Vidas pequenas

Levei três meses para ser arrebatada pelo efeito colateral mais óbvio da quarentena: o apequenamento da vida. É claro que já o conhecia bem num sentido concreto, considerando os cinquenta metros quadrados do meu apartamento, mas agora lido com um encolhimento mais abstrato… Sinto-me, de repente, fechada em perspectivas claustrofóbicas de espaço e tempo.

Não tenho dúvidas de que devo metade desse feeling poético à pandemia e metade a leituras recentes de Walter Benjamin e Marc Augé. Um me disse que perdemos a noção de eternidade quando nos afastamos dos nossos mortos, e também dos vivos com suas histórias de pescador. O outro, que transformamos o que tínhamos de História em ruas, placas e monumentos e nos reduzimos a espectadores fugazes, sempre de passagem a algum outro não-lugar. 

E isso tudo me deu uma vontade louca de viajar, bem agora. E visitar museus. Experimentar a História em cinco sentidos e saber com os poros que existem coisas maiores do que o cotidiano, que o meu quarteirão e que todas as abas do meu navegador. Coisas que estavam aqui antes de mim ou de você e que estarão aqui depois, exceto na ocasião de um terremoto. E com elas poderíamos reaprender coisas que a quarentena nos tem esquecido, e que não se entende direito por livros nem imagens, nem lives nem podcasts. Coisas que lembram o infinito.

O problema é que hoje não me sinto infinita, e aposto que você também não. Sinto-me trancada no Dia da Marmota com pouco a contemplar além do agora e do daqui a pouco, do aqui e do logo ali. O que era mesmo que estávamos construindo? Olho o mundo e vejo-o pequeno, de memória curta e vista embaçada, e não tenho certeza de quando a doença começou. 

Foi a pandemia ou a modernidade?