A Bruxa” reúne símbolos tradicionais do terror, mas não assusta tanto quanto promete

A Bruxa”, longa-metragem de estreia do designer Robert Eggers, vem sendo aclamado pela crítica mundial – e até por nomes entendidos do terror como Stephen King – como um dos filmes mais assustadores de todos os tempos. Mas será mesmo?

Exibido pela primeira vez no Brasil durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2015 e prestes a estrear comercialmente no próximo dia 3 de março, o longa de Eggers deve atrair uma multidão de curiosos, ansiosos pelo medo prometido pelo burburinho que vem precedendo o filme desde meados do ano passado. Aviso aos leitores: reduzam suas expectativas.

“A Bruxa” conta a história de uma família extremamente religiosa que, após ser expulsa de uma comunidade rural na Nova Inglaterra (EUA) do século XVII, vai morar numa fazenda isolada cercada por uma floresta. Lá, estranhos acontecimentos levam os pais a acusarem a filha mais velha, Thomasin (Anya Taylor-Joy), de bruxaria.

O filme aposta num conjunto de símbolos tradicionalmente associados ao terror: além da floresta e da religião opressora, temos o bode, o corvo, a velha rejuvenescida, as crianças que veem coisas que os adultos não enxergam. Está tudo ali, seguindo uma receita pronta para assustar. Mas será que esses símbolos, de fato, estão simbolizando alguma coisa? É difícil acreditar que estejam, tamanha a falta de sutileza com que são jogados ao público.

Há, sim, momentos perturbadores em “A Bruxa”: um bebê é sequestrado e usado num ritual de bruxaria; um menino é possuído (e, possivelmente, abusado). A forma como o pai, obcecado pela religião, fica repetindo para os filhos que eles são pecadores e irão para o inferno, não importa quão humilde sejam suas vidas, também é, no mínimo, desconfortável. Mas também é cansativo, verdade seja dita.

O maior mérito do longa de Eggers é revelar Taylor-Joy, uma atriz americana de aparência nórdica que conduz nosso olhar sobre a história, expressando toda a angústia e raiva da personagem diante das injustiças sofridas, mas mantendo certa inocência durante todo o percurso. O desfecho, bastante expressivo, pode tocar o espectador como sendo sinistro ou cômico, dependendo do olhar. Tire suas próprias conclusões.

 

 

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Boa Noite, Mamãe” explora o suspense na quebra da confiança entre mãe e filhos

Uma mulher e várias crianças entoam uma canção de ninar, sorrindo para as câmeras como num programa de TV antigo. São uma família feliz e desejam paz a todos. Bem que Lukas (Lukas Schwarz) e Elias (Elias Schwarz), que agora brincam sozinhos na floresta em torno de sua casa, gostariam que essa fosse a sua família, mas algo aconteceu… E eles não estão mais em paz.

Boa Noite, Mamãe” é um suspense austríaco que vem colecionando prêmios e indicações desde  2014 e só agora, dois anos depois, estreia nos cinemas brasileiros. Dirigido por Severin Fiala e Veronika Franz, ambos estreantes em longas de ficção, o filme conta a história de dois irmãos gêmeos que não conseguem reconhecer a mãe depois que ela retorna de uma cirurgia plástica.

O segredo de “Boa Noite, Mamãe” está em entregar os detalhes do contexto aos poucos, permitindo ao público montar o quebra-cabeça em seu próprio tempo. Por que ela fez a cirurgia? O que aconteceu entre ela e Lukas? O espectador mais atento poderá descobrir as respostas logo no início (o que prejudica um pouco a experiência), mas algumas questões continuarão martelando até o final.

Mesmo que não sejamos surpreendidos, há muito o que apreciar. A evolução dos personagens, ora vítimas, ora agressores, sempre inseguros quanto às intenções do outro, garante nervos tensionados o tempo todo. Para as crianças, é inaceitável que a mãe se mostre fragilizada; enquanto, para ela, também é doloroso que um filho recorra ao outro como figura protetora, anulando sua autoridade. O sadismo resultante desse conflito é material para longos pesadelos.

“Boa Noite, Mamãe” chega aos cinemas no dia 10 de março.

 

 

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “A Visita” é assustador e divertido, mas é preciso comprar a ideia

“O Sexto Sentido” à parte, a obra de M. Night Shyamalan tem sido muito coerente ao longo dos anos e, quase completamente, incompreendida. Em “A Visita”, novo thriller do diretor que chega aos cinemas neste mês, fica claro que este não é um cinema-padrão, mas sim um cinema aberto ao absurdo. É um universo onde a sofisticação do suspense se encontra com a rusticidade do trash (ou do “terrir”, gênero em que o terror é tão exagerado que provoca risos).

visita

É compreensível que o indiano Shyamalan cause estranhamento ao público ocidental, acostumado a extremos de realismo ou fantasia, mas raramente a uma combinação dos dois. As conclusões de seus filmes também não são das mais tradicionais: em “A Visita”, como em “Sinais”, “A Vila” e “Corpo Fechado”, o longa é narrado com um suspense extremamente intenso, mas, a partir do momento em que os segredos são revelados, o que se sucede são soluções improváveis e até um pouco estabanadas, que fazem o espectador se questionar se deveria ou não estar levando aquele filme a sério.

“A Visita” conta a história de dois irmãos – Becca (Olivia DeJonge), de 15 anos, e Tyler (Ed Oxenbould), de 13 – que decidem passar uma semana na casa dos avós, que nunca conheceram e com quem a mãe deixou de falar desde que fugiu para viver com o pai dos meninos. Becca, aspirante a diretora de cinema, aproveita a oportunidade para gravar um documentário sobre a família e, quem sabe, conseguir declarações que reaproximem os parentes.

É claro que as coisas não saem como planejado. Na verdade, a temporada com os avós se revela absolutamente assustadora desde o primeiro dia e, para aumentar a tensão, os irmãos tentam se convencer de que as situações que estão testemunhando (como o sinistro sonambulismo da avó) são apenas “coisas de idosos”, o que os faz esperar até que seja (quase) tarde demais.

Algumas cenas são propositalmente filmadas para incomodar, como um momento em que Becca está no escuro e, ao invés de direcionar sua câmera para o perigo, insiste em olhar para o outro lado. O próprio formato do filme – quase inteiramente mostrado sob a perspectiva da câmera da protagonista – causa desconforto.

Parte do êxito do filme está no fato de Shyamalan ter gravado com baixíssimo orçamento (cerca de US$ 5 milhões), o que combina com o caráter “caseiro” do vídeo de Becca, mas sem a tremedeira e a falta de capricho que outros filmes do gênero tiveram. Além disso, o diretor selecionou um elenco pouco conhecido, do qual se destaca a atriz Deanna Dunagan, que interpreta a vovó mais aterrorizante que o cinema já viu.

“A Visita” é um filme muito tenso, mas também muito divertido para quem comprar a ideia. Não é um terror para todos, afinal, apesar de assustador, também tem um “quê” de absurdo que pode não agradar. Mas vale a pena dar uma chance: você não vai tirar os seus olhos da tela.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.

Crítica: “Corrente do Mal” se distancia dos outros filmes de terror pela sutileza e tensão

Não é de hoje que o cinema de horror gosta de explorar a culpa dos adolescentes em relação ao sexo, lançando maldições sobre jovens casais e preenchendo a tela com mortes e perseguições. Em “Corrente do Mal” (no original, “It Follows”, algo como “a coisa segue”), não é diferente, mas a sutileza com que o tema é tratado faz do filme de David Mitchell uma peça rara.

corrente

“Corrente do Mal” é um daqueles filmes levemente supervalorizados, que ganharam pontos extras pelo boca-a-boca antes de chegar aos cinemas. Mas nem tudo é exagero e existe, realmente, algo que faz esta obra muito mais interessante do que qualquer horror com espíritos que tenha estreado nos últimos anos.

Em primeiro lugar, a história é bem simples e não há grandes mistérios para desvendar: depois de transar com um garoto, Jay (Maika Monroe) descobre – de forma bastante sinistra – que ele era perseguido por “algo” e que ela, agora, será perseguida até que “passe” a maldição ao próximo. Vocês sabem como.

Esse “algo” toma a forma de diferentes pessoas, frequentemente seminuas, que andam em linha reta encarando o amaldiçoado. Nenhuma outra pessoa consegue vê-las e, caso encostem na vítima, podem matá-la (num processo bastante sugestivo que só reforça a ideia da culpa).

Em segundo lugar, muito pouco é realmente mostrado. Ao contrário dos seus companheiros de gênero, “Corrente do Mal” nunca mostra seu vilão (é um espírito? É uma força emanada por alguém? Ele tem uma forma? Jamais saberemos) e quase nunca mostra os resultados de sua vilania – os mortos e feridos são raríssimos. O foco, aqui, é na tensão que sua existência provoca; no estresse de se sentir observado e caçado após um ato sexual. Pior: o ato se torna uma violência quando a vítima sabe que está passando a “maldição” ao parceiro. Como lidar com essa responsabilidade?

Paralelamente ao terror, uma segunda trama se desenrola em torno de Jay, envolvendo suas relações com a irmã, os amigos e alguns amores platônicos. Se encararmos a “entidade maligna” como uma metáfora, essa história secundária se torna a principal, mostrando as oscilações da vida amorosa da protagonista e seu distanciamento da infância.

Um dos grandes acertos do filme é a trilha sonora de Rich Vreeland, que dá um ar retrô à composição e faz pensar em clássicos como “A Profecia” e “Halloween”. A referência aos antigos filmes de terror se reforça na direção, que explora a sugestão no lugar do choque e do susto – há sempre a iminência de algo, mas nunca a certeza.

Como resultado, “Corrente do Mal” não é tão assustador de imediato, nem tão impressionante para quem está acostumado a muito mais sangue e efeitos. Este, porém, é um filme que permanece muito tempo após a sessão… Como nos velhos tempos.

Texto publicado no Guia da Semana em 16/07/2015.

Crítica: “Poltergeist – O Fenômeno” atualiza clássico dos anos 80

Às vezes, tudo o que os fãs esperam de um remake é que ele seja fiel ao original. No caso de “Poltergeist – O Fenômeno”, o diretor Gil Kenan (“A Casa Monstro”) segue essa regra à risca e recria todos os momentos clássicos, mas também se empenha em atualizar o terror para uma plateia muito mais acostumada a filmes com espíritos e criancinhas mediúnicas do que há 30 anos.

polter

Para quem não conhece o filme de 1982, escrito por Steven Spielberg, tudo começa quando uma família com três filhos se muda para uma nova casa. Lá, um grupo de espíritos agressivos (um Poltergeist, como chama o especialista) começa a mover objetos e fazer barulhos e, eventualmente, sequestra a criança mais nova, usando a eletricidade da casa para se comunicar (por exemplo, pela televisão).

Na nova versão, que chega aos cinemas nesta quinta (21 de maio), Sam Rockwell e Rosemarie Dewitt são os pais, enquanto Saxon Sharbino, Kyle Catlett e Kennedi Clements interpretam os filhos. Já Jared Harris vive um caçador de fantasmas que vem para socorrer a família, mais ou menos no papel que antes pertencera a Zelda Rubinstein.

A trama se mantém idêntica, com pequenas diferenças, mas a intensidade dos sustos é exponencialmente maior. No lugar da criatura esquisita que saíra do armário nos anos 80, Kenan nos oferece uma centena de corpos putrefatos, cobrindo as paredes e o chão de seu universo paralelo. A mão que sai da TV no original se transforma, aqui, num conjunto de palmas aparecendo do outro lado da tela e o palhaço que aterroriza o filho, no remake, ganha a companhia de vários outros. Por outro lado, algumas cenas icônicas ganham referências bem mais modestas, como a dos esqueletos no jardim.

Para novas audiências, o longa promete suprir a expectativa de sustos e arrepiar com sequências muito bem feitas, sem desperdiçar o roteiro de Spielberg. Para os mais nostálgicos, porém, o filme pode parecer apressado e menos sofisticado que o original. De qualquer forma, o medo é garantido.

Texto publicado no Guia da Semana em 20/05/2015.

MAMA: JESSICA CHASTAIN VOLTA AOS CINEMAS EM TERROR SOBRENATURAL

Certos filmes têm o poder de influenciar toda uma geração de cineastas. Pense na menininha rastejante de “O Chamado”, com seus cabelos escorridos e o clássico efeito de câmera dando aquela sensação de “TV com interferência”… Lembre-se também da garota de “O Grito”, com joelhos e cotovelos curvados em ângulos aracnídeos, e aquela voz gutural… O que dizer, então, de “A Bruxa de Blair”, que elevou galhos secos e cabanas escuras à condição de cenário máximo do terror americano?

mama

Bem, mas o que seriam dos filmes de gênero sem seus clichês? A novidade da semana é o terror “Mama”, protagonizado pela quase-vencedora do Oscar Jessica Chastain (que concorreu por “A Hora Mais Escura”, de 2012), produzido pelo consagrado diretor Guillermo Del Toro (que não dirigiu, mas deu seu aval ao argentino novato Andrés Muschietti) e, é claro, carregado em todos os clichês citados no início do texto.

A história é baseada no curta-metragem homônimo lançado em 2008 por Muschietti: nele, duas crianças tentam escapar de uma figura deformada, de cabelos dançantes e postura zumbítica (se é que existe tal palavra), a quem chamam de “mãe”. Na versão para o cinema, as meninas são Lilly e Victoria – filhas de um homem que perdeu tudo durante a crise econômica americana e, em desespero, matou os dois sócios e a esposa. Por pouco, não tirou a própria vida e as das garotas. Digo por pouco, já que alguém (ou algo) intercedeu por elas… Quando isso aconteceu, Lilly tinha um ano e Victoria, três.

O tio das meninas, Lucas (Nikolaj Coster-Waldau, o Jaime Lannister de Game of Thrones e futuro Sykes no sci-fi “Oblivion”), dedica os anos seguintes a procurá-las e a procurar o irmão (também vivido por ele) que não sabe estar morto. Durante cinco anos, portanto, elas vivem numa cabana abandonada num ponto ignorado do mapa, feito animais, na companhia apenas da criatura a quem chamam de “Mama”.

Para completar o quadro, Lucas vive com Annabel (Jessica Chastain, enfim), uma guitarrista imatura (por que rockeiros são sempre associados a adolescentóides egocêntricos?) com absolutamente nenhum instinto materno. A personagem poderia ser um fracasso, não fosse pelo bom senso de Chastain, que imprime humanidade na futura madrasta das meninas, a ponto de sentirmos pena e torcermos pela sua evolução, que acontece no momento certo, na medida certa.

Apesar de previsíveis, os sustos são bem dosados e é possível se interessar realmente pela trama entre uma aparição de “Mama” e outra. Há, sim, os momentos de exagero: escrever “mamamamama” no monitor da sala de hospital foi desnecessário, fazer a criatura “possuir” e, depois, transportar milagrosamente o corpo da tia de uma casa para a outra também. Mas são pequenos detalhes que podem agradar a uma parcela do público e até passar despercebidos pela outra. O final é surpreendente e ajuda a segurar a aura de terror que vinha se criando até ali: Muschietti não entrega tão gratuitamente o velho desfecho feliz – parece fazer concessões, mas mantém o controle até onde pode. Bom começo para alguém que conseguiu chamar a atenção do diretor de “Labirinto do Fauno” com um vídeo na internet.

“Mama” estreia nesta sexta, dia 5 de abril, nos cinemas.