Um Lugar Silencioso (John Krasinski, 2018)

Você já deve ter visto John Krasinski em algum lugar. Se é fã de “The Office”, foi lá. Se não, como eu, talvez tenha sido numa comédia romântica genérica, onde ele chamava a atenção por não ser o galã que você esperaria num filme do gênero: “Licença Para Casar”, “Simplesmente Complicado” ou “O Noivo da Minha Melhor Amiga”, ele esteve nos três. Continuar lendo “Um Lugar Silencioso (John Krasinski, 2018)”

Una (Benedict Andrews, 2016)

una f

Já faz mais de 60 anos que Vladimir Nabokov publicou seu livro mais famoso e mais de 50 que Stanley Kubrick o transformou numa das obras mais polêmicas da história do cinema. “Lolita”. A infame história de amor entre um homem adulto e uma menina adolescente. Sedutora, culpada, ninfeta. Saltamos, então, para 2017 e para o burburinho na saída da sessão de um filme chamado “Una”, com Rooney Mara e Ben Mendelsohn… E é como se tempo nenhum tivesse passado.

Una” tem seus problemas e eles são numerosos, mas as expressões de repulsa nada tinham a ver com isso. Como “Elle”, que às vésperas do Oscar causara alvoroço ao arriscar uma perspectiva mais “acinzentada” sobre um estupro, “Una” também tenta humanizar um tema inaceitável: o abuso de uma menor.

O filme, baseado numa peça chamada “Blackbird”, de David Harrower, traz Mara no papel do título. Ela é uma mulher que, 15 anos depois de ser estuprada pelo vizinho e passar por um processo judicial que o levou à cadeia por apenas quatro anos, decide confrontá-lo em seu local de trabalho e descobre que ele mudou de nome, apagou seu passado e vive sem precisar lidar com as consequências de seu crime.

una a

Isso, porém, é o que a consciência do público traz para o filme e não o que, de fato, se desenha na tela. O que vemos é um casal apaixonado e ingênuo que, diante da intervenção educadora da sociedade, percebe que seu relacionamento foi um erro e desenvolve um ódio mútuo que, eventualmente, se transfigura de volta à forma de atração. É, em outras palavras, um romance proibido entre uma menina de 13 e um homem de, sabe-se lá, 30 e poucos.

Mas acalmem-se. Ao que tudo indica, isso era para ser apenas uma superfície permeada por uma intenção muito mais questionadora. Uma tragédia, talvez, sobre a menina que nunca mais conseguiu se desprender de uma ilusão.

Infelizmente, essa intenção não transparece com clareza suficiente, talvez pela inexperiência do diretor Benedict Andrews. O texto, afinal, acerta ao narrar os eventos do passado sob a perspectiva questionável dos dois envolvidos (um, manipulador; a outra, iludida), mas Andrews toma a decisão errada ao colocar essas narrativas na forma de flashbacks, sem nada que as coloque em cheque além do desgosto da audiência. O resultado é que o filme pode se passar por apologético a um crime indefensável, mesmo que não seja.

una g

Outra carta desperdiçada no filme é o ator britânico Riz Ahmed (“Rogue One: Uma História Star Wars”), que parece existir apenas para cumprir uma função prática de roteiro. Intenso e carismático, ele assume o papel de um funcionário do ex-convicto que tem um contato breve com Una e acaba ajudando-a a se encontrar com ele novamente. Mas ele não tem uma história, não tem direito a uma reação (mesmo expressando desconfiança), não tem uma influência real nos personagens.

Sua função, como tantas outras coisas no filme, poderia ter sido muito mais relevante se a obra se prolongasse por mais 15 ou 20 minutos. Curta demais, ela deixa a sensação de estar inacabada e suas pontas soltas fazem com que o diretor pareça inseguro. O público, então, toma a liberdade de amarrá-las como preferir e isso, diante de um tema como este, pode ser, simplesmente, catastrófico.IFrame

Una” estreia nos cinemas no dia 13 de abril.

 

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.

T2 Trainspotting (Danny Boyle, 2017)

Não sei vocês, mas ainda me lembro da sensação de ver “Trainspotting” pela primeira vez. Foi quase traumático. Não conseguia desgrudar os olhos da tela e, ao mesmo tempo, mal conseguia olhar: era tudo muito cru, muito explícito, muito repulsivo, e até hoje a cena do bebê me arrepia. O que Danny Boyle nos mostrava, sob uma narrativa consciente e uma edição sedutora, eram cinco amigos destruindo suas vidas e seus relacionamentos em busca de mais uma picada, ou mais uma briga. E eles não tinham objetivos. Eles não tinham moral. Eles simplesmente não se importavam.

Trainspotting” foi um choque para a época, mas é difícil imaginar um filme como esse sendo lançado hoje em dia. Ele pode ser exibido nos cinemas, como um clássico “cult”, mas uma obra original falando de drogas (ou qualquer outro tabu) com a mesma cara-de-pau? Jamais seria distribuída. Não nesta década.

Se você duvida, então vá conferir a sequência “T2 Trainspotting”, que estreia nos cinemas no dia 23 de março. Muito vagamente baseada no livro seguinte de Irvine Welsh, “Porno”, “T2” conta o que aconteceu aos quatro sobreviventes 20 anos depois: um teve um filho, mas se afastou pelas drogas; outro herdou um pub e continuou sonhando com um “grande negócio”; outro ficou preso todo esse tempo e o último, ironicamente, se tornou a própria definição do homem comum que “escolheu a vida” e que o quarteto tanto abominava – o homem correto com um emprego estável e uma saúde impecável, ou quase.

O motivo pelo qual continuamos comprando ingressos para sequências como esta é que é sempre bom rever personagens tão fortes quanto Renton, Sick Boy, Spud e Begbie (além de participações pontuais de Diane e Gail, a namorada de Spud e a menor que se envolve com Renton, agora advogada). Queremos saber como eles envelheceram, o que aprenderam e, acima de tudo, queremos saber se vão se reconciliar após a traição que encerrou o primeiro longa.

O filme nos dá todas essas respostas, mas evita fazer novas perguntas. Quando “rejeitar a vida” já não faz mais sentido, o que resta para esses quatro rebeldes? Quando “recomeçar” se torna um conceito possível, como encontrar seu lugar num mundo que você simplesmente se recusou a conhecer? Isso tudo vem à mente do espectador, especialmente àquele que tem o primeiro filme fresco na memória, mas não vem à tela. Não com a acidez com que deveria.

“T2” acerta ao trazer de volta todo o elenco original e, assim, promover novos encontros épicos entre eles, mas erra ao olhar para eles com uma lente tão unidimensional. Begbie (Robert Carlyle) agora é o vilão, Renton (Ewan McGregor) é o mocinho, Spud (Ewen Bremner) foi reduzido a inocente cômico e Sick Boy (Jonny Lee Miller), ao melhor amigo. Para quem não se lembra, eles não eram nada disso e o roteiro se equilibrava muito bem entre cada um para não eleger heróis. Mas este é o século XXI e é preciso ter heróis.

t2

Como uma sequência para fãs, é verdade que o filme tem tudo: direção de Danny Boyle, roteiro de John Hodge, cenas praticamente recriadas do original e o velho estilo punk-escocês irresistível. Mas, entre “Trainspotting” e “T2”, Boyle parece ter perdido a ousadia. Ao invés de inovar mais uma vez na forma, ele recorre a antigos recursos que deram certo no primeiro filme (como as imagens congeladas e a trilha musical perfurante), mas o faz sem critério. O resultado são frames paralisados em momentos errados, silêncios mal colocados e uma trilha que mais parece uma homenagem ao passado do que uma provocação. Aliás, talvez a intenção seja justamente essa: uma grande homenagem ao passado, um banho de nostalgia, um “passeio turístico pela sua juventude”, como diz um dos personagens na melhor cena do filme.

Um passeio pela juventude, sem a irresponsabilidade inerente a ela. Uma viagem aos anos 90, a bordo do asséptico trem dos anos 2010. Cada um, o retrato do seu tempo.

 

Publicado originalmente no site Guia da Semana.

A Bela e A Fera (Bill Condon, 2017)

Tudo o que eu queria hoje era estar contando a vocês o quanto “A Bela e A Fera” me emocionou. Queria estar, neste momento, revivendo o arrepio que não senti, enxugando as lágrimas que não vieram, exaltando delicadezas e ousadias que jamais aconteceram. Ao invés disso, estou aqui para lhes dizer que o filme mais esperado do ano, o conto-de-fadas mais amado do momento, a realização dos sonhos dos fãs de Emma Watson, é apenas mais um belo, grandioso e satisfatório remake da Disney.

Não me interpretem mal – é um lindo filme. Algumas cenas, como o número musical de abertura, são um espetáculo para rever em câmera lenta. Mas, para uma produção 26 anos mais moderna e sete vezes mais cara do que a animação que a inspirou (o clássico de 1991, não tanto o conto do século XVIII), “A Bela e A Fera” está longe de conseguir competir com aquela.

É claro, são naturezas diferentes: uma animação romântica; uma aventura fantástica em CGI. Mas a sensação é a de que a Disney está, mais uma vez, segurando o freio em obras que deveriam estar decolando. Sim, os números musicais são ótimos – mas se parecem demais com produções da Broadway. Sim, os objetos falantes estão bem feitos e devem ter custado horrores – mas seus movimentos, cujo exagero funciona bem numa animação, aqui parecem ligeiramente falsos (ou assustadores) ao lado de Bela. (Um problema compensado, é preciso dizer, pelas atuações brilhantes do elenco de dublagem, que inclui Ian McKellen, Ewan McGregor e Emma Thompson.) A questão é que, ao invés de arriscar novas linguagens para resolver esses problemas, a Disney prefere jogar seguro e, consequentemente, não impressiona.

bela e

Ok, mas e as inovações no conteúdo? Sim, Bela agora é uma inventora – mas o único momento em que isso é sugerido é quando ela adapta um barril e um cavalo para usá-los como lava-roupas, ainda no vilarejo. No castelo, essa criatividade desaparece e nunca mais ouvimos falar dela. Além disso, agora temos um personagem quase abertamente gay (na verdade, são dois), mas o fato de isso ser revolucionário é simplesmente deprimente.

Talvez o que falte aqui seja a sutileza. Se o roteiro tinha a intenção de se mostrar feminista, por exemplo, não era preciso incluir diálogos inteiros explicando como Bela seria rejeitada caso não tivesse pai ou marido; ou como seus conterrâneos têm “mente pequena” por viverem numa “cidade pequena”… Tudo isso já estava claro, sem que precisássemos soletrar. O mesmo vale para as novas canções, que introduzem trechos da história que ainda não haviam sido contados – como o passado da Fera e a infância de Bela. Estes poderiam ser interessantíssimos, mas, óbvios demais, acabam não acrescentando muito aos personagens ou à história.

bela b

Quem merece destaque (e arrisco dizer, é a melhor surpresa do filme) é Dan Stevens no papel de Fera. Pessoalmente, sempre achei que as versões em live action deste conto pecavam na representação do monstro, mas, aqui, finalmente vi o personagem ganhar vida, mesmo sob todos aqueles pelos virtuais. A Fera de Stevens (“Downton Abbey” e “Legion”) é sarcástica, tem o mesmo lado infantil que a da animação, expressa seus sentimentos com mais frequência e até protagoniza um número musical sozinho (certo, talvez este não seja seu melhor momento).

O mais importante, porém, é que ele lê tanto quanto (ou até mais que) Bela. Os dois, desta vez, não apenas se apaixonam por viverem no mesmo espaço, mas trocam experiências, leem juntos e viajam juntos para outros mundos e lugares. Bela finalmente encontrou seu par.

bela f

Quem também se encaixa perfeitamente em seus papéis são Luke Evans e Josh Gad, que, respectivamente, interpretam Gaston e seu capacho LeFou. As cenas dos dois são provavelmente as mais naturais e divertidas de todo o filme – mas é uma pena que Gaston tenha um desfecho tão insosso.

A Bela e A Fera” integra todo um projeto da Walt Disney de transformar seus clássicos animados em filmes com atores, alguns dos quais vão ganhar sequências e spin-offs. A proposta tem dado certo, desde que “Malévola” arrecadou 750 milhões de dólares em 2014, “Cinderela” chegou a meio bilhão em 2015 e “Mogli – O Menino Lobo” arranhou a marca de 1 bilhão em 2016. Dos quatro, este talvez seja o mais bem acabado e não há dúvida de que superará todos os outros nas bilheterias. Resta saber se os próximos terão um pouco mais de coragem para realmente emocionarem, como nos velhos tempos.

Publicado originalmente no site Guia da Semana.

Kong: Ilha da Caveira (Jordan Vogt-Roberts, 2017)

kong g

Será que tudo o que é clássico precisa ser intocável? Os puristas que me perdoem, mas “Kong: A Ilha da Caveira” prova muito bem que não. Sem deixar de lado as referências devidas, a megaprodução do ainda desconhecido Jordan Vogt-Roberts (“Os Reis do Verão”) se arrisca a transformar a história e fazer de Kong não um monstro frágil e incompreendido, mas um rei de fato.

Ironicamente, o título “King” desaparece aqui, para dar mais ênfase ao reino – a tão misteriosa Ilha da Caveira, que, pela primeira vez, deixa de ser localizada no oceano Índico para se estabelecer nas águas turbulentas do Pacífico. A novidade não é mero capricho: ambientado nos anos 70, imediatamente ao fim da Guerra do Vietnã, o filme costura o contexto da Guerra Fria com a Segunda Guerra Mundial promovendo um encontro entre EUA e Japão no território neutro de Kong, bem como um encontro entre passado e presente (ou passado e passado, para os espectadores) que coloca todos esses conflitos em perspectiva.

Tudo, na verdade, começa com a guerra: Bill Randa (John Goodman), um cientista interessado em provar a existência de criaturas que vivem em “bolhas” sob a superfície, se aproveita da rivalidade com a Rússia para conseguir financiamento para uma expedição, alegando que “os EUA vão querer chegar primeiro a uma ilha inexplorada”. Juntam-se a ele um pequeno batalhão do exército americano (comandado, obviamente, por Samuel L. Jackson), uma fotógrafa (Brie Larson), uma dupla de cientistas (Corey Hawkins, de “Straight Outta Compton”, e a estrela chinesa Tian Jing) e um especialista em navegação (Tom Hiddleston).

É claro que Jackson será algo como o representante do Mal na equipe, tendo sido frustrado pela retirada dos EUA do Vietnã, enquanto o personagem de Hiddleston, James Conrad, faz as vezes de herói. O maniqueísmo, entretanto, não chega a criar raízes, já que o foco não são eles – é a ilha e seus monstros, muito mais poderosos do que um bando de formiguinhas humanas querendo invadir seu espaço.

Além disso, apesar de Conrad ter uma postura de liderança, a personagem de Larson, Mason Weaver, tem um protagonismo equivalente, jamais assumindo o papel da donzela em perigo que tornou “King Kong” tão popular nos anos 30. No lugar, Vogt-Roberts faz apenas uma referência sutil à relação entre ela e o gorila, deixando no passado a máxima de que “a bela matou a fera” para adotar algo mais próximo de “os humanos conheceram a fera”.

Essa também é outra grande (e corajosa) novidade do filme: o objetivo da expedição não é sequestrar ou matar Kong, mas sim levar provas de sua existência para que outras expedições sejam feitas e outros seres como ele sejam mapeados. O filme, em outras palavras, não sai da ilha, e esse é seu maior presente para os fãs. Finalmente podemos ver em detalhes a relação do Rei com as criaturas ao seu redor (o que inclui animais gigantes e um déja-vu sinistro de “Querida Encolhi as Crianças”), com a tribo nativa (agora mostrada como sábia e pacífica, e não mais como primitiva e violenta) e mesmo com os invasores, mas num contexto em que ele tem o controle.

Esse ponto de vista coloca Kong estrategicamente (para a Legendary, dona de títulos como “Godzilla” e “Círculo de Fogo”) como apenas uma criatura num contexto em que se assume que há muitas outras. Para os fãs, as consequências disso são óbvias – inclusive, a organização secreta Monarch, apresentada pela primeira vez em 2014 no “Godzilla” de Gareth Edwards, é citada. E, para quem se animou com a ideia, pode valer a pena esperar pela cena pós-créditos.

Tudo isso mostra como “Kong: A Ilha da Caveira” se posiciona em relação às origens – com reverência, mas também com consciência e ambição. Esse, porém, está longe de ser o maior trunfo do filme: na verdade, o que faz de “Kong” um sucesso é o fato de ele ser um filme divertido, atraente e assustadoramente bem feito.

A aventura está ali, os monstros estão ali desde o início, esbanjando monstruosidade, e há humor, ação e suspense nas doses certas. A fotografia se inspira em clássicos de guerra, como “Apocalypse Now”, e abusa de takes com pôr do sol, fogo e poeira. Kong, em si, é um escândalo: imenso como jamais se viu, coberto pelas texturas certas e com apenas o toque de humanidade necessário aos olhos. A trilha sonora e os cortes rápidos também ajudam a dar ritmo, lembrando em alguns momentos o tom de “Rua Cloverfield, 10” (que também tem John Goodman no elenco).

“Kong”, enfim, é um tiro certo nos corações dos fãs – seja para os amantes do personagem ou os devotos do cinema “de monstro”. Atualizado para um novo contexto e um novo público, o gorila mais icônico de Hollywood pode voltar a ocupar seu espaço de honra no imaginário do público, sem medo de parecer piegas, sexista ou infantil. Ele, agora, é um monstro de respeito.

 

Publicado originalmente no site Guia da Semana.

Internet – O Filme (Fillipo Capuzzi, 2017)

Finalmente aconteceu. Se tudo o que está no auge eventualmente chega aos cinemas, já era hora de o Youtube e seus Youtubers invadirem a telona com os dois pés na porta. Todos juntos. Num mesmo filme.

Apesar da promessa, “Internet – O Filme” não é tão apocalíptico quanto certas tentativas anteriores (alô, Kéfera!) e até consegue divertir, mas a tradição brasileira de ofender para fazer humor está ali, firme e forte. Gordos, gays, anões, idosos e mendigos continuam sendo motivo de piada, pelo simples ato de existirem. (E não será uma vingança no final que mudará isso.)

Idealizado por Rafinha Bastos e dirigido por Fillipo Capuzzi, o filme se passa numa convenção de web e conta sete histórias paralelas, protagonizadas por estrelas das redes sociais. Um acerto da produção foi colocar o elenco youtuber (e snapchatter) interpretando personagens fictícios, às vezes parecidos com suas personas da web, às vezes nem tanto. Desta forma, o filme se livra de ser uma grande publicidade coletiva e se torna algo mais próximo de uma grande piada interna – talvez interna demais para agradar a um público mais amplo.

_aa_2860

As histórias bem que tentam levantar algum tipo de discussão sobre a internet e a ficcionalização da vida real – mostrando um casal que engata apenas porque seu beijo viralizou, ou outro que adota um cachorro para explorá-lo como uma marca – mas a verdade é que o filme não quer assumir essa responsabilidade. A cada verdade jogada na cara, seus personagens respondem com um dar de ombros. “Não me importo se tudo isso é falso”, parece declarar a obra. “Não me leve tão a sério”.

O problema é que, sério ou não, o que vem depois dos créditos não é muito mais do que uma risadinha seguida por uma sensação de vazio… Afinal, o que esse filme me trouxe que uma esquete cômica no Youtube não traria?

John Wick: Um Novo Dia Para Matar (Chad Stahelski, 2017)

Existem filmes de ação… E existe John Wick. Quase uma paródia do gênero, a franquia iniciada em 2014 traz um herói nem-tão-musculoso e nem-tão-heroico envolto num universo próprio de mafiosos e assassinos, organizados impecavelmente por contratos, regras e moedas próprias. Mais do que conquistar o público na base de tiro, porrada e bomba (abundantes, diga-se de passagem), a saga prende pelo contexto e, lentamente, começa a formar uma mitologia particular, com potencial para se expandir numa franquia duradoura.

Keanu Reeves, quem diria, é o protagonista que dá nome à série. Fiel à sua linha de atuação pouco expressiva, quase cínica, mas proficiente em coreografias de artes marciais, Reeves encarna com gosto o assassino John Wick – um homem que, anos atrás, abandonou o mundo do crime para se dedicar à vida civil com sua esposa. Depois que ela morre, um ataque repentino ao seu carro e sua cachorrinha o obrigam a voltar à ativa, em busca de vingança.

Isso tudo acontecera no primeiro filme e, agora, chega aos cinemas o segundo episódio, sob o subtítulo jamesbondiano “Um Novo Dia Para Matar”. Desta vez, Wick será chantageado a voltar ao “trabalho” e realizar mais um assassinato, como pagamento de uma dívida. Sem escolha, ele aceita o contrato, mas uma trapaça o coloca na mira de outros assassinos como ele.

wick-f

A trama do segundo filme não é tão enxuta quanto a do primeiro e a própria duração do filme (20 minutos mais longo) denuncia a intenção de dar mais fôlego à franquia. De fato, agora podemos ver com mais detalhes o funcionamento interno da máfia e o modus operandi do anti-herói (que vive algumas cenas dignas dos agentes de “Kingsman – Serviço Secreto”, vestindo ternos impecáveis e escolhendo armas como se fossem vinhos). O filme também capricha mais no lado cômico, especialmente ao mostrar um código de civilidade entre os assassinos – que, proibidos de brigarem em certos ambientes, pausam a ação para tomar um drinque.

Pela própria ambição, “John Wick: Um Novo Dia Para Matar” não tem o mesmo ritmo ou o mesmo foco de “De Volta Ao Jogo” (título do primeiro filme, que abriu mão do nome “John Wick” no Brasil). Enquanto aquele ia direto ao ponto – um assassino vai atrás de vingança e a cumpre, passo a passo –; este se distrai em intrigas paralelas e tenta emplacar novos personagens, sem sucesso. Laurence Fishburne até faz uma participação (bastante confusa, infelizmente), relembrando os velhos tempos de “Matrix”; e Ruby Rose (xXx: Reativado) tem um papel esquecível.

wick-a

Se a relação com a cadela fora muito importante no longa anterior, aqui o novo parceiro de Wick parece servir apenas como acessório e é deixado de lado a maior parte do tempo. Ainda assim, é um alívio ver que mantiveram esse elemento, que quebra tão bem a tensão e de certa forma passou a definir o personagem. Quem não retorna são os carros magníficos que desfilaram no primeiro filme, movido justamente pelo roubo de um Mustang 1969. No novo filme, Wick troca o volante pelo transporte público, por táxis, trens e suas próprias pernas. Suas armas também são mais elaboradas, apesar de ele parecer se entender melhor, mesmo, com a velha pistola.

John Wick: Um Novo Dia Para Matar” é dirigido por Chad Stahelski, que trabalhou como dublê e coordenador de artes marciais de Reeves em “Matrix” e estreou na direção com “De Volta Ao Jogo”. Derek Kolstad também retorna ao roteiro. O filme estreia nos cinemas no dia 16 de fevereiro.

TOC: Transtornada, Obsessiva, Compulsiva (Teo Poppovic e Paulinho Caruso, 2017)


Comédia nacional é sempre um assunto delicado. Há quem ame, há quem odeie e há quem não assista nem amarrado. Normalmente, me encaixo na última categoria (inclusive para as estrangeiras), exceto pelo fato de que é minha obrigação assistir e, vez ou outra, acabo me surpreendendo.

Esse foi o caso com “TOC: Transtornada, Obsessiva, Compulsiva”, longa de Paulinho Caruso e Teodoro Poppovic que estrela Tatá Werneck, Vera Holtz e Daniel Furlan, com participações de Luís Lobianco, Bruno Gagliasso e Ingrid Guimarães. O filme estreia no dia 2 de fevereiro e chama a atenção por trazer um humor inteligente, autoconsciente e inesperadamente cinéfilo.

“TOC” conta a história de Kika K. (Werneck), uma atriz que alcança o ponto alto de sua carreira, mas descobre que não está feliz. Enquanto ela tem pesadelos envolvendo a próxima novela das 20h – a distopia futurista Amorgeddon, o Apocalipse do Amor (melhor título ever) –, sua agente (Holtz, brilhante) contrata um ghost writer para escrever uma “autobiografia” sua e lança o livro quase sem avisá-la.

SET: QUARTO FELIPÃO; FNAC

O livro é o estopim para a crise de identidade de Kika. Afastada da autoria da própria biografia (porque, segundo sua agente, ela “não teria tempo para escrever”), a atriz começa a questionar sua carreira, seu relacionamento vazio com o namorado-galã (Gagliasso) e até sua relação com a mãe (Patricya Travassos), que não vê na vida perfeita da filha a possibilidade de tristeza.

Essas ideias a levam a procurar o verdadeiro autor do livro, que deixara uma mensagem enigmática durante uma tarde de autógrafos. Nessa busca, ela acaba conhecendo o simplório vendedor da livraria (Furlan), com quem vive uma amizade sincera e protagoniza uma das cenas mais fofas dos últimos anos, dentro de um karaokê na Liberdade.

Para quem está se perguntando onde se encaixa o transtorno do título, de fato ele está longe de ser o tema principal. O que parece é que a ideia de retratar a doença foi o que deu origem ao filme (idealizado por Werneck), mas, ao longo do projeto, a questão da infelicidade acabou ganhando mais força. O TOC, então, aparece mais como uma expressão desse desequilíbrio interno do que como a causa para os problemas da personagem.

fb_15-0103584-red

Eu disse que o filme tem um lado cinéfilo e não foi só porque a protagonista é uma atriz. O roteiro explora bem a realidade audiovisual brasileira (citando, por exemplo, o prestígio do cinema autoral pernambucano em contraste com a descrença com a comédia e a TV aberta) e se permite arriscar formatos diferentes. Nos sonhos de Kika, por exemplo, um cenário apocalíptico acinzentado toma conta, lembrando o deserto sujo e primitivo de “Mad Max”, enquanto seus sentimentos mais intensos, como a ansiedade, são representados por colagens rápidas de imagens simbólicas, remetendo discretamente ao cinema surrealista.

Outra qualidade que separa “TOC” de outras tantas comédias brasileiras é o fato de que este é um longa-metragem de verdade (com um enredo coerente, desenvolvimento de personagens e foco) e não um apanhado de esquetes emprestadas da televisão. O humor também não está em todas as cenas, mas distribuído ao longo do filme, mais sutil em alguns momentos, mais escrachado em outros. São esses últimos que podem decepcionar quem vinha acreditando na promessa de um cinema nacional sem piadas-de-quinta-série ou palavrões gratuitos – mas a balança, no final, acaba pendendo para o lado positivo. Finalmente.

Jackie (Pablo Larraín, 2016)


É interessante como nossas certezas são muitas vezes construídas sobre as narrativas dos outros. Quase não percebemos, mas estamos o tempo todo formando opiniões com base no que lemos ou ouvimos, sem poder distinguir entre o que é realidade e o que são ficções, construídas minuciosamente por quem teve a sorte de poder contar sua versão da história.

Foi essa ideia que me fisgou enquanto assistia a “Jackie” – um filme de Pablo Larraín que eu jurava ser apenas uma biografia romantizada da famosa primeira-dama do governo Kennedy. Obviamente, não era. “Jackie”, aliás, nem narra propriamente a história de Jacqueline Kennedy (Natalie Portman), mas, sim, a história de seu marido tal qual narrada por ela. Mais especificamente, é a história da morte de seu marido tal qual narrada por ela.

Perdoem o excesso de “histórias”, mas o filme é justamente sobre isso: sobre a construção de narrativas em torno da vida real. Duas narrativas, para ser mais exata. A primeira é a que Jackie entrega a um jornalista (Billy Crudup), dias após o enterro de John F. Kennedy, sobre seus sentimentos diante do choque de ter seu marido assassinado ao seu lado e do confronto com os homens que queriam continuar seu jogo o mais rápido possível dentro da Casa Branca. A segunda é a que ela entrega ao público, tecendo um mito em torno do presidente por meio de um gigantesco espetáculo fúnebre, um programa patético de TV e uma anedota envolvendo um disco da peça Camelot.

jackie-d

O interessante do longa de Larraín (“No”, “O Clube”) não é o que Jackie conta, mas sim o que Portman revela entre um sotaque inocente, um maço de cigarros e a expressão de quem sabe exatamente o que está fazendo. Em certo momento, ela informa ao entrevistador que ele só publicará o que ela autorizar, e chega a pegar seu caderno nas mãos para rabiscar as anotações – mas nem por isso deixa de lhe contar toda a verdade. Ela o manipula com o sorriso confiante de quem já fez isso diversas vezes durante o curto mandato de seu sobrenome.

Quem lê isso pode pensar que o filme faz um desserviço à personagem, retratando-a como uma vilã, mas não é tão simples. Pela primeira vez, Jacqueline Kennedy se revela uma personagem completa, complexa e com um papel relevante na história americana, mesmo que desempenhado nos bastidores. Se o presidente tomou as decisões oficiais que moldaram o país, ela moldou sua imagem para que essas decisões fossem interpretadas da forma mais conveniente. A Casa Branca foi reformada não por capricho, mas para passar uma mensagem. O caixão foi carregado pelas ruas com todas as pompas sob o risco de novos atentados não por vaidade, mas para criar uma lenda. Para contar uma história que não seria esquecida tão facilmente… Ou, pelo menos, é essa a história que Larraín escolheu contar.

jackie-b

“Jackie” estreia no Brasil no dia 2 de fevereiro.

“La La Land – Cantando Estações”

la-la-e

Quem diria que, em pleno 2017, estaríamos falando seriamente sobre um filme cuja sequência inicial envolve dezenas de bailarinos dançando em cima de carros, cantando alegremente e até colocando as mãos para o alto como se estivessem num musical da Broadway ou numa cena de Grease… O fato é que talvez não estaríamos se esse filme não tivesse sido criado por um jovem apaixonado chamado Damien Chazelle.

Para quem não se lembra, Chazelle foi a mente perturbada por trás de “Whiplash”, concorrente pequeno do Oscar 2015 que logo se tornou gigante pelo boca-a-boca e talvez tenha sido o filme mais unânime daquele ano (pelo menos eu não me lembro de ter ouvido ninguém dizer que não gostou – apenas, talvez, que não tenha assistido).

Agora, seu novo projeto não tem mais a vantagem do anonimato e chega aos cinemas carregado de expectativas – o que, curiosamente, parece ter funcionado muito bem para Chazelle. Seu “La La Land”, ao contrário de “Whiplash”, não pretende ser pequeno. Seu objeto não é mais o artista solitário, ou uma jornada pessoal rumo à maestria, mas sim a indústria em torno dele. É como se o garoto iniciante tivesse alcançado a perfeição e, agora, buscasse seu lugar de direito. É como se, agora, ele tivesse que descobrir o que fazer com sua arte (e com sua vida).


O filme tem como protagonistas um pianista de jazz (Ryan Gosling) que sonha em poder tocar livremente, sem perder o emprego a cada improviso, e uma atriz iniciante (Emma Stone) que serve cafés dentro do complexo da Warner, mas não consegue ser levada a sério nas audições. Entre um tropeço e outro, os dois se encontram, se conhecem, e descobrem os sonhos um do outro.

Então, assim como a velha Hollywood que o inspira, “La La Land” se revela grandioso. Na verdade, gigantesco: o filme parece absorver toda a expectativa depositada nele e devolver em dobro, em excessos obsessivamente calculados e geometricamente perfeitos. Desde o ritmo musical presente nos gestos, nos diálogos e especialmente na montagem de Tom Cross (que também trabalhou em “Whiplash”) até a delicadeza dos cenários e dos figurinos, mistos de uma memória nostálgica e um mundo de sonhos, “La La Land” pode se gabar de ser uma produção impecável.

la-la-b

O perfeccionismo técnico, porém, não parece ter sido suficiente para garantir a mesma imunidade de “Whiplash“. Otimismo, afinal, sempre gera desconfiança. Há quem diga que toda a homenagem a Hollywood (as referências a clássicos dos anos 50 e 60 estão por toda a parte), o tom romântico (mesmo que melancólico) e o próprio formato de musical sejam formas de escapismo, como se o filme evitasse lidar com as dificuldades do mundo real. Essa, entretanto, me parece uma acusação extremamente simplista.

La La Land” pode não ser um filme político, mas nem por isso é vazio. Sua mensagem é tão sincera e necessária quanto qualquer outra – talvez até mais, em tempos de desesperança generalizada. Ele diz: “dane-se o mercado”. E então se encaixa no mercado, transformando-o. Ele ensina que é preciso acreditar na sua arte ou o resto do mundo deixará de acreditar. Se isso não é um manifesto pela esperança, então não sei o que é…

A verdade é que, ao conquistar o mundo com um musical à moda antiga, quase ingênuo diante de dramas viscerais como “Moonlight” e “Animais Noturnos”, Chazelle prova que, sim, tudo é possível. Que, não importa o quão tolo pareça seu sonho, ele não é irrelevante nem ultrapassado. “Pessoas valorizam o que é feito com paixão”, pondera a personagem de Emma Stone em certo momento, como se falasse do próprio filme… E “La La Land” é isso: pura e sincera paixão.