Sobre “O Lar das Crianças Peculiares” ou Seja bem-vindo de volta, Tim Burton

Tim Burton está de volta. E, com isso, eu quero dizer realmente de volta – de volta a si, ao seu estilo, aos seus temas e aos seus universos bizarros e incompreendidos. Ironicamente, foi preciso mergulhar no trabalho de outro artista para que isso acontecesse: seu novo filme, “O Lar das Crianças Peculiares”, que estreia no dia 29 de setembro, é a adaptação do livro “O Orfanato da Sra. Peregrine Para Crianças Peculiares”, romance de Ransom Riggs lançado em 2011 e inspirado num conjunto de fotos antigas e excêntricas.


“O Lar das Crianças Peculiares” conta a história de Jake (Asa Butterfield), um menino desajustado e sem amigos que cresceu ouvindo as histórias de seu avô sobre um orfanato isolado onde viviam crianças com poderes mágicos. Com o tempo, e sob o julgamento constante dos colegas e do pai, o menino deixou de acreditar nas histórias e aceitou o fato de que seu mentor estava apenas velho e demente.

Se você sentiu nesse primeiro momento um eco de “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas”, provavelmente não é por acaso: o filme está cheio de auto-referências, incluindo duas sequências maravilhosas filmadas em stop-motion. Na primeira, um duelo entre bonecos grotescos que ganham vida graças à peculiaridade de uma das crianças, revemos a criação de Edward em “Edward Mãos de Tesoura”. Na segunda, uma batalha entre esqueletos e monstros sob uma trilha musical pop, vêm à mente tanto o videoclipe “Bones”, que Burton dirigiu para a banda The Killers, quanto o clássico “Jasão e os Argonautas”, animado pelo mestre do stop-motion Ray Harryhausen em 1963. Há, ainda, uma cena em que uma criança projeta um filme a partir de seus sonhos (habilidade que, creio, não existe no livro), numa homenagem belíssima ao cinema fantástico como um todo.

De volta ao filme, depois de alguns eventos misteriosos, Jake viaja com o pai para a ilha onde ficava o orfanato da Senhora Peregrine (Eva Green) – em ruínas, depois de ter sido bombardeado na Segunda Guerra Mundial. O pai, diga-se de passagem, é uma figura irresponsável e sem nenhum tato para se relacionar com o filho e, logo, Jake consegue se desvencilhar dele para descobrir que o orfanato ainda vive – em outro tempo, mas vive.

O filme brinca com viagens no tempo e “loops” temporais para trazer novidade a uma história já bem gasta – a mesma dos quadrinhos “X-Men”, onde mutantes rejeitados pela sociedade são acolhidos na escola de Xavier*; ou da série “Harry Potter”, onde bruxos vivem disfarçados entre pessoas comuns, mas estudam e trabalham em ambientes secretos.

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O trunfo do filme, porém, não está nesse contexto comum, nem no fato de que, como em tantos outros contos, o espectador é incentivado a questionar a natureza fantástica daqueles eventos (seriam as crianças “peculiares” apenas refugiados judeus durante a guerra?). Seu encanto, pelo contrário, está no que ele traz de mais particular – naquele ponto delicado onde termina Riggs e começa Burton.

Seria injusto diminuir a importância do livro ou do autor, mas, como na versão impressa, “O Lar das Crianças Peculiares” também encontra sua voz mais expressiva nas imagens do que no texto. E as imagens de Burton dizem muito sobre o seu momento como diretor.

Nesta aventura, é como se Burton deixasse sua imaginação correr solta e, inspirado pelo universo criado por Riggs, quisesse explorar todas as possibilidades que cada personagem peculiar lhe oferecia, sem se prender à lógica ou a tendências de mercado. O resultado é uma experiência fascinante e surpreendentemente singular.

Tecnicamente, Burton deixa para trás todos os excessos que marcaram sua obra e encontra um equilíbrio que só pode ser descrito como “maturidade”. Desta vez, ele explora o CGI como instrumento e não como fim (como fizera em “Alice no País das Maravilhas”), ao mesmo tempo em que se permite reverenciar o cinema de outro tempo com técnicas artesanais, cenários reais e uma narrativa inocente centrada em personagens juvenis, como nos melhores anos de Spielberg.

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Em termos de conteúdo, Burton parece ter enxergado na obra de Riggs a oportunidade para explorar alguns de seus temas mais caros: a sensação de não-pertencimento ao mundo (que leva seus personagens, frequentemente, a habitarem dois universos distintos), a valorização daquilo que é diferente e visto como “monstruoso” (repudiado por esse mesmo “mundo real”), relações conflituosas com a figura paterna e uma combinação muito particular de elementos sombrios e infantis.

Para quem gosta da tradição do cineasta de repetir colaboradores, temos de volta Eva Green (que trabalhou com Burton em “Sombras da Noite”) e arrisco dizer que esta não será a última vez que veremos Asa Butterfield. O ator de 19 anos tem o perfil ideal do “herói burtoniano”, atualizado para uma fase mais sóbria do diretor: ele é esguio, de olhos expressivos e aparência frágil, com um quê de introspectivo e um potencial enorme para se transformar, física e emocionalmente, no decorrer de um único filme.

Por fim, Burton parece ter se identificado tanto com o próprio filme que decidiu fazer uma pequena participação especial (uma piscadela – repare na cena do parque de diversões), como se dissesse aos fãs que este filme, com seu jeito old school, seu ar vitoriano e seus personagens exóticos, fosse mesmo um retorno ao que seus fãs tanto amavam em sua obra. E como é bom tê-lo de volta.

 

*Curiosidade: a roteirista de “O Lar das Crianças Peculiares”, Jane Goldman, trabalhou nos roteiros de “X-Men: Primeira Classe” e “X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido”.

Fala, Cinéfilo! #05 – Guerra Civil, Caça-Fantasmas, Convergente e Zootopia


No Fala, Cinéfilo! Desta quinzena, comentamos a aparição do Homem-Aranha no novo trailer de “Capitão América: Guerra Civil”. Também mostramos os trailers do reboot de “Caça-Fantasmas” e da animação em stop-motion “Kubo e a Espada Mágica”. Entre as notícias, saiba tudo sobre os contos inéditos de J.K. Rowling, a sequência de “Beetlejuice” e quem pode ser a próxima Lara Croft nos cinemas. Em cartaz, destacamos a aventura “Convergente”, o terror psicológico “Boa Noite, Mamãe” e a animação “Zootopia”.

Links:
Trailer “Capitão América: Guerra Civil”: http://bit.ly/1WhUJPS
Trailer “Caça-Fantasmas”: http://bit.ly/1U94h1z
Trailer “Kubo e a Espada Mágica”: http://bit.ly/1QPEZDy
Pottermore (contos de J.K. Rowling em português): http://bit.ly/1WhUW5u
Crítica de “Convergente”: http://bit.ly/1TtMJgK
Crítica de “Boa Noite, Mamãe”: http://bit.ly/1SJCEey
Crítica de “Zootopia”: http://bit.ly/1RXjPSV

PEIXE GRANDE E SUAS HISTÓRIAS MARAVILHOSAS

Fui injusta com “Peixe Grande” e preciso me redimir: quando falei aqui sobre “Aventuras de Pi” (Ang Lee, 2012), não mencionei o quanto seu sucesso se devia à mesma premissa do filme de Tim Burton. Na verdade, esse foi o primeiro pensamento que me veio à cabeça quanto assisti à cena final de “Pi” – Lee não precisava ter mastigado toda a fantasia para o espectador, expondo a versão “real” da história assim tão facilmente. “Peixe Grande” já fez isso em 2003, nós entendemos a metáfora. Mas, acho que na época não quis polemizar.

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Pois bem. “Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas” já foi alvo de muitas críticas e é considerado por muitos o filme menos “burtoniano” do diretor, um melodrama que se justificaria apenas pela morte do seu próprio pai no ano 2000 (no filme, um jovem se vê diante de um pai doente e reabre algumas feridas para finalmente aceitá-lo antes de se despedir). Protesto e o coloco no topo da minha lista de favoritos, como um dos primeiros filmes a reinterpretar clássicos escapistas infantis (como “Peter Pan”, “Alice” ou “Onde Vivem os Monstros”) na perspectiva de adultos – ideia que reaparecerá em “Em Busca da Terra do Nunca (Marc Foster, 2004) e no já citado “Aventuras de Pi”.

Vivido por Ewan McGregor na juventude e Albert Finney na velhice, Edward Bloom é um contador de histórias por excelência. Seus relatos percorrem os cenários mais improváveis e envolvem os personagens mais incríveis (como um gigante, duas gêmeas siamesas e um lobisomem), mas têm sempre um pé na realidade – o que nos deixa a imaginar a cada ocasião o que, de fato, teria acontecido.

Essa mistura de ambientes mágicos é um prato cheio para Burton, que tem no desenho sua melhor ferramenta. Extremamente visual, é nos cenários cuidadosamente construídos (segundo ele, as flores amarelas foram plantadas uma a uma), nas perspectivas falsas aprendidas em maquetes de Stop Motion e na caracterização bizarra dos personagens que ele se destaca.

Outra prova de que “Peixe Grande” tem toda a pinta de Burton é o perfil psicológico de Bloom. Ele não é um desajustado como “Edward Mãos de Tesoura”, mas usa a criatividade para fugir de um mundo que não lhe é suficiente. É assim com Alice, Wonka, até mesmo Batman. É assim com Burton. A trilha sonora, como em outros 14 filmes do diretor, ficou a cargo de Danny Elfman, ex-Oingo Boingo e hoje um dos compositores mais requisitados do cinema (ele está em cartaz com “Oz: O Mágico Poderoso”, “Hitchcock” e “O Lado Bom da Vida”).

Uma fábula sobre pais e filhos (sempre tão opostos e mal resolvidos), sobre o amor romântico, sobre a ficção e o próprio papel do cinema, sobre artistas e sua função na sociedade. “Peixe Grande” traz um pouco de tudo e muito da velha fantasia que, como diz Will, o filho de Bloom, “ouvimos tantas vezes que até esquecemos por que a adoramos em primeiro lugar”.