Do reino dos porquês

Já faz um tempo que tenho cultivado um carinho especial pelos porquês. Sei que são um capricho, que mais inspiram dor de cabeça e ódio à gramática do que amor pela língua portuguesa, mas essa sou eu. Gosto de coisas assim. Acho um mimo ter uma língua que se dá ao trabalho de eleger grafias diferentes para diferentes usos da mesmíssima palavra: uma para perguntar, uma para explicar, uma para a coisa explicada e uma última apenas para enfatizar a indignação de quem indaga. Me parece uma língua encantada com perguntas e respostas, uma língua provocadora que talvez um dia tenha pertencido a uma nação indignada, cheia dos porquês acentuados e devidamente separados ao final de suas frases gritadas.

Hoje preferimos a versão juntinha e sem essa maluquice de circunflexo (um acento com nome de arco e forma de V? Onde vocês estavam com a cabeça?). Gostamos de explicar, explicar, explicar, inventar motivos para continuar parados no mesmo lugar, sem questionar mais do que o que já sabemos, pois acreditamos firmemente que ninguém em sã consciência perguntaria mais do que pode responder. Coisa de louco, marciano, lunático: aquele que separa seus valiosos porquês. Coisa de filósofo, que não sabe nada (e passa a vida buscando o que nunca vai encontrar).

Este texto nem era para ser sobre porquês. Era, sim, para ser sobre motivos: sobre as causas que movem nossas escolhas e que enchem nossas habilidades de sentido. Pensava em tudo o que podemos fazer e não fazemos, no fato de que talvez o que falte a esse tudo sejam os porquês, e que sem eles tudo parece valer pouco mais do que nada. E andei me sentindo assim, meio sem causas, meio valendo nada. Sabendo nada e evitando perguntar. 

Mas escrever tem suas surpresas, e o que se forma na tela quase nunca se parece com o que estampava a imaginação. São meus dedos, sabe? Eles aproveitam a vantagem logística e assumem o controle da argumentação. Hoje, discordaram do meu interesse nos porquês e me convenceram a perguntar por quê. Por que é que você não enxerga seus motivos, hein? Terá sido aquela lista de regras a que você se preocupou em corresponder antes mesmo de começar? Terá sido o medo de que, se não riscasse absolutamente todos os itens exatamente como estavam descritos, nada do que você dissesse ou escrevesse teria qualquer valor? Ou será que você pensou que seus porquês precisavam se encaixar numa frase única, curta, direta e sem ambiguidades, como um caminho sem trânsito num domingo de manhã? 

Talvez seja porque, por mais que não concordasse, você aprendeu que normas valiam mais que ideias, forma mais que o conteúdo, respostas mais que perguntas. Porque uma pontinua de dúvida te fez perguntar se sonhos eram mesmo sinal de fraqueza, de ingenuidade, da negação infantil de uma realidade adulta – essa instituição organizada em tópicos, subtópicos e apêndices listados no índice em Arial 12 segundo a versão mais recente da ABNT.

E, pensando com as teclas, me bateu uma decepção comigo mesma por passar tanto tempo tentando desesperadamente explicar em que parágrafo eu me encaixava, onde é que todo mundo se encaixava, ao invés de perguntar por que diabos alguém ia querer caber numa página quando se tem a biblioteca inteira. Também me perguntei por que é que eu estava tentando conter todas as respostas sozinha, no meu livrinho de bolso, se eu podia aprender muito mais compartilhando perguntas com quem estivesse à minha volta. Porque essa biblioteca não está vazia, e perguntas abrem mais caminhos que respostas.

Às vezes me esqueço disso.

Quando lembro, reconheço alguns dos meus porquês.

Menininha

Todo mundo tem uma história vergonhosa da infância. A minha (uma delas) é essa: quando tinha meus 4 ou 5 anos, eu costumava me agarrar ao corrimão na casa da minha avó e chorar descompensadamente, bradando aos sete ventos que eu queria ir à escola de saia, não de calça. Fazia uns 10 graus. Continuar lendo “Menininha”

Ócio, velho desconhecido

Quando era mais nova, ouvia falar de um tal de “ócio criativo”. O nome era engraçado, parecia desculpa para não se fazer nada… Mas era coisa de artistas, de boêmios, devia ter o seu valor. Fosse como fosse, a verdade é que eu nunca o tinha praticado. Pelo menos, não conscientemente.

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Por amor às palavras

Faz tempo que não escrevo. Escrevo todos os dias, teço notícias, listas, análises, escrevo títulos, linhas finas, legendas, roteiros e sinopses, posts e anotações, críticas e comparações, mas há muito tempo que não escrevo nada. Um dia destes, entendi por quê. Continuar lendo “Por amor às palavras”

Um e cinquenta

Um e cinquenta.

Nem mais, nem menos. Dependendo de quem mede, às vezes é menos – mas esses não contam. Um metro e meio de charme, simpatia e alguns problemas que nenhuma pessoa de estatura média jamais pensaria em ter na vida: tipo dirigir o carro do vizinho. Continuar lendo “Um e cinquenta”