O Doutrinador: graphic novel brasileira chega aos cinemas pingando sangue

“Serial killer ou justiceiro?”. A frase, que aparece brevemente como a manchete de um jornal fictício no longa “O Doutrinador”, resume bem a questão que se coloca na tela (e nas ruas): afinal, vale tudo no combate à corrupção? Continuar lendo “O Doutrinador: graphic novel brasileira chega aos cinemas pingando sangue”

A Casa Que Jack Construiu – a descida ao inferno por Lars Von Trier

Há mais em comum entre Lars Von Trier e seu mais novo protagonista, o serial killer vivido por Matt Dillon em “A Casa Que Jack Construiu”, do que o próprio cineasta gostaria de admitir. Não que Trier vá sair pelas ruas estrangulando mulheres aleatórias, mas, como seu Jack, ele também pode ter os olhos vendados, de tempos em tempos, pelo próprio narcisismo. Continuar lendo “A Casa Que Jack Construiu – a descida ao inferno por Lars Von Trier”

“Custódia”: drama francês discute violência na separação

Mais um sucesso da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo do ano passado está chegando aos cinemas para sua rodada no circuito comercial. “Custódia”, drama francês sobre um casal que briga pela guarda do filho mais novo, foi um dos grandes títulos que, ao lado de “Sem Amor” e “O Vale das Sombras”, fez daquela a Mostra das crianças perdidas. Continuar lendo ““Custódia”: drama francês discute violência na separação”

Crítica: “Os Oito Odiados” se esforça demais para chocar, mas ainda é um bom Tarantino

Quentin Tarantino não é de fugir de polêmicas, mas, quando seu novo filme, “Os Oito Odiados”, estrear, é bom que ele esteja preparado. O diretor americano, que tem uma tendência a usar a palavra “nigger” como se fosse “bom dia”, volta a trabalhar o conflito entre brancos e negros num faroeste cheio de violência, humor e alguns diálogos ultrajantes.

odiados

“Os Oito Odiados” conta a história de dois caçadores de recompensas, John Ruth (Kurt Russell) e Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), que tentam levar suas vítimas para a prisão de Red Rock, onde receberão o dinheiro. O problema é que uma delas, a louca e agressiva Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), ainda está viva, e Ruth pretende mantê-la assim até chegarem ao destino. No caminho, os três ainda encontram Chris Mannix (Walton Goggins), um homem que diz ser xerife e que pega carona com eles.

O grupo é surpreendido por uma nevasca e decide se hospedar numa pequena pousada no meio da estrada. Misteriosamente, os donos não estão e o lugar está ocupado por outros quatro homens: Bob (Demian Bichir), Oswaldo Mobray (Tim Roth), Joe Gage (Michael Madsen) e o general Sandy Smithers (Bruce Dern). Como a ventania se agrava, os oito (mais o cocheiro O.B., vivido por James Sparks) concordam em passar as próximas horas juntos, confinados numa sala fechada como uma panela de pressão.

O filme segue a tradição claustrofóbica de obras como “Deus da Carnificina” (2011) e “O Anjo Extreminador” (1962), mas, segundo o diretor, a inspiração veio de “O Enigma do Outro Mundo” (1982), onde buscou o nível de tensão e paranoia necessários a estes personagens. Em “Os Oito Odiados”, como no filme de John Carpenter, ninguém é confiável.

Tarantino conduz seus atores com um roteiro forte e uma safra de falas marcantes que não devem demorar a virar jargões, mas as três horas e dois minutos de duração pesam bastante no resultado final. O filme é o mais longo já feito por Tarantino (com exceção, é claro, de “Kill Bill”, se somarmos os dois filmes) e o ritmo não é o mesmo de seus maiores sucessos.

A preciosidade que levou o cineasta a manter um corte tão longo permitiu que alguns diálogos se tornassem didáticos ou redundantes e que o silêncio de algumas cenas (especialmente no início) ultrapassasse o limite do poético e dispersasse a atenção do público. Essa falha, felizmente, é compensada na segunda parte, quando a adrenalina toma conta da pousada.

O que realmente incomoda em “Os Oito Odiados” não é o tempo, mas sim o quanto Tarantino se esforça para chocar. Já sabemos que seus filmes são violentos, mas aqui ele aproxima mais a câmera para mostrar cabeças explodindo. Já sabemos que ele defende uma espécie de “vingança racial”, mas aqui ele transforma o negro num sádico abusador de brancos. Já sabemos que ele quer mostrar mulheres fortes, mas aqui sua protagonista apanha brutalmente a cada frase que pronuncia. O exagero, que em “Kill Bill” ou “Bastardos Inglórios” foi base para um humor sarcástico e autêntico, aqui passa do limite e beira o mau gosto. Teria o diretor se conformado com o estereótipo de “provocador”?

É evidente que “Os Oito Odiados” não faz tudo isso por acaso. A discussão racial tem sido pauta do trabalho de Tarantino desde “Jackie Brown”, quando iniciou uma rixa com o também diretor Spike Lee, que dura até hoje. O cineasta ainda afirmou, em coletiva no Brasil, que tem insistido no faroeste porque “a forma como lida com a questão da raça tem algo a contribuir para o gênero”.

Há ainda uma segunda questão a se considerar na forma como Tarantino aborda a violência e os conflitos raciais neste filme em particular. Recentemente, o diretor participou de manifestações contra a truculência da polícia norte-americana, especialmente contra a população negra, e recebeu, em troca, ameaças de boicote e “outras surpresas” por parte dos policiais. A tensão que dominou este ano nas ruas, portanto, se reflete na violência descontrolada que vemos na tela.

“Os Oito Odiados” tem uma angústia a expressar e uma crítica a fazer, mas isso não justifica, de todo, a falta de equilíbrio do filme. Falta uma edição mais enxuta e uma história mais coesa, sobram pequenos detalhes mal explicados (como o fato de Warren não saber quem é Domergue, ou dos “oito” não ficarem bem definidos). Como um estudo de personagens sob pressão, é uma obra exemplar. Como o oitavo filme de Quentin Tarantino, poderia ser melhor.

Texto publicado originalmente no Guia da Semana.