Mulheres não fazem poesia

Mulheres não fazem poesia. A poesia meio que brota delas como mato descontrolado, invadindo o espaço inóspito feito bandeirante civilizador. Às mulheres, não cabe escolha senão aceitar, agradecer. Recitar tal qual caixa de som.  Continuar lendo “Mulheres não fazem poesia”

Perdoe minha paranoia

Perdoe minha paranoia, mas eu não vou sair agora. 

Tenho guardado uma coleção de abraços para quando tudo isto acabar. É uma gaveta grande que guarda carinhos e cafés compartilhados e longas caminhadas, e passeios sem rumo e churrascos no sol; mas tenho outra, ainda um pouco vazia, que carrega o sonho de conversas mais leves sobre como aquele tempo foi louco e passou. Lembra quando a gente não aguentava mais ficar em casa? No fim aguentamos e ficamos seguros, e passou. Que bom. Continuar lendo “Perdoe minha paranoia”

Mestre de coisa nenhuma

Voltei a estudar há mais ou menos três meses e, há três meses, tenho convivido com a mesma pergunta: por que mestrado, afinal? E, já que estamos aqui… Por que Letras, hein?  Continuar lendo “Mestre de coisa nenhuma”

Pra você que está chegando agora

Não ligue para o que eles dizem,

O mundo é melhor do que isso.

Pra você que traz na bagagem um bom esperneio e um sorriso sem dentes,

Chore, chore toda a sua indignação sincera,

Mas saiba que vamos fazer de tudo para que a sua risada seja mais alta.

E vamos rir juntos até você se cansar e dormir. Continuar lendo “Pra você que está chegando agora”

Cinco poemas para uma noite quente

1.

É que preciso de arte, você vê?

Preciso dela como preciso de comida (e você bem sabe o quanto preciso de comida…). Preciso de palavras, imagens, cores, de acordes dissonantes e temperos raros. Preciso daquilo que brota sem motivo, e que não serve para nada. Eu me alimento de nadas.

Cultivo em mim uma pequena plantação de inutilidades. Continuar lendo “Cinco poemas para uma noite quente”

Liberdade é um caminho sem volta

Primeiro foram os sutiãs. Bati o olho num modelito sem aro, sem bojo, sem quase nada, e foi amor à primeira vista… Pensei nas pontadas que já tinha levado quando o ferro se desprendera do pano, pensei no formato estranho que meus seios ganhavam quando os obrigava a se encaixar num semicírculo perfeito, pensei no tamanho irreal e na posição eternamente imóvel que ganhavam quando vestia as peças mais desconfortáveis da indumentária humana… E saquei a carteira. Continuar lendo “Liberdade é um caminho sem volta”

Versos livres

Tenho colocado poucas palavras no papel. Meus pontos finais andam cada vez mais raros e já não sei o que dizer para a tela em branco, o caderno de bolso ou a parede preta pintada de tinta-lousa. Passei os últimos meses procurando sem sucesso pelo texto que se desmanchava entre sonhos dormidos e acordados, mas talvez procurasse, sem saber, pelos pedaços que se perderam de mim. Continuar lendo “Versos livres”

Azul, com traços vermelhos

A questão me apresentava quatro alternativas e, em cada uma delas, duas palavras ambíguas. Você é distante e reservada? Ou cuidadosa e atenciosa? Influente e criativa ou firme e assertiva? Azul, verde, amarela ou vermelha? Vamos, escolha. Conte-nos quem você é. Continuar lendo “Azul, com traços vermelhos”

(Des)aprendendo a escrever

Escrevo desde criancinha e nunca dei muita bola pra isso. Simplesmente inventava histórias para as minhas bonecas, para os personagens que eu gostava da televisão, ou criava minhas próprias heroínas estranhas e as colocava no papel – fosse em forma de quadrinhos, anotações nos cantos dos desenhos ou, certa vez, num calhamaço de papel escrito à mão, com capa e tudo como num livro de verdade.

Continuar lendo “(Des)aprendendo a escrever”

Daniel Radcliffe vive poeta beat em “Versos de um Crime”

versos

Mate suas coisas queridas, diz o professor. Mate seus impulsos infantis, suas manias, seus ídolos, e recomece. O professor Stevens (John Collum), à frente da turma de calouros na Universidade de Columbia, gostaria que o recomeço seguisse as tradições e a métrica clássica, mas não foi o que aconteceu a Lucien Carr, Allen Ginsberg, William Burroughs e Jack Kerouac naquele ano.

Versos de um Crime”, que estreia no dia 12 de junho, é uma mistura entre romance biográfico e thriller, que não se encaixa, entretanto, em nenhuma dessas categorias. O longa de estreia de John Krokidas narra com perfeição e detalhes uma fase-chave na história da literatura americana, nos anos 40, quando os principais nomes da geração beat se conheceram e deram os primeiros passos em direção à rebeldia que marcaria seus textos.

O filme fala de literatura como fala de amor, guerra e crime, e o faz com linguagem poética, como a de seus biografados. Desde a fotografia, escurecida e amarelada, até a escolha de cada corte e cada enquadramento (sempre fechado, particular, ora observando os poetas de cima, ora caminhando com eles), tudo é consciente, como uma discreta assonância num verso livre.

Daniel Radcliffe (bem longe do Harry Potter que o consagrou) entrega-se de corpo e alma a Ginsberg, nosso ponto de vista nesta história de amizade, inspiração e assassinato. Um homem morre já na cena inicial – mas, mais do que descobrir o culpado, precisamos entender por quê.

Comecemos, então, por Ginsberg. Educado e cuidadoso com a mãe, louca, o jovem (filho de outro poeta, Louis Ginsberg/David Cross) mal consegue relaxar para comemorar sua entrada na Universidade de Columbia. Lá, encontra uma instituição rígida e tradicional, quebrada apenas pelos surtos de um poeta exibicionista: Lucien Carr.

Interpretado visceralmente por Dane DeHaan, Carr é uma espécie de furacão que suga as energias de quem orbita à sua volta. Ele é sedutor e ambicioso, mas é um poeta apenas nas ideias, pois jamais escreve. Ele é a inspiração rebelde para escritores como Ginsberg, que só precisa de uma brecha no seu círculo de mesmices.

O círculo é a forma que rege o longa, cujo início coincide com o fim. Citado num discurso atribuído a Yeats, ele representa a repetição, a morte e o renascimento – mas diz-se que pode ser ampliado caso um evento quebre o padrão. Carr quebra o padrão de Ginsberg, que mergulha num delírio criativo e transformador (numa sequência deliciosamente provocativa, ao som de jazz); e Ginsberg quebra o de Carr, que é obrigado a amadurecer.

Juntam-se a eles David Kammerer (Michael C. Hall), Kerouac (Jack Huston) e Burroughs (Ben Foster), que logo criam um movimento chamado “Nova Visão”. Sua poética não é exposta nos versos, mas nas ações – como a invasão de uma biblioteca e a destruição de livros clássicos, só para que trechos dispersos sejam colados à parede, formando uma “nova” literatura.

Kammerer logo torna-se uma peça central: apaixonado por Carr, ele parece persegui-lo numa estranha relação de cumplicidade e medo. O personagem foi real e o caso ambíguo entre os dois nunca foi, de fato, desvendado. Na interpretação de Krokidas, as tensões são sexuais, tanto entre Carr e Kammerer quanto entre Carr e Ginsberg – que, sim, protagonizam um beijo bem quente, mesmo que rápido.

“Versos de um Crime” é um filme apaixonado por literatura, que prova em imagens e ações a força das ideias de uma geração de escritores. Para amantes de livros, será um cult. Para fãs de romances trágicos, será, no mínimo, marcante. Para todos os outros, é um filme que impressiona pelo visual, pela música e pelas atuações. Um must.

Texto publicado originalmente no site Guia da Semana.