Antes de viajar

Nunca fui muito de ter medos. Minha mãe vivia falando que eu era meio corajosa demais, coração de barata e tal; e isso, quase sempre, foi verdade. Mas eu tenho pelo menos um pânico muito real. Que é viajar.

Não viajar, viajar em si – pegar o avião, o carro, estar num lugar estranho, longe de casa, das pessoas… A graça são justamente os lugares estranhos, as camas estranhas, as ruas estranhas, acho fascinante ouvir pessoas que não falam a minha língua e a rotina perfeitamente calculada do avião é, para mim, quase reconfortante. Sobe, desata o cinto, lê um livro, serve a comida, escova os dentes, estica as pernas, vê um filme, dorme, acorda, olha a janela, repete. 

O problema é tudo, absolutamente tudo, o que vem antes disso. Tudo aquilo que pode dar errado e que pode fazer a viagem, vejam só, não acontecer. 

Para Portugal, o desespero começou no planejamento, meses atrás. “Ah, mas essa é a parte boa!” – ouvia enquanto pesquisava cidades, estadias, aluguéis de carro, passagens de ônibus, cotações de todo tipo. Talvez fosse mesmo, se feita por qualquer outro – e olha que eu o fiz impressionantemente bem. É que não consigo evitar pensar que, se o apartamento se revelar uma espelunca, se o orçamento estiver generoso demais ou apertado demais, se o carro for muito pequeno, se a previsão do tempo estiver errada, a culpa vai ser exclusivamente minha. Terei esquecido de pensar em algum detalhe que qualquer pessoa mais relaxada teria considerado – porque a pressão por pensar em tudo faz a gente escolher os caminhos mais complicados. Ah, a ironia.

Mas agora o roteiro está feito e tudo está pago. Espere. O que é essa dor esquisita aqui, faltando duas semanas para decolar? E se eu tiver uma emergência por lá? Coisas estranhas começam a aparecer. E desaparecem assim que me permito esperar, inspirar, expirar. Olho de novo: não poderia estar mais normal. 

Faltando uma semana, sinto que me animei. Vamos às malas? Oba! Hora de usar meus melhores casacos. Ou não? O quão frio, exatamente, vai estar…? Aiai. Até a minha cachorra sabe que o clima muda dentro e fora de mim quando estamos às vésperas de viajar. Reviro meu guarda-roupa, encho uma bolsa de remédios, me enterro em documentos, calculo todas as variáveis e decido que nenhuma delas é suficientemente favorável. “Estou levando coisas demais” e “estou deixando de levar algo essencial” convivem lado-a-lado sem, aparentemente, se anular. 

Finalmente, os dias que antecedem a partida são tomados por um torpor inútil, uma espera, um looping exaustivo de escrever, checar e riscar itens em listas espalhadas por três cadernos na esperança de controlar um futuro que não tem muito onde errar. 

Hoje, faltam três dias para o embarque e ainda sobram dois ou três fantasmas espiando sobre meus ombros. Eles habitam aeroportos e cochicham sobre passaportes, passagens, seguros, riem de algum documento que não vai bater. Falam da mala despachada que não vai chegar e lembram que é ano de Covid, então é preciso imprimir comprovante de vacinação, fazer exame de PCR, preencher formulários sanitários de dois países diferentes – mas isso, só na véspera do voo, por sadismo dos ministérios. O check-in, só 24h antes, ou tinha que pagar um rim e um olho para escolher lugar. Vamos sentar juntos? A essa altura, isso nem é o que me preocupa mais (mas a esperança está aí, de dedos cruzados). O importante é chegar lá, mesmo que isso envolva uma escala de cinco horas para um voo que, descobri há alguns dias, será de ridículos quinze minutos. Primeira cagada detectada? Tarde demais. 

Mas por que será que só eu estou me preocupando com isso tudo? 

Ah, sim, porque provavelmente eu não deveria. Ninguém precisa perder a cabeça por algo que tanta gente faz todo santo dia. Sou excelente em sofrer à toa.

E escrevo este relato, sincero e um pouco envergonhado, porque, às vezes, o horror abstrato perde um pouco da monstruosidade quando aprisionado, assim, no papel. Coisas escritas parecem mais óbvias, mais simples, meras sequências de tarefas pequeninas a realizar – por isso me cerco de listas, que tiram da memória a obrigação de trabalhar sob pressão e funcionam como um atestado de que vai ficar tudo bem. A viagem está pronta, afinal. Você já fez isso antes, nada jamais deu errado, e nem sozinha você está.

(Boba sou eu de achar que tenho que estar do outro lado do oceano para começar a viajar.)

Vidas pequenas

Levei três meses para ser arrebatada pelo efeito colateral mais óbvio da quarentena: o apequenamento da vida. É claro que já o conhecia bem num sentido concreto, considerando os cinquenta metros quadrados do meu apartamento, mas agora lido com um encolhimento mais abstrato… Sinto-me, de repente, fechada em perspectivas claustrofóbicas de espaço e tempo.

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